De tanga*

Anabela Fino    27.Oct.20    Outros autores

Está em curso uma campanha concertada para fazer chegar ainda mais dinheiros públicos ao negócio privado da saúde. Desde autarcas a ex. bastonários da Ordem dos Médicos, passando pelos grandes media, há um verdadeiro fogo de barragem: “o SNS não dá conta, é preciso ir pedir (e pagar) a ajuda dos privados”. Dos mesmos privados que se recusaram a participar na primeira vaga da pandemia. E a campanha tem o alto patrocínio do PR, desta vez de tronco nu.

Vacinar, vacinar, vacinar. A recomendação está na ordem do dia, não só por causa dos riscos acrescidos pela COVID-19, mas também e se calhar mesmo sobretudo pelo incentivo que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa veio trazer à justa causa da prevenção no combate à gripe.

Por esta altura poucos serão os que ainda não viram as imagens de Marcelo a ser vacinado, desta feita estranhamente em tronco nu, para «dar o exemplo» e mostrar os peitorais. É de crer que os gerontes foram sensíveis ao apelo de «venham o mais rápido que possam» vacinar-se, pelo menos a avaliar pelas longas filas formadas à porta dos centros de saúde, farmácias e Juntas de Freguesia, onde desde segunda-feira os prioritários enfrentam a intempérie, à chuva e ao vento, para, veja-se a ironia, se protegerem da gripe. Não consta que alguém tenha dado o peito às balas, salvo seja, despindo a camisa, qual Marcelo, mas percebe-se o motivo; se pôr o braço ao alcance da seringa já é a demora que se vê, imagine-se o que seria a tirar mais peças de roupa! O SNS até era capaz de nem aguentar, o que seria dramático para os utentes, naturalmente, mas também para os médicos, coitados, que andam num sufoco que nem podem.

Numa carta aberta à ministra da Saúde, seis bastonários da Ordem dos Médicos dizem-se movidos pela «angústia de quem conhece os doentes pelo nome e sabe que o SNS, como está, sozinho não os poderá ajudar a todos». «Não há tragédia maior do que esta», dizem, garantindo que os «doentes precisam de uma resposta agora, pelo que não podemos prescindir de uma visão de conjunto».

A missiva tem solução para o pungente drama: recorra-se aos sectores privado e social, para que a capacidade instalada seja efectivamente usada em vez de desperdiçada. Trocando por miúdos: face a uma situação de carência, paguem que nós «ajudamos». Ou melhor, paguem mais, uma vez que os privados já ficam com cerca de 41% do orçamento da Saúde, dos quais os hospitais privados ficam com 22,5%, enquanto os consultórios e gabinetes médicos recebem quase 20%, conforme dados recentemente divulgados pelo INE, referentes a 2018. Para se perceber como o sector privado é o grande sorvedor do orçamento do SNS, retenha-se que estes 41% do orçamento para a saúde representam 47% da faturação total dos privados. Mais, as verbas que vêm do SNS são a garantia de pagamento de 31,6% das despesas correntes do conjunto do sector privado, segundo o INE. Isto para não falar da ADSE, que paga 6,6% da despesa corrente dos prestadores privados de saúde, valor que sobe para os 19% no caso dos hospitais privados.

Aliando a «angústia» destes senhores, que fizeram o juramento de Hipócrates mas algures pelo caminho enveredaram pela hipocrisia, com a imagem de Marcelo sem camisa, ocorre perguntar se não nos estão a querer pôr de tanga…

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2447, 22.10.2020

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