Cronicando sobre a resistência venezuelana

Ana Saldanha    30.Abr.13    Outros autores

As forças bolivarianas, embaladas pelo ambiente da campanha eleitoral e por sondagens que vieram a verificar-se muito pouco fiáveis, deixaram-se contagiar pelo triunfalismo. Quando foram anunciados os resultados apenas uma parte dos venezuelanos gritou de júbilo. Outros ficariam atónitos perante a tão pequena margem da vitória de Maduro. A Festa, uma vez anunciados os resultados, iria ter uma estranha amargura no paladar. Mas, contrariando o desalento de alguns nessa noite, logo no dia seguinte cerrar-se-iam fileiras em apoio ao novo Presidente.

18 de Abril de 2013. Tensão. Permanente. A Festa rapidamente se transforma em acessos de pânico. Ou, ao contrário, de júbilo. As emoções estão instáveis, à imagem do ambiente da cidade de Caracas. As forças, na rua, medem-se. Ao cacerolazo convocado por Capriles responde o foguetazo convocado por Maduro, à violência dos bairros favorecidos do Este caraquenho, respondem as buzinas, as músicas, Chávez e Maduro nas t-shirts, as palavras de ordem que se sintetizam no tão repetido Non Volveran, no centro e periferia de Caracas.

O socialismo, para muitos, está em marcha, ainda que não saibam explicá-lo. Sabem, conhecem, vivem as mudanças progressistas impulsionadas pelo processo bolivariano, identificam-nas com Chávez, mas tantas vezes incapazes de compreender as necessárias mudanças estruturais no sistema económico e político para que o socialismo seja, de facto, uma realidade no país. No entanto, não há que ter dúvidas. O processo bolivariano alterou radicalmente a vida de milhões de venezuelanos. Condições de habitação dignas, através do projecto Missión Vivienda, Centros de Saúde gratuitos e descentralizados, através do projecto Missión Barrio Adentro, alfabetização de adultos e prosseguimento de estudos, através das diferentes etapas do projecto Missión Robinson.

Organizações populares estenderam-se a diferentes regiões da Venezuela, muitas vezes com o apoio ou de países ou de organizações progressistas e revolucionárias latino-americanas, permitindo que aqueles que sempre haviam sido excluídos fizessem ouvir a sua voz e participassem activamente na vida dos bairros onde moram ou do local onde trabalham. Participação e organização dos trabalhadores, participação e organização dos moradores, participação e organização dos estudantes, participação e organização das mulheres, discussão teórica e prática política, troca de dúvidas e de saberes, foram fazendo parte do quotidiano dos venezuelanos ao longo dos últimos 14 anos.
Chávez era a sua referência. E não só. Aquele que em 1992 havia sido encarcerado por ter organizado uma rebelião militar, seria eleito em Dezembro de 1998 pela maioria da população venezuelana, através de um sistema criado por, e para, a classe dominante, que então seria surpreendida por esse jovem tenente-coronel do exército que mobilizara 56% dos votantes. Por aquele que, desde logo, viria a ser o líder de uma transformação em toda a América Latina. Por aquele que executaria reformas profundas na Venezuela, permitiria uma repartição mais equitativa da riqueza, afrontaria o imperialismo estadunidense e o neocolonialismo fomentado por empresas estrangeiras, transformaria radicalmente a estrutura da PDVSA e nacionalizaria o recurso natural tão cobiçado pelos centros imperialistas, o petróleo.

Em 2002, um golpe de estado de 47 horas foi abortado graças à união de uma parte do Exército, fiel a Chávez, com a maioria da população venezuelana. A grande burguesia, sob as ordens e orientações dos serviços de inteligência estadunidenses, perdera esta batalha, e Chávez demonstrara ao mundo que as diferentes classes e camadas trabalhadoras, apoiadas pelo Exército, podem superar as forças do imperialismo. Uma política posta ao serviço dos mais desfavorecidos, daqueles que sempre haviam sido explorados e ignorados, conseguira criar nestes a consciência da necessidade de mudanças, da necessidade de salvaguarda dos progressos alcançados e da consequente necessidade de os proteger e de por eles lutar. Se necessário fosse, até à morte. A Venezuela havia reconquistado a sua soberania e a pátria tornara-se, com Chávez, de facto, Sua. Sua, deles, de todos aqueles que haviam sido vítimas dos sucessivos governos ao serviço de interesses estrangeiros, pátria que tornara Memória os mortos, torturados, desaparecidos.

5 de Março de 2013. Chávez perde a vida. Milhões de venezuelanos choraram pelas ruas de Caracas o desaparecimento daquele que lhes trouxera dignidade e lhes dera novas esperanças para alcançar uma vida digna. Durante dias, as filas sucederam-se no Quartel da Montanha, na paróquia 23 de Enero, para saudar, uma última vez, o Comandante Presidente. Em toda a América Latina, manifestações de homenagem a Chávez se fizeram ouvir.

Chávez Vive, La Lucha sigue, sigue. O sonho bolivariano de uma América Latina solidária, soberana e unida revivera com Chávez, mas não morrera com ele. Os progressos de uma política que subvertera os interesses do Capital, tentando criar uma alternativa à barbárie capitalista, firmara-se nos corpos e consciências. Nicolás Maduro foi, como o próprio sempre o repete, o filho escolhido por Chávez para aprofundar o processo bolivariano. Apoiando-se em três eixos fundamentais, Socialismo, anti-imperialismo e soberania nacional, Maduro, no seguimento do trabalho de Chávez e do seu governo, volta a afrontar o imperialismo, negando a submissão da pátria venezuelana a interesses alheios.
11 de Abril de 2013. Sete avenidas de Caracas cobrem-se de vermelho. A maré humana já não chorava por Chávez, antes festejava a candidatura de Maduro a Presidente. Mas o Comandante Presidente não deixou de marcar presença. Nas roupas, nos bonés, nas fotografias, nas palavras, nos gestos, nos gritos. Em Maduro, os venezuelanos buscaram a imagem de Chávez, enquanto Maduro buscou na acção e herança política de Chávez um guia para o futuro da Venezuela. E a maré vermelha lá esteve. Presente. Festiva. Dançando e bebendo. Comemorando três dias antes o que considerava ser uma vitória certa. A palavra de ordem, Alerta, alerta, alerta que camina, la espada de Bolívar por América Latina, convertera-se em Alerta, alerta, alerta que camina, Chávez y Bolívar por América latina.

Pós-eleições presidenciais

14 de Abril de 2013. O toque de Diana soara às 3h para relembrar a todos que, naquele dia, havia que ir às urnas. Nas paróquias 23 de Enero, La pastora, La Vega, filas estendiam-se nos centros de voto. Venezuelanos e venezuelanas de diferentes gerações aguardavam. Alguns levavam cadeiras, todos levavam sorrisos, outros comida e bebida, e assim falavam, discutiam, conversavam, enquanto, tranquilamente, esperavam a abertura das urnas, 3h mais tarde. O Exército, responsável por manter a segurança e assegurar o correcto desenrolar do processo eleitoral, orientava, calmamente, todos aqueles que pacientemente esperavam e que haviam transformado a espera num convívio.

A alegria emanava de diferentes ruas da cidade. Ainda o sol não tinha nascido, e já a certeza da vitória de Maduro parecia inquebrantável. Três dias antes, as sondagens ainda apresentavam aproximadamente dez por cento de diferença entre, por um lado, Nicolás Maduro e, por outro, o representante do capital Capriles Radonski.

Capriles Radonski pertence a uma das famílias mais poderosas da Venezuela, a qual se encontra à cabeça de vários conglomerados industriais, imobiliários e mediáticos. A família Radonski possui a segunda cadeia de cinema do país (CINEX) e é proprietária do Diário Últimas Noticias, diário de maior difusão nacional, assim como de cadeias de rádio e de um canal de televisão.

Respondendo ao apelo da Diana, os eleitores de Maduro acorreram de madrugada às urnas. No decorrer da tarde, o que as sondagens haviam indicado dias antes parecia confirmar-se. Na simbólica paróquia 23 de Enero, cantava-se, dançava-se, bebia-se, continuando o ambiente festivo dos centros de voto. O triunfalismo pairava no ar, ameaçante, esquecendo o poder do domínio ideológico da burguesia, trabalhado ao longo de vários anos, daqueles que ao serviço do capital estão. A noite chegaria ao 23 com a cerveja esgotada, os frigoríficos preparados para essa falta, e os gestos triunfantes de quem diz não ter dúvidas da vitória retumbante do sucessor de Chávez e orgulhosamente prediz que, sem dúvida alguma, Maduro, depois de conhecida a sua (certa) vitória, viria fazer o primeiro discurso pós-eleitoral no quartel onde o Comandante Presidente repousa o corpo, naquele mesmo bairro.

A tarde decorre. O final da tarde e o início da noite chegam. As horas passam, as urnas fecham, e os resultados, todavia, não saíam a público. Normal, diziam, todos. Uma argentina, no entanto, olhava-me de soslaio, lançando-me interrogações e dúvidas, Não, não é normal esta espera. Perto das 22h, Maduro, contrariando o ambiente popular do 23 de Enero, apela a uma concentração em Miraflores. No 23, todavia, comentava-se que, Não, não pode ser, se ele fala em Miraflores, virá depois, de certeza, ao 23, Aqui está o camarada Comandante.
À alegria que havia contagiado o bairro, mesclava-se, agora, a dúvida. Porquê convocar a população para Miraflores? No entanto, uma coisa é certa: se Maduro convocava a população para Miraflores, seria porque, certamente, os resultados lhe eram favoráveis. Desci a Miraflores, já não crendo (como sucedeu) que o novo Presidente da República Bolivariana da Venezuela fosse ao bairro 23 de Enero, e juntei-me à Brigada Internacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST - Brasil), na Venezuela. Solidariedade Internacionalista brasileira que desde 2005 vai cruzando os caminhos de militantes dos dois países. Fiquei perplexa perante o reduzido número de venezuelanos. As caras contraíam-se ou do álcool ingerido ou das interrogações provocadas pelo atraso da saída dos resultados oficiais. Percebi que, afinal, o triunfalismo esquecera, de facto, as armas da burguesia. As mensagens, ameaçantes, chegavam aos telefones móveis, O número de votos de ambos parecia estar demasiado próximo.

Quando, já as 23h passadas, são anunciados os resultados numa camioneta móvel, na Avenida Urdaneta, apenas uma parte dos venezuelanos gritou de júbilo. Outros ficariam atónitos perante a tão pequena margem da vitória de Maduro. A Festa, uma vez anunciados os resultados, iria ter uma estranha amargura no paladar. Vi lágrimas conterem-se da ansiedade vivida e palavras de surpresa, tristemente trocadas. O discurso inaugural da presidência, nesse 11 de Abril, não ficará, certamente, para a História, como um discurso triunfalista. E todos se perguntavam, Como será a resposta dos caprilistas?

Talvez tenha sido o medo dessa resposta, ou o horário do metro, ou a amargura provocada pelo resultado eleitoral, ou o cansaço da espera, ou tudo, e mais ainda, aquilo que tenha desmobilizado os venezuelanos nessa noite do dia 11 de Abril. Fosse qual fosse a razão, o facto é que, contrariando o desalento dessa noite, logo no dia seguinte, segunda-feira, 12 de Abril, fileiras cerrar-se-iam em apoio ao novo Presidente.
E os sectores conservadores e neoliberais que atacassem. Aí estariam os firmes e valorosos defensores do processo revolucionário bolivariano a postos, prontos a defendê-lo.

A pré-preparada fraude

A fraude, já de antemão preparada pelo imperialismo estadunidense, juntamente com os sectores da burguesia venezuelana e seus apoiantes, é imediatamente lançada como guia para uma tentativa de reversão do resultado eleitoral. Nos dias que antecederam as eleições, grupos paramilitares vindos, sobretudo, da Colômbia, haviam sido detidos. Uma vez anunciado o resultado eleitoral, Capriles recusa reconhecê-lo, projecta dúvidas e calúnias sobre o desenrolar das eleições, ataca os sectores progressistas e revolucionários, as instituições venezuelanas e a Constituição, e logo no dia 12 de Abril lança-se numa tentativa de golpe de estado.

Existem cinco poderes na Venezuela: executivo, legislativo, judicial, eleitoral e moral. O Poder Eleitoral venezuelano é, assim, um poder autónomo. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é o representante deste Poder que organiza e põe em marcha todos os mecanismos necessários para que as eleições se desenrolem dentro das normas constitucionais. Pois bem. A casa e o carro da Presidente do CNE foram atacados a tiro, enquanto a televisão do Estado, a VTV, foi cercada por opositores e actos de violência se estendiam a diferentes pontos do país.
Grupos de choque urbanos, criados e treinados pelo imperialismo estadunidense, logo ocuparam determinadas ruas em diferentes estados do país, inclusive em Caracas. A capital, aliás, tornou-se no terreno por excelência para Capriles medir a sua força social.
Instando ao ódio e à violência, Capriles tenta criar um ambiente que, como constantemente referem os caraquenhos, remete para aquele terrível 11 de Abril de 2002. Hoje, dia 18 de Abril de 2013, na sequência dos actos de vandalismo e de violência estimulados pelo candidato perdedor, o número de mortos bolivarianos elevava-se a oito.

No entanto, num momento em que a tensão e os actos de violência aumentavam de intensidade, em Caracas e em outros estados, Capriles recuou. Consciente, talvez, de que a sua força eleitoral não correspondia à sua força social, de que, se Maduro contava com o apoio de milhões de venezuelanos, dispostos a combater até à morte, os seus apoiantes, ao contrário, a tal não estavam dispostos, consequência, talvez, de divergências internas no seio da Mesa de Unidade Democrática (MUD), agrupação política que o apoiara, preparando, talvez, outro tipo de acções que tentem reverter (a médio prazo) a ordem constitucional, o facto é que Capriles Radonsky recuou. Recuou ao anular uma marcha nacional, prevista para quarta-feira, dia 17 de Abril, em Caracas. A qual, pelo menos ele assim o desejaria, levaria a um eventual confronto entre opositores e defensores do processo revolucionário bolivariano, na tentativa de criar um clima de guerra civil que obrigasse as Forças Armadas a intervir.

Apesar desse recuo, Capriles, servindo a classe que representa e os interesses do grande capital nacional e estrangeiro, continua a realizar apelos à violência. Ao ódio. Ao desprezo pelas instituições venezuelanas. À provocação. No entanto, se, na segunda-feira, dia 15 de Abril, o cacerolazo (diário) convocado por Capriles tomara de surpresa os sectores progressistas e revolucionários venezuelanos, desde terça-feira, dia 16 de Abril, tem tido como resposta um foguetazo que, graças ao estridente ruído dos foguetes, abafa o som emitido pelas panelas que se entrechocam.
Entretanto, nas ruas, a presença de progressistas e revolucionários dispostos a salvaguardar, a qualquer preço, o aprofundamento do processo bolivariano, é crescente; a música, colunas viradas para o espaço público, junta-se ao foguetazo e expande-se pela cidade; têm sido quotidianos os diferentes actos de apoio institucionais; vigílias sucedem-se; os elementos das Forças Armadas marcam a sua presença na rua e demonstram o seu apoio ao Presidente eleito; a correlação de forças, hoje, quatro dias após as eleições, parece ser favorável a Maduro.

Fala-se, apesar disso, de guerra, de guerra de baixa intensidade, de golpe de Estado (suave), de atentados golpistas. A atenção e vigilância das forças progressistas e revolucionárias é, por isso, constante. Os círculos bolivarianos e os comandos de campanha reorganizam-se e preparam-se para medir forças, organizando continuamente acções de apoio a Maduro. As Forças Armadas dizem não estar divididas e reconhecem os resultados eleitorais. Organizações populares e políticas exigem que os autores físicos e intelectuais dos oito mortos bolivarianos sejam levados perante a justiça. Os ânimos atiçam-se. Mas o temor também paira. Fala-se de um corte de abastecimentos, a médio prazo, provocado pelos sectores caprilistas. De paralisação do país. A ingerência externa, guiada pelo império estadunidense, atiça a polarização. Capriles grita fraude, ódio e violência. Maduro responde, endurecendo o discurso, reiterando os valores do socialismo, assumindo-se como o primeiro presidente operário e chavista da República Bolivariana da Venezuela. Que amanhã, dia 19 de Abril, fará publicamente o juramento como Presidente. E não estará só. Acompanhá-lo-á uma marcha convocada pelas organizações comprometidas com o processo revolucionário bolivariano. Uma nova maré vermelha inundará, certamente, Caracas.

Alerta, alerta, alerta que camina, Chávez y Bolívar por América Latina!

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