Como e porquê a Rússia está a mudar?

Giulietto Chiesa*    10.Oct.08    Outros autores

GIULIETTO CHIESA

Jornalista e deputado do Parlamento Europeu, o autor, Giulieto Chiesa analisa, com base em conversas com os Medvedev e Putin, o que mudou nas posições russas depois da invasão da Ossétia do Sul pela Geórgia…

O Ocidente, tanto na sua componente europeia como norte-americana, não consegue compreender a profunda mudança que provocou na Rússia a chamada «crise georgiana».

Digo chamada pois as palavras adequadas para definir o que aconteceu são outras: «ataque georgiano contra a Rússia». Não quero com isto dizer que tudo se reduz a esta agressão insensata. Mas creio que esta acção de Tbilisi foi a clássica gota de água que fez transbordar o copo. Um momento normal, à sua maneira fatal, em que, bruscamente, se evidenciaram muitas coisas que até então tinham estado escondidas. Um momento que rompe com a continuidade e põe violentamente as coisas a nu. Muitas destas impressões são devidas à minha posição privilegiada de membro do Clube Internacional Valdai (Valdai Fórum) [1], um grupo de discussão que existe há anos e permite a um certo número de peritos internacionais, «sovietólogos» de velha e nova data, politólogos e jornalistas estarem em contacto directo com os principais dirigentes da Rússia, onde há uma franca e alargada troca de opiniões (garantido pelo seu carácter extra-oficial). Três horas dia 10 de Setembro com o primeiro-ministro, Vladimir Putin, em Sochi (Mar Negro) e quase outras três com o presidente Dimitri Medvedev, em Moscovo, numa sala enorme do GUM, precisamente em frente do Kremlin. E um intervalo muito activo, entre a primeira e a segunda reuniões, com o ministro das Relações Externas, Lavrov. Dois homens que intrigam o mundo inteiro, seguramente dois estilos diferentes. Mas – apesar dos esforços que fizeram os seus pares, sobretudo ingleses e estadunidenses, para evidenciar diferenças, para saber «quem manda no Kremlin», há uma única linha, muito clara e muito nova. Era o que se esperava, dado que Putin e Medvedev, sabiam perfeitamente o que lhes iam perguntar os seus convidados estrangeiros, e tinham claro que estes iam à procura dos deslizes de um e outro, como diferenças intensidades e de tom, e submeteram-se à prova em rápida sucessão, muito seguros de si mesmos. Resumirei algumas das passagens cruciais, cumprindo o pacto de não fazer citações literais, mas respeitar o sentido geral do que ouvi. Esta é uma delas de Dimitri Medvedev: «O 8 de Agosto foi para nós o fim das ilusões que tínhamos em relação ao Ocidente». O espírito do que disse Putin umas horas antes foi idêntico. A argumentação não podia ser mais clara. Depois do desmoronamento da União Soviética – disseram ambos –, por muitas e conhecidas razões, a Rússia foi débil, vacilante. Em 11 de Setembro e nos anos seguintes suportámos a pressão que os vencedores da Guerra-Fria exerceram sobre nós e contra nós com dificuldade. Sofremos não apenas por sermos débeis, mas também porque tínhamos ilusões sobre o Ocidente, sobre as suas liberdades, a sua sinceridade. Tivemos de suportar o contínuo, e para nós insuportável, alargamento da NATO. Puseram-na à frente dos nossos narizes, inclusive dentro das fronteiras que tinham sido da URSS, e também dentro da Rússia anterior à revolução. Protestámos, mas não reagimos. Não podíamos. Depois veio o 11 de Setembro e lançámos uma mão á luta contra o terrorismo internacional, mas acabámos por descobrir que os EUA criavam bases e colocavam contingentes em vários países da Ásia Central. Entretanto a área de influência estadunidense estendia-se à Geórgia e à Ucrânia, isto é, muito perto das nossas fronteiras. Desencadearam duas guerras, Iraque e Afeganistão, e nós não nos intrometemos. Com o Irão lançámos uma mão. Mas na Sérvia os países ocidentais intervieram sem cortesia não só contra Belgrado mas também contra nós, ignorando as nossas propostas e não cumprindo o pacto de que não seria posta em causa a soberania servia no Kosovo. Este incumprimento dos acordos – disse Medvedev – repetiu-se demasiadas vezes desde o fim da Guerra-Fria. Se os dirigentes soviéticos que acordaram a retirada de 89 tivessem sido mais exigentes (alusão muito crítica a Gorbachov sem o nomear), teriam pedido que se assinasse o compromisso de não ampliar a NATO. É que o compromisso existia, apesar de não estar passado a escrito. Inclusivamente, depois da guerra da NATO contra a Jugoslávia, permanecia o compromisso de não reconhecer unilateralmente a secessão do Kosovo. Depois, em simultâneo com as provocações dos dirigentes ucranianos e georgianos, instalam mais mísseis na Polónia e um radar na República Checa, que penetrará profundamente, sem qualquer direito a isso, em território russo. Até que chegou a ofensiva de Shakashivili contra as nossas forças de interposição que estavam, com todo o direito, na Ossétia do Sul.

O que é Washington esperava? – exclamou Putin num dado momento –, que não reagíssemos? Que não defendêssemos os nossos soldados, alguns dos quais já tinham sido mortos nos primeiros ataques da noite de 7 para 8 de Agosto? Dizeis que a nossa resposta foi desproporcionada. Mas não há forma de defender de um ataque sem golpear os centros de comando, de comunicações, os aeroportos de onde saíam os aviões que bombardeavam a Ossétia e as nossas tropas. Escreveram e repetiram que a Rússia estava a invadir a Geórgia. É completamente falso: não tínhamos essa intenção nem isso aconteceu. Qualquer comparação com o 68 checoslovaco está fora de causa. Esta é a situação. E esta situação «modificou as nossas prioridades» (Medvedev). É o fim do diálogo? De modo nenhum, mas cuidado (Putin), já não retrocederemos mais. «Não queremos voltar ao clima bipolar (Medvedev), mas faz falta uma nova arquitectura da segurança internacional» (Putin), porque a que há agora não nos agrada nada. O sistema bipolar não tem futuro, mas ideia unipolar também está morta e enterrada. A Rússia não é a URSS, não continuem a alimentar este equívoco. Não continuem a ampliar a NATO com países divididos por dentro, classes dirigentes ineptas e ressentidas pelos acordos do passado, sistemas institucionais instáveis. Isso aumenta a insegurança de todos. Imaginem o que teria acontecido em Agosto se a Geórgia estivesse já na NATO. «De qualquer forma», disse Medvedev, «eu teria tomado as mesmas decisões daquela noite sem a menor hesitação, mas as consequências teriam sido de uma ordem de grandeza superior». A crise foi um catalizador que «alterou completamente as relações externas da Rússia». As coisas mudaram. É melhor que os EUA e a Europa tenham isso em conta. A cada acção seguir-se-á uma reacção, mesmo que não seja igual e contrária, mesmo que não seja simétrica, da mesma força. Sanções contra a Rússia? Putin de forma mais agreste, Medvedev mais comedido, disseram: «Não nos provoquem». Veríamos quem pagava um preço mais alto. Os vossos homens de negócios seriam os primeiros descontentes com tais decisões. E foi Putin, na sua qualidade de chefe do governo, que explanou com detalhe a situação económica da Rússia, as suas vantagens estratégicas em recursos, antes de mais energéticos mas também financeiros, naturais, tecnológicos e humanos. «Não temos ambições expansionistas em qualquer direcção» (Medvedev) e estamos interessados em vender os nossos recursos como o temos feito, sem problemas, durante estes anos todos. Mas se o Ocidente «continua a dar-nos empurrões» (Putin) saibam que nós, para começar, não deixaremos que nos empurrem, e além disso temos muito espaço para nos voltarmos para outro lado. «Não nos esquecemos das nossas raízes europeias» (Medvedev) «mas podemos (de certo modo devemos) deslocar o centro de gravidade dos nossos interesses para Oriente, caso contrário as nossas imensas regiões orientais não poderão desenvolver-se».

É evidente que tudo faremos para impedir tal desenlace. Mas se alguém se indignar por o dizermos, se se põem a gritar ó da guarda!, porque queremos limitar as iniciativas de um país soberano fronteiriço connosco, então (Medvedev e Putin em uníssono) perguntamos-lhes: Por que é que os EUA podem pressionar Kiev para entrar na NATO, se está a milhares de quilómetros de distância, e nós, em contrapartida, não podemos velar pela nossa segurança?

Palavras claras e duras, difíceis de rebater. Não lhes dar a devida importância equivale a acrescentar o perigo de uma guerra no centro da Europa. Chegou o momento da maior responsabilidade e do maior realismo.

E nisto, coincidem ambos.

Nota do Tradutor:
[1] Clube Internacional Valdai, organizado há cinco anos pela Agência de Notícias RIA Novosti, o Conselho de Política Externa e de Defesa e as publicações The Moscow News e Rússia Profile

Este texto foi publicado em:www.megachip.info

* Jornalista, membro do Parlamento Europeu

Tradução de José Paulo Gascão

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