Da repressão ao escândalo de Estado

Rémy Herrera    02.Ago.18    Colaboradores

Em França a presidência da República é constitucionalmente blindada contra escândalos. Macron julga-se completamente impune. Entretanto, o caso do seu guarda-costas Benalla acabou por o expor ao escrutínio mediático e parlamentar e fragilizou-o. Com o regresso das férias regressarão as lutas, e Macron estará mais fraco.

No decurso dos últimos meses, a repressão anti-social subiu vários degraus em França. O estado de emergência, substituído em Novembro de 2017 por uma lei antiterrorista, tem muito a ver com isso. Mas é sobretudo a multiplicação das lutas dos trabalhadores, em numerosos sectores da sociedade, que explica a extensão das operações policiais e militares. ~

Até há pouco, as oposições visíveis ao presidente da República Emmanuel Macron vinham da rua, dos sindicatos e do povo mobilizados, bem mais do que da classe política e dos media. Tudo isso mudou em 18 de Julho após a eclosão do “caso Benalla”. Bastaram três dias para fazer com que o Eliseu passasse da euforia da vitória da equipa francesa no campeonato do mundo de futebol a um sismo político de amplitude inimaginável.

Os mesmos media que tinham servido como máquinas de guerra para eleger o candidato Macron como chefe de Estado lembram hoje ao presidente que o seu poder executivo se limita ao de executante dos desejos dos grandes capitalistas. No Parlamento, o choque provocado por este “caso Benalla” conseguiu fundir a direita tradicional (Os republicanos) e aquilo a que chamarei “nova direita” (os resíduos da social-democracia) ao lado da extrema-esquerda ( France insoumise e Partido Comunista) e da extrema-direita (ex- Front National, agora Rassemblement national ) numa oposição generalizada contra Macron.

Mas do que se trata neste “caso”? Em 18 de Julho, vídeos datando do 1º de Maio último começam a circular na Internet mostrando um homem com capacete – que se verificará ser o adjunto do chefe de gabinete do presidente Macron, Alexandre Benalla – a interpelar e bater um casal jovem depois da manifestação da Festa dos Trabalhadores em Paris. Benalla revela-se aí brutal – à semelhança de numerosas operações de repressão –, mas ostenta também insígnias das forças da ordem, quando ele não é nem polícia nem militar. Ele é apenas um guarda-costas, exaltado e brigão, mas muito apreciado por Macron que o havia recrutado durante a sua campanha eleitoral e depois o promovera ao seu gabinete presidencial.

Sabe-se então que com apenas 26 anos de idade e não tendo outra formação senão aquela recebida no trabalho do serviço de ordem do ex-Partido Socialista, Benalla teria beneficiado de privilégios: promoção ultra-rápida, remuneração confortável, porte de armas obtido por procedimento não regulamentar, atribuição de um apartamento nos bairros elegantes da capital… Alguns destes favores eram manifestamente exorbitantes: hábito de dar ordens a polícias e militares, porte de braçadeira das forças da ordem, livre acesso à Assembleia Nacional, “contactos amistosos” na prefeitura de polícia que lhe transmitiu os registos de câmaras de vigilância que o põem em causa… Além disso, o gabinete de Macron pretende tê-lo imediatamente sancionado pelo seu excesso de zelo… sem que quaisquer traços dessas sanções fossem encontrados: Benalla continua a deslocar-se com o presidente, recebe seu salário, mantém seus privilégios…
Os slogans da campanha prometendo uma “República exemplar” dão lugar à suspeita de criação de uma polícia paralela (ilegal, “privada”) obedecendo ao presidente da República. Perante as explicações reclamadas por todos, Macron e seu governo, atordoados, permaneceram mudos durante vários dias.
Foram necessárias às oposições dez horas de batalha parlamentar para suspender os debates sobre a reforma constitucional (pretendida por Macron, pois destina-se a dotá-lo de poderes ainda mais vastos do que aqueles, imensos, de que já dispõe) e para constituir uma comissão de inquérito. Perante esta comissão, o ministro do Interior veio dizer que não sabia de nada, enquanto um desfile de altos funcionários acrescentava que eles tão pouco sabiam muito mais.

Não é de admirar: tudo acontecia no Eliseu. Foi preciso esperar uma semana (de caos) antes que Macron interviesse. Fê-lo à sua maneira, feita de provocações, dizendo em substância: “Sou o único responsável. E quem quiser, que me venha buscar!” Buscar? Mas aqueles que conhecem as instituições políticas francesas sabem bem que a Constituição da V República protege poderosamente a pessoa do Presidente da República. De facto, o que Macron declara, pequeno fantoche da finança, é que aplicará a força, que fará aplicar a vontade dos seus patrões capitalistas desafiando todos os contra-poderes: parlamento, media, manifestações populares…

Algumas vozes (não parlamentares) pedem a sua destituição. Duas moções de censura contra o governo foram apresentadas na Assembleia Nacional. O “caso Benalla”, ainda em curso, manchou profundamente – e oportunamente – a imagem de Macron tanto no país como no estrangeiro. Daí, preparar em melhores condições os trabalhadores para o futuro regresso de lutas sociais, em Setembro!

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