Demonizar primeiro, matar depois

Atilio Boron    14.Jul.21    Outros autores

Os grandes media «abandonaram totalmente a função jornalística em favor de uma obra de propaganda». Este texto foi escrito antes dos últimos acontecimentos em Cuba, e estes não fazem mais do que confirmar o papel central dos media e das “redes sociais” na ofensiva imperialista, onde quer que ela aponte. A administração Biden revela-se como um inimigo dos povos ainda mais virulento do que a própria administração anterior e conta com uma cumplicidade mediática muito superior. A denúncia é importante, mas mais importante ainda é a solidariedade activa para com o povo cubano e todos os povos alvo da agressão imperialista. Todos os povos que queiram assumir livremente o seu próprio destino estão sob ameaça.

A propaganda está para a democracia como a violência está para a ditadura
- Noam Chomsky

A frase do grande linguista norte-americano oferece um bom ponto de partida para estas reflexões que pretendemos propor como insumos para iniciar uma discussão tão crucial quanto urgente. Isto é assim porque, segundo os especialistas em Guerras Híbridas ou de Quinta Geração, a capacidade de controlar consciências e corações - ou “mentes e almas” para o colocar em forma poética - atingiu níveis inigualáveis, impensáveis ​​até há uma década.

O progresso das neurociências e o neuromarketing político aumentaram enormemente a capacidade das classes dominantes e dos poderes imperialistas de controlar as crenças, desejos e comportamento de milhões de pessoas em todo o mundo. Os avanços revolucionários da inteligência artificial, a “Internet das coisas”, as tecnologias de comunicação (5G), juntamente com a inserção sem precedentes das Redes Sociais e dos meios de comunicação, criaram um novo campo de batalha no qual os movimentos populares de libertação nacional deverão travar as suas lutas.

Infelizmente, essa transição da guerra convencional para os media e a guerra cibernética só recentemente foi reconhecida na sua plena eficácia pelas forças anti-imperialistas, num contexto em que tem sido amplamente utilizada pelas potências dominantes do sistema internacional, especialmente o governo dos Estados Unidos. Poucos exemplos seriam mais ilustrativos do que os seguintes para apoiar o nosso argumento.

Numa audiência perante o Comité de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos no início deste século, um general quatro estrelas disse que “no mundo de hoje, a guerra anti-subversiva é travada nos media e já não nas selvas ou nos bairros pobres do Terceiro Mundo em decadência.” Por isso, concluiu, “agora os media e as redes sociais são o nosso principal teatro de operações”.

Tanto Fidel como Chávez estiveram precocemente conscientes de que as oligarquias mediáticas constituíam uma das ameaças mais graves a pairar sobre o futuro das democracias e as lutas antiimperialistas. Na verdade, o seu poder sem controlo e seu nefasto papel nos calculados processos de “deseducação”, alienação e brutalização da cidadania, converteram-se em formidáveis baluartes ​​contra o avanço da consciência anti-imperialista e anti-capitalista. O seu total abandono da função jornalística em favor de uma obra de propaganda constituiu também um fortalecimento para esse fim.

Isso é demonstrado dia a dia na América Latina ao observar a manipulação informativa com o objectivo de encobrir os crimes perpetrados pelo regime de Iván Duque na Colômbia contra manifestantes pacíficos. Isso também se evidenciou na brutal repressão lançada pela ditadura de Áñez na Bolívia, os actos do governo Piñera no Chile e, hoje, na manipulação dos institutos eleitorais e dos círculos dirigentes para impedir a proclamação de Pedro Castillo como novo presidente do Peru.

O papel negativo dos media também é evidente nas operações da imprensa destinadas a “blindar” a informação que se supõe não dever ser conhecida pelo público. Por exemplo, os vínculos abertos entre sucessivos “narco-governos” na Colômbia e os cartéis da cocaína; ou a corrupção do governo de Macri na Argentina, conforme demonstrado nos Panama Papers, foram cuidadosamente ocultados pelos media hegemônicos. Além disso, nada é dito sobre a injusta e escandalosa prisão de Julian Assange, um dos heróis da liberdade de imprensa à escala mundial [apesar de a principal testemunha de acusação reconhecer ter mentido].

Como reconheceram os escritos dos estrategas imperiais, os meios de comunicação e, mais recentemente, as “redes digitais” têm sido actores-chave na desestabilização de governos progressistas ou de esquerda em todo o mundo. Seja onde for que o império, por meio das suas próprias tropas, dos seus mercenários culturais e seus sequazes locais, decide atacar, os media ocupam imediatamente as posições de vanguarda.

A demonização do adversário e do seu governo, digamos líderes como Nicolás Maduro, Evo Morales, Bashar al Assad, Saddam Hussein, Muammar al Gaddafi e Vladimir Putin, é o primeiro passo. Assim, a sua difamação metódica e a desinformação aplicada em grande escala por meio da imprensa, televisão, rádio e redes digitais convertem-se em armas cruciais para criar o clima de opinião necessário para poder aplicar a violência nua e crua contra esses governantes. A “artilharia do pensamento” visa quebrar os mecanismos de defesa da população agredida.

O objectivo final é confundi-la e fazê-la duvidar da integridade ou do patriotismo dos seus governantes, apresentando-os à opinião pública como monstros malvados e aos seus governos como “regimes” infames, representando-os como estados policiais ferozes que violam os direitos humanos mais básicos. Sob essa tempestade de desinformação e “notícias falsas”, muitas pessoas serão levadas a pensar que talvez os seus agressores tenham razão e queiram realmente libertar as pessoas do domínio dos seus desagradáveis opressores.
Mais ainda, tem como objectivo fazê-los pensar que a pretensão de “mudar o mundo” é um absurdo; uma ilusão infantil para construir o paraíso na terra que só poderia resultar numa queda no inferno.

Uma vez que as defesas culturais da sociedade “amoleçam” (equivalentes aos bombardeamentos que preparam o caminho para o ataque frontal) e o aríete mediático tenha perfurado o muro da consciência social, envenenada por centenas de “notícias falsas” e “pós-verdade” , e se tenha desmoralizado ou pelo menos confundido a população e os quadros das forças sociais antiimperialistas, então o terreno estará pronto para o ataque final.

É o momento em que as forças imperialistas lançam um ataque sem quartel, utilizando toda a capacidade do seu arsenal para desferir o golpe de misericórdia nos seus demonizados inimigos: Saddam Hussein ou Muammar Gaddafi, por exemplo.

Este não é apenas um relato do doloroso passado, mas uma descrição das estratégias actuais que o governo dos EUA aplica em todo o mundo. Devemos estar conscientes disso e estar preparados para iniciar uma contra-ofensiva apropriada, e a transmissão dos programas de Al Mayadeen em inglês e espanhol é um passo significativo nessa direcção.

Fonte: https://www.lahaine.org/mundo.php/demonizar-primero-luego-matar

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