Decadência perigosa*

Jorge Cadima    06.Nov.20    Outros autores

Quando este artigo foi escrito ainda não era conhecido o resultado das eleições nos EUA. Todavia, qualquer que fosse o presidente eleito, quaisquer que fossem as maiorias no congresso e no senado, nada de novo haveria a esperar. Os eleitos são gente do mesmo sistema, e certamente não será detida a decadência da maior potência capitalista actual. Decadência que vem de longe, e cuja agressiva agudização configura graves ameaças para a humanidade.

Quando estas linhas foram escritas não se conheciam os resultados das eleições presidenciais nos EUA. Talvez assim seja também quando forem lidas. Mas independentemente dos resultados, há comentários possíveis.
A eleição de Trump em 2016 foi um reflexo da decadência dos EUA. A sua Presidência acentuou essa decadência. Há anos que se agrava a crise social. Grande parte do povo da maior potência capitalista vive na pobreza, mesmo que tenha um emprego. Ao mesmo tempo, a classe dominante acumula riquezas obscenas. As desigualdades atingem níveis sem precedentes desde há muitas décadas. O desastre da COVID-19 nos EUA reflecte o desdém e a tentativa de Trump de politização anti-China da epidemia. Mas reflecte bem mais do que isso: a inexistência dum serviço nacional de saúde e de direitos laborais básicos como baixas médicas e os níveis gritantes de pobreza. A situação financeira do país é insustentável, com um endividamento astronómico. Mas o endividamento (lá como cá) serve para engordar o grande capital financeiro e as bolsas. E para alimentar a máquina militar, securitária e de guerra que tenta impor a hegemonia mundial dos EUA.
A eleição de Trump em 2016, tal como a eleição de Obama, deveu-se em parte a um profundo descontentamento e vontade de mudança. Muitos acreditaram no falso discurso anti-sistema, nas proclamações de «drenar o pântano», nas falsas promessas de pôr fim às aventuras militares. Claro que a realidade foi bem diferente. Por debaixo da radicalidade do discurso anti-sistema escondeu-se sempre um candidato do sistema, que engordou ainda mais o grande capital e que nutre abertamente forças fascistas e racistas e uma violência policial sem freios, para impor a submissão no plano interno. A agressividade externa dos EUA não diminuiu, pelo contrário, como se constata no Irão, Venezuela, Bolívia, Palestina, Cuba, Síria, Iémen ou Bielorrússia. A campanha contra a China, ‘culpada’ pelo seu desenvolvimento económico e social e crescente papel no mundo, está a conduzir o planeta para uma crise que poderá ter desfechos dramáticos.
Os violentos embates entre sectores da classe dominante dos EUA incidem sobre como travar a decadência e manter a posição dominante dos EUA no mundo. Trump aposta no confronto generalizado, sem excluir os seus aliados, para impor a submissão. Registou êxitos no que respeita à subordinação da UE. Prepara um embate de grandes proporções com a China. Mas a ascensão de Trump foi alimentada por décadas de guerras, crimes e violências, incluindo as guerras contra a Síria e a Líbia, o golpe dos fascistas ucranianos, o cerco à Venezuela e a confrontação com a Rússia, desencadeadas sob a Presidência Obama e com Biden na Vice-Presidência. Políticas que, no fundamental, prosseguirão em caso de vitória de Biden. Ou de Trump. Porque são as políticas do sistema.
A mudança necessária não virá de presidentes ao serviço do imperialismo norte-americano. A mudança só poderá vir da luta dos trabalhadores e povo dos EUA, parte integrante da luta dos povos do mundo. Uma luta que teve nos últimos meses momentos de grande expressão, e que são um factor de encorajamento para o futuro, sejam quais forem os resultados das eleições.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2449, 5.11.2020

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