De cimeira em cimeira*

Filipe Diniz    18.Dic.11    Colaboradores

Primeiro Ministro Polaco Beija mão a MerklA Cimeira Europeia de 8 e 9 de Dezembro mostrou novamente que o grande capital europeu não só não tem outras soluções senão aquelas que conduziram à crise, como não conhece outro caminho que não seja o de fazer cair os seus custos sobre os trabalhadores e sobre os interesses, a soberania e a independência dos povos. Mas mostrou também que se agudizam as contradições entre as grandes potências capitalistas.

Nos media «de referência» as notícias sobre economia começam a adquirir uma dimensão mística. Veja-se o «Público» (11.12.2012): «Comerciantes à espera de um milagre no Natal». Este título, aliás, faz todo o sentido se lembrarmos que a Cimeira Europeia de 8 e 9 de Dezembro foi acompanhada de orações à Virgem Maria por parte do papa Bento XVI, rezando «pela Itália e pela Europa».

A esta altura da crise (ou da convergência em simultâneo de diferentes crises) compreende-se que o capitalismo não desperdice hipóteses, incluindo as metafísicas. Mas esta Cimeira Europeia mostrou novamente a crua realidade: o grande capital europeu não só não tem outras soluções senão aquelas que conduziram à crise, como não conhece outro caminho que não seja o de fazer cair os seus custos sobre os trabalhadores e sobre os interesses, a soberania e a independência dos povos. Mas a Cimeira mostrou também que se agudizam as contradições entre as grandes potências capitalistas. Mostrou que o grande capital em Inglaterra, onde operam grandes instituições financeiras não-europeias, não está disposto a ser «supervisionado» por autoridades europeias que constituam um heterónimo do eixo franco-alemão, nem a sustentar mecanismos de estabilização obsessiva de um euro que seja um heterónimo do marco alemão.

O memorando inglês(http://www.scribd.com/fullscreen/75193128http://www.scribd.com/fullscreen/75193128) mostrou que a grande burguesia inglesa recusa o que Passos Coelho servilmente aceita, nomeadamente a transferência de poderes do plano nacional para o das agências UE decidida por maioria, ou a imposição de regras fiscais aos estados-membros, a imposição de taxas e de impostos decidida por maioria. Fosse a questão impor novos patamares à exploração e novos cortes em direitos, todos continuariam de acordo. Mas aqui tratava-se de sectores do grande capital em disputa entre si num quadro em que a crise se aprofunda: em Agosto de 2011 verificou-se a maior queda mensal na produção industrial na zona euro; em Outubro verificou-se uma queda abrupta nas exportações alemãs. A «austeridade» acelera e amplia a dinâmica recessiva que alastra, peça a peça, a todo o dominó da zona euro.

A questão não é salvar o capitalismo da crise. É salvar os povos do capitalismo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1985, de 15.12.2011

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