Contradições*

Jorge Cadima    10.Mar.18    Outros autores

Enquanto se aprofunda a crise do capitalismo agudizam-se as contradições entre as suas principais potências, que procuram sacudir os seus efeitos para cima de outros. Os sinais acumulam-se, desde a reacção às medidas proteccionistas tomadas por Trump ao descrédito – como em Itália – dos partidos que vêm gerindo o sistema. E à seriíssima advertência feita por Putin aos que pretendam empreender uma acção de agressão militar contra a Rússia.

Chovem notícias indicando o aprofundamento da crise do capitalismo. A guerra comercial proteccionista, até aqui encoberta sob a capa de sanções, multas ou questões sanitárias, é cada vez mais aberta. Trump anunciou tarifas sobre todas as importações de aço (25%) e alumínio (10%), invocando a «segurança nacional» (Washington Post, 1.3.18). No ano passado o défice comercial dos EUA em bens e serviços foi de 566 mil milhões de dólares, «o maior desde 2008», com um défice recorde em mercadorias com a China de 375 mil milhões (New York Times, 2.3.18). Mas a China não figura sequer entre os dez maiores exportadores de aço para os EUA, sendo a lista encabeçada por quatro aliados dos EUA: Canadá (16% das importações dos EUA), Brasil (13%), Coreia do Sul (10%) e México (9%). O anúncio suscitou ameaças de represálias do presidente da Comissão Europeia, Juncker, entre outros. É previsível uma escalada. A cooperação é cada vez mais substituída pela confrontação entre potências que procuram sacudir para cima de outros os efeitos da crise.

O resultado das eleições em Itália é sintoma, e por sua vez factor de agravamento, da crise da/na UE. Por contraditório que seja, reflecte um profundo descontentamento com as políticas de ‘austeridade’ e com os efeitos devastadores do euro. Entre 2007 e 2016 o país perdeu uns estonteantes 22% da sua importante produção industrial (Repubblica, 23.9.16). O partido de governo, o PD, sofreu uma derrota importante. A tradicional revista da City de Londres, The Economist, propriedade dos Rothschilds e, desde 2015, também da família Agnelli (os grandes magnatas da FIAT), apelou nas vésperas da eleição ao voto no PD, cujo governo «introduziu reformas num sistema que ainda protege em demasia quem tem empregos permanentes, encorajando as empresas a empregar jovens apenas com contratos a curto prazo» (1.3.18). Não espanta que grande parte do voto popular tenha abandonado o PD e optado por quem era apresentado como crítico radical. Outrora um dos países mais ‘euro-entusiastas’, a Itália é hoje um dos mais ‘euro-cépticos’, e metade do eleitorado votou em quem criticou o euro. Como noutras paragens, as bravatas eleitoralistas de partidos do sistema que se proclamam ‘anti-sistema’ pouco têm que ver com as suas reais intenções. Mas a crise da UE vai tornar-se ainda mais complexa.

Digno de registo é o discurso do Estado da União do Presidente russo, sobretudo pelas declarações políticas, que não foram objecto de atenção mediática. Putin afirma que «estamos muito preocupados com certas passagens do [novo documento de estratégia nuclear dos EUA, anunciado por Trump em Fevereiro]. […] Nós lemos o que está escrito. E o que está escrito é que esta estratégia [nuclear] pode ser concretizada como resposta a um ataque [apenas] de armas convencionais, ou mesmo a uma ciber-ameaça». Após reafirmar que a doutrina militar da Rússia apenas prevê a utilização de armas nucleares em resposta a um ataque nuclear, Putin acrescenta a seguinte frase: «Considero ser meu dever anunciar o seguinte. Qualquer uso de armas nucleares contra a Rússia ou os seus aliados, sejam elas de curto, médio ou qualquer alcance, será considerado como um ataque nuclear contra este país. A retaliação será imediata e com todas as consequências». Quem anda distraído, ou convencido de que a situação de quase conflito aberto entre as principais potências nucleares é coisa pequena, tem a obrigação de acordar.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2319, 8.03.2018

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