De Cócoras perante a China

Paul Craig Roberts*    31.Ago.07    Outros autores

Mais do que pela análise feita no texto, que não é nova nem aprofundada, a sua publicação é justificada por ser de quem é, um homem do establishment: nada mais nada menos que o antigo Secretário Adjunto do Tesouro, no governo de Reagan…

A China fez saber [N.do T.: principio de Agosto] aos idiotas de Washington que os tem agarrados pelos cornos. Dois importantes porta-vozes do governo chinês afirmaram que as suas consideráveis reservas de dólares estadunidenses e Títulos do Tesouro “são uma grande contribuição para a manutenção da posição do dólar como moeda de reserva”.

Se os EUA adoptarem sanções para provocar a valorização da moeda chinesa, “o banco central chinês ver-se-á obrigado a vender dólares, o que poderia levar a uma massiva desvalorização do dólar”.

Se os mercados financeiros ocidentais forem suficientemente inteligentes para compreender a mensagem, as taxas de juro dos EUA aumentarão sem ter em conta nenhuma acção ulterior da China. Neste momento a China não precisa de vender um único Título. Num instante, a China deixou claro que as taxas de juro dos EUA dependem da China e não da Reserva Federal Americana (FED).

A precária posição do dólar dos EUA como moeda de reserva foi completamente ignorada e negada. A ilusão de que os EUA “são a única super-potência do mundo”, cuja divisa é desejável apesar da sua excessiva colocação em circulação, reflecte o desmedido orgulho estadunidense, não a realidade. Esse orgulho é tão extremo que há apenas 6 semanas o McKinsey Global Institute publicou um estudo onde concluiu que, inclusive, uma duplicação do actual deficit da conta-corrente dos EUA para 1,6 biliões de dólares, não causaria problemas.

Pensadores estratégicos, sem qualquer tendenciosidade porque não foram saneados pelos neoconservadores, rapidamente concluíram que o poder da China sobre o dólar e as taxas de juro dos EUA, também dá à China poder sobre a política externa dos EUA. Os Estados Unidos puderam atacar o Afeganistão e o Iraque só porque a China possibilitou a maior parte do financiamento das guerras de Bush.

Se a China deixar de comprar Títulos de dívida emitidos pelo Tesouro dos EUA, será o fim das guerras de Bush. A taxa de poupança dos consumidores dos EUA é praticamente zero, e vários milhões estão aflitos por hipotecas a que não se podem permitir. Com o orçamento deficitário de Bush e sem possibilidades no orçamento dos consumidores para um aumento dos impostos, as guerras de Bush só podem ser financiadas por estrangeiros.

Nenhum país do mundo, à excepção de Israel, apoia o desejo do regime de Bush de atacar o Irão. A China tem que decidir se chama o embaixador dos EUA e lhe transmite a mensagem de que não haverá ataque ao Irão ou outra guerra, a menos que os EUA estejam dispostos a recomprar 900.000 milhões de dólares e outros activos em dólares.

Naturalmente, os EUA não têm reservas estrangeiras com que recomprar esses valores. O impacte de uma tão grande venda sobre as taxas de juro dos EUA arruinaria a economia dos EUA e terminaria, efectivamente com a capacidade de Bush de desencadear guerras. Além disso, provavelmente outros governos seguiriam a iniciativa da China, já que o principal apoio dos dólares dos EUA foi a vontade da China de os acumular. Se o maior possuidor se desfizesse dos dólares, outros países também o fariam.

O valor e o poder de compra do dólar dos EUA cairiam. Se os norte-americanos fossem a Wal-Mart fazer compras, os novos preços levá-los-iam a pensar que tinham entrado numa loja de luxo. Os norte-americanos não poderiam manter o seu actual nível de vida.

Ao mesmo tempo, os norte-americanos seriam afectados quer por aumentos de impostos, a fim de equilibrar um deficit orçamental que os estrangeiros não estariam dispostos a financiar ou por grandes cortes nos programas de segurança de recebimentos. A outra única fonte de finanças orçamentais seria o governo imprimir dinheiro para pagar as suas contas. Nesse caso, os norte-americanos ficariam perante mais inflação, com os preços mais elevados pela desvalorização do dólar.

É uma perspectiva sombria. Colocámo-nos nesta posição porque os nossos governantes são imbecis e ignorantes. Tal como os nossos economistas, muitos deles cúmplices assalariados de um qualquer grupo de interesses. Tal como os nossos dirigentes empresariais, cuja ganância deu à China poder sobre os EUA, quando enviaram para lá a produção de bens e serviços. Foram os peixes graúdos empresariais quem converteu o Produto Interno Bruto dos EUA em importações chinesas, e foram os economistas do “comércio livre, mercado livre” quem os incentivou a fazê-lo.

Como fica com tanto orgulho desmedido pessoas tão estúpidas como os estadunidenses?

* Paul Craig Roberts foi Secretário Adjunto do Tesouro no governo de Reagan. Foi editor associado da pàgina editorial do Wall Street Journal e editor-colaborador de National Revue. É co-autor de “The Tiranny of Good Intencions

Este texto foi publicado em http://www.counterpunch.org/roberts08082007.html

Tradução de Miguel Guedes

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