Decadência da Cultura como vivência e factor de progresso

Uma maior atenção à cultura poderia contribuir decididamente para a ascensão do povo português a um patamar mais alto de convívio com as ideias, as formas e a sua própria formação e descoberta dos outros, dos sentimentos, da vida social, dos sonhos e dos saberes através dessa arte da palavra e da reinvenção da vida que é a literatura.

A democratização da cultura, com o acesso de muita gente nova ao ensino secundário e mesmo à Universidade foi-se processando na Europa na Segunda metade do século XX, na sequência de muitas lutas e conquistas sociais, acentuou-se nas décadas de 60 e 70, com a difusão dos ideais comunistas e libertários e até de um maoismo deturpado que entusiasmou muitos jovens.

O certo é que se deram rupturas profundas, em boa parte reabsorvidas posteriormente. A crítica à sociedade do consumo e do espectáculo, de Guy Debord, é um exemplo da mistura de lucidez e niilismo com que muitos olharam o vazio egoísta de uma sociedade medíocre, mas sem lhe opor uma alternativa.

A atracção pelo modelo de vida americano entrou na Europa com a proliferação de centros comerciais, estabelecimentos de fast food, cinema no geral violento e simplista, que, com brilhantes e por vezes arrojadas excepções, veiculava os valores de uma sociedade de mercado, especialmente sob as presidências de Reagan.

Nova York tornou-se um grande centro de criação e difusão cultural, mas não eram os Norman Maylor, os Truman Capote, os John Updike, os Philip Roth ou os Gore Vidal que sociologicamente representavam a literatura da facilidade, do êxito calculista, da intervenção dos «redactores» nas obras dos autores, que atingiam fabulosas tiragens.

As multinacionais começavam a investir também nas editoras e nas literaturas de concessão ao mau gosto altamente rendosa.

É certo que desde sempre houve atracção por esse género, na Europa como no resto do mundo. Mas o tratamento comercial desses livros de mero entretenimento ou de receita para a felicidade, para o triunfo, está a ultrapassar tudo. Até os de religiosidade atraente, de forjada espiritualidade, passaram a ser comercializados e largamente publicitados como produtos para multidões. O seu carácter inócuo, conformista, mesmo quando arremeda o inconformismo, contrasta com a irreverência e o cunho artístico, contestatário, de toda ou quase toda a autêntica literatura, sendo isto extensivo ao teatro, ao cinema e a outras formas de comunicação artística.

Se considerarmos a questão, do lado dos produtores de verdadeira literatura, encontramos por toda a parte (e nomeadamente no nosso país) vários tipos de reacção: a dos intelectuais que aceitam esse estado de coisas como uma fatalidade, ligada ao modelo económico vigente, o capitalismo na sua fase neo-liberal, ainda cheia de força, embora já a caminho da sua auto destruição (apressada pela revolta dos trabalhadores); a atitude muito frequente da crítica benigna ou mesmo colaborante dos que fazem pequenas concessões de sobrevivência; e a resistência frontal dos que não se cansam de denunciar o sistema e até têm, nalguns casos, dificuldade de publicar, se não estiverem mesmo no topo da produção, pelo seu talento, ou por circunstâncias que os guindaram à linha da frente.

Em Portugal, a falta de apoio estatal às artes que exigem meios económicos relativamente importantes, como o cinema (e mesmo o teatro) reflecte-se na inexistência de uma quantidade significativa de obras de grande qualidade, que existem apenas em número reduzido. Pode assim perguntar-se: há um novíssimo cinema português? Bastarão as dezenas de obras admiráveis e renovadoras, premiadas nos grandes festivais, para se responder afirmativamente? Tão-pouco o nosso teatro, que se distingue por excelentes encenações e interpretações de textos estrangeiros ou remexe, mais raramente, nos nossos clássicos, tem condições económicas para se aventurar (ou só de longe a longe) em novos originais portugueses.

Uma onda de mediocridade afoga assim a produção livresca, as revistas, os jornais, toda a comunicação cultural, deixando de lado ou anulando o aparecimento de jovens talentos.

É na imprensa, nos jornais e nos grandes semanários e nos grande meios de informação áudio-visuais que mais se faz sentir o peso do grande capital dominando o poder político. Exerce-se directa e indirectamente e consegue com frequência filtrar ou deformar a informação, em noticiários importantes, em mesas redondas de onde os partidos mais à esquerda são quase sempre banidos.

É certo que, se nalgumas entrevistas os jornalistas preservam certa dignidade e objectividade, na maioria dos programas, sob a conveniente aparência de isenção, dá-se eco à voz do dono ou valorizam-se pontos de vista oficiais, quando não dos mais hábeis e dos mais agressivos adversários do mundo do trabalho.

Não ignoramos que esses órgãos muitas vezes revelam casos de aflitiva miséria ou despoletam escândalos económicos. Sem essa triagem hábil do se que se deve e não se deve dizer, eles não forneceriam qualquer opinião efectivamente crítica.

Em relação à cultura, para voltar ao nosso tema, é tão exígua a atenção que lhe concedem circunstancialmente que pouco contribui para a sua difusão. Apenas dois ou três rostos – e quase nunca por muito tempo – surgem a assinalar um evento (musical, teatral, das artes plásticas) ou o aparecimento de um livro. E, contudo, uma maior atenção a esses domínios culturais poderia contribuir decididamente para a ascensão do povo português a um patamar mais alto de convívio com as ideias, as formas e a sua própria formação e descoberta dos outros, dos sentimentos, da vida social, dos sonhos e dos saberes através dessa arte da palavra e da reinvenção da vida que é a literatura.

* Escritor e Professor Universitário

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