Critérios

Anabela Fino*    30.Ago.09    Outros autores

Anabela Fino
Dia 20 de Agosto, Álvaro Uribe fez aprovar no Senado uma proposta de referendo para alterar a Constituição que lhe impede o terceiro mandato. No mesmo dia, no cumprimento de buscas domiciliárias em casa do senador Alirio Villamizar ordenadas pelo Supremo Tribunal, foram encontradas avultadíssimas quantidades de dinheiro em pesos e em divisas, alegadamente para pagamento de subornos a 37 senadores que votaram favoravelmente a proposta de Uribe. Os media nacionais ignoraram o assunto. Critério editorial, claro.

No final da semana passada o senado colombiano aprovou uma proposta de referendo com o objectivo de permitir a reeleição de Álvaro Uribe em 2010. A decisão contou com 56 votos a favor e dois contra, num total de 102 senadores, uma vez que os representantes dos partidos Liberal e Pólo Democrático optaram por não comparecer à sessão. O debate ficou marcado por acusações de suborno a senadores que antes se opunham a um terceiro mandato de Uribe.

No mesmo dia (20 de Agosto), a descoberta de mais de 1.000 milhões de pesos (mais de meio milhão de dólares) em numerário e outra quantia milionária não especificada em divisas em casa do senador conservador Alirio Villamizar fazia manchetes na imprensa colombiana. As buscas domiciliárias foram ordenadas pelo Supremo Tribunal de Justiça na sequência de denúncias, que envolvem mais 37 senadores, num escândalo de corrupção envolvendo dinheiros públicos para garantir – como se veio verificar – o voto favorável a uma reforma constitucional (esta em 2004) que permitiu a reeleição de Álvaro Uribe em 2006.

Juntamente com o dinheiro encontrado em casa de Villamizar, que para além de senador é também vice-presidente do Partido Conservador, o partido de Uribe, os investigadores apreenderam três discos duros de computador, agendas e outros documentos. A investigação prossegue, mas já se ouvem apelos à reintrodução do direito à impunidade… dos deputados da nação.

Dias antes de rebentar o escândalo, representantes do democrático regime de Uribe assinavam em Washington o acordo para a instalação de sete bases militares dos EUA no país, em nome da defesa da democracia e da luta contra o tráfico de droga e a corrupção.

Entretanto, no início desta semana, um estudo divulgado em Bogotá dava conta de que pelo menos oito milhões de colombianos vivem na indigência e outros 20 milhões são pobres, numa população de 44 milhões de habitantes. O relatório, monitorizado por delegados do Banco Mundial e da Comissão Económica para a América latina e Caribe, considera «pobre» uma família de quatro pessoas com um rendimento mensal inferior a 543 dólares, e «indigente» uma família idêntica com um rendimento de 248 dólares.

Ainda esta semana, mas no dia 25, a Câmara de Representantes colombiana, com 166 membros, votava a proposta de referendo para a reeleição de Uribe.

Ao contrário do que seria de esperar, dada a particular atenção que os comentadores nacionais dão à Colômbia e a Uribe, nada disto motivou reflexões ou artigos de opinião. No melhor dos casos, a pretensão de levar a cabo uma segunda reforma constitucional em cinco anos para garantir um terceiro mandato a Uribe foi tema de uma «breve», sem direito a comentários. Nem haveria motivo para tal, evidentemente. Como toda a gente sabe, Uribe é um democrata que pode ser reeleito as vezes que quiser, ao contrário de Zelaya, nas Honduras, onde não houve «luvas» a deputados mas não faltaram mãos sujas para aplaudir o golpe de Estado. O pretexto, recorda-se, foi impedir a consulta popular sobre uma eventual reforma constitucional.


Este texto foi publicado em Avante nº 1.865 de 27 de Agosto de 2009

* Jornalista

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