Como os soldados chineses ajudaram os bolcheviques a tomar o poder na Rússia Um interessante e pouco conhecido episódio da história dos comunistas

Boris Egorov    11.Ene.21    Outros autores

A Revolução de Outubro de 1917, a tomada do poder pelo proletariado russo, a primeira revolução socialista vitoriosa da história, constituem um conjunto de acontecimentos em cuja infinita riqueza há ainda aspectos a conhecer melhor. Juntamente com o entusiasmo e a solidariedade internacionalista planetária que de imediato percorreu o mundo, a própria participação internacionalista directa na sua consolidação, nomeadamente no decurso da guerra civil que se lhe seguiu, promovida e apoiada pelas grandes potências capitalistas.

“Um [soldado] chinês é duro, não tem medo de nada. O seu irmão pode ser morto na batalha, mas nem piscará um olho … Se entende que deve enfrentar um inimigo, o inimigo não é de invejar. Um [soldado] chinês ] lutará até o fim”, escreveu o comandante soviético Iona Yakir nas suas Memórias como um velho soldado do Exército Vermelho.

Mais de 40.000 soldados chineses lutaram na guerra civil russa do lado do Exército Vermelho. O que os levou a envolver-se num conflito alheio em terras alheias?

Sob as bandeiras da revolução

Em 1917, a Rússia tinha uma população de etnia chinesa de quase 200.000, a maioria dos quais fazia trabalhos humildes na indústria, agricultura e construção. O governo czarista tentou resolver a escassez de força de trabalho resultante da Primeira Guerra Mundial recrutando mão de obra barata na China.

No entanto, quando a guerra civil começou e os bolcheviques chegaram ao poder, os chineses na Rússia viram-se numa situação difícil. Enquanto o país se afundava no caos, não havia muitas oportunidades para ganharem a vida. Quando a Sibéria, assim como os portos do norte e do sul, caiu sob o controle da Guarda Branca e das tropas aliadas, o caminho de casa ficou bloqueado para a população chinesa da Rússia central. Além disso, nem todos queriam regressar à China, que na época atravessava a chamada Era dos Senhores da Guerra e estava a ser dilacerada por bandos militares e políticos.

Portanto, talvez a única coisa a fazer para o proletariado chinês, que se aglomerara nas grandes cidades russas para se alimentar e às suas famílias e ganhar dinheiro suficiente para a viagem de volta para casa, fosse alistar-se no Exército Vermelho. “Os chineses levavam muito a sério o seu pagamento. Deram a vida facilmente, mas pediam para ter os pagamentos em dia e estarem bem alimentados”, lembrou Yakir.

Mesmo assim, o dinheiro não foi a única razão pela qual milhares de chineses se alistaram sob as bandeiras vermelhas. Muitos deles tinham afinidade com a ideologia da revolução socialista e do comunismo. “A Rússia czarista e a China, com a dinastia Qing no poder, não estavam muito distantes: em ambos os países os ricos viviam no luxo e na tranquilidade, enquanto os pobres viviam na fome e no frio”, escreveu o soldado Chen Bo-chuan nas suas memórias ‘Dias e noites na Sibéria’.

Os bolcheviques estavam bem cientes dos sentimentos prevalecentes na comunidade chinesa e dirigiram-lhe uma propaganda incessante, incitando-os a unir esforços para construir uma nova e justa ordem mundial. Nas grandes cidades, surgiram jornais em língua chinesa com títulos como “Grande Igualdade”, “Estrela Comunista”, “Operário Chinês” e outros. Os membros da comunidade chinesa ficaram agradavelmente surpreendidos ao saber (através dos meios de imprensa dos bolcheviques) que Lénine havia expressado fortes críticas sobre como a Rebelião dos Boxers contra a dominação estrangeira na China no ano de 1900 havia sido reprimida pelas grandes potências.

Como resultado, dezenas de milhares de voluntários chineses juntaram-se às fileiras do Exército Vermelho. Alguns esperavam ganhar um pedaço de pão, outros sonhavam regressar a casa, outros inspiravam-se nas ideias de uma revolução mundial e outros ainda não se oporiam a aproveitar as desordens que reinavam na Rússia para realizar alguns roubos e saques.

A Guarda Vermelha

Os soldados chineses rapidamente ganharam a reputação de alguns dos mais disciplinados e eficazes do Exército Vermelho. Não podiam desertar e misturar-se com a população estrangeira num país estrangeiro, de modo que a sua lealdade era inquestionável. “Os soldados chineses desempenharam sempre os seus deveres com extrema honestidade e consciência e, portanto, ganharam uma grande confiança por parte dos comandantes”, escreveu o soldado Zhang Zi-xuan nas suas memórias ‘Ombro a Ombro’.

“São todos guerreiros corajosos, mas não suportam uma coisa, o brilho do aço”, lembrou o líder do partido Yakov Nikulikhin no seu livro ‘Na frente da guerra civil’: “Os cossacos estavam cientes disso e em dias de sol antes de um ataque, começavam a agitar as espadas desembainhadas. Isso deixou os chineses em pânico e fugiram para se esconder num campo de girassóis. Mas, em geral, um soldado chinês do Exército Vermelho é corajoso, não recua perante o fogo das metralhadoras e combate bravamente. ”

Os brancos tinham particular aversão aos chineses no Exército Vermelho, juntamente com outros estrangeiros nas suas fileiras, letões, estónios, húngaros. Os “selvagens, os infiéis e os espiões alemães” eram considerados um dos principais pilares do poder bolchevique e, quando feitos prisioneiros, costumavam ser fuzilados de imediato.

Da Polónia ao Oceano Pacífico

Os 40.000 soldados chineses do Exército Vermelho nunca actuaram como uma força única. Em vez disso, foram divididos em destacamentos de no máximo 2.000 a 3.000 soldados cada e incorporados em unidades maiores espalhadas por todo o país. Assim, havia soldados chineses na 25ª Divisão de Espingardeiros do lendário comandante vermelho Vasily Chapayev e até mesmo na guarda pessoal de Lénine.

Uma das unidades do Exército Vermelho mais fortes e confiáveis ​​nos Urais e na Sibéria era o 225º Regimento Internacional Chinês sob o comando de Ren Fuchen. Após a sua morte em 29 de Novembro de 1918, foi condecorado postumamente com a Ordem da Bandeira Vermelha e Lénine encontrou-se pessoalmente com a sua viúva e filhos.

Cerca de 500 cavaleiros chineses serviram na melhor unidade militar bolchevique, o 1º Exército de Cavalaria de Semyon Budyonny. Durante a guerra soviético-polaca, um contra-ataque inimigo no Vístula isolou-os das forças principais, forçando-os a recuar para território alemão, onde foram detidos. Os alemães mantiveram os chineses separados, tentando persuadi-los a permanecer ao seu serviço, mas os chineses recusaram-se e em breve voltaram para a Rússia juntamente com os outros prisioneiros.

No Extremo Oriente russo, uma das unidades chinesas mais famosas foi o destacamento partizan do comunista San Di-wu, que lutou com sucesso contra as tropas cossacas brancas locais, os invasores japoneses e norte-americanos e os bandidos chineses, os Honghuzi. O seu chefe era conhecido pela sua coragem excepcional: muitas vezes envolvia-se em combate corpo a corpo com o inimigo, foi ferido quatro vezes e uma vez fez até descarrilar uma locomotiva a vapor norte-americana.

Há também chineses que combateram ao lado da Guarda Branca. Houve casos em que, ao encontrarem-se na frente de combate com os seus compatriotas do Exército Vermelho, passaram sem hesitar para o seu lado.
[…]

Após a guerra

Após o fim da guerra civil, o pessoal chinês continuou a servir na polícia soviética, no Exército Vermelho e nos serviços de segurança. Combatiam os bandidos, guardavam as estradas através das quais eram entregues alimentos às províncias famintas durante a fome de 1921-1922, na qual morreram até cinco milhões de pessoas.

Centenas deles decidiram ficar definitivamente na União Soviética. Casaram com mulheres russas e encontraram trabalho na indústria e na agricultura. Por exemplo, Cha Yan-chi, depois de se formar como agrónomo, fez muito para desenvolver o cultivo de arroz no norte do Cáucaso.

Todavia, a maioria dos que compunham o contingente chinês do Exército Vermelho voltou â sua terra natal. Com uma rica experiência de combate e um ulterior treino especializado, voltaram a casa para ajudar Mao Zedong a estabelecer o domínio soviético e rapidamente se tornaram o núcleo do Partido Comunista Chinês.


Fonte: http://www.marx21.it/index.php/storia-teoria-e-scienza/storia/30894-come-i-soldati-cinesi-aiutarono-i-bolscevichi-a-prendere-il-potere-in-russia

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos