Depois de Rumsfeld, mudança ou continuidade

André Levy*    28.Nov.06    Colaboradores

“A escolha de Bush para substituir Rumsfeld, Robert Gates, prefigura uma mera mudança decorativa com uma figura menos escaldada publicamente. Indicado por Bush como alguém com grande experiência, a revisão do seu currículo é revelador”

No rescaldo imediato das recentes eleições intercalares nos EUA, Donald Rumsfeld pediu a demissão do cargo de Secretário de Defesa. Tido como um dos principais responsáveis pelas mentiras que justificaram a invasão e estratégia de ocupação do Iraque, pelo uso de tortura em Guantánamo, Bagram e Abu Ghraib (entre outras prisões militares), a sua posição encontrava-se insustentável há meses. Determinante foi também o crescente número de críticas públicas por parte de oficiais militares na reserva. Dias antes das eleições, os editores dos quatro principais jornais militares apelaram à sua demissão afirmando que “é uma coisa que a maioria dos Americanos pense que Rumsfeld falhou; mas quando os líderes militares divergem publicamente do secretário da defesa, é claro que ele está a perder o controlo da instituição que lidera.”

Mas a escolha de Bush para substituir Rumsfeld, Robert Gates, prefigura uma mera mudança decorativa com uma figura menos escaldada publicamente. Indicado por Bush como alguém com grande experiência, a revisão do seu currículo é revelador [1]. Em 1980, na corrida presidencial opondo Carter e Reagan pesava o longo sequestro de dezenas de Estadunidenses na embaixada dos EUA em Teerão. Os republicanos temiam que a resolução da crise em vésperas das eleições viesse a favorecer Carter, e reuniram directamente com oficiais Iranianos no sentido de adiar a libertação dos reféns até após as eleições. Em troca, os republicanos comprometiam-se a vender armas ao Irão assim que chegassem à Casa Branca. Em 1993, um relatório elaborado pela inteligência Russa confirmou que Bob Gates participou directamente nestes contactos em 1980 enquanto membro do Conselho de Segurança Nacional [2] sob Carter. Após a vitória de Reagan-Bush, os EUA permitiu a venda de armas ao Irão, primeiro indirectamente através de Israel, e depois directamente.

Durante a presidência de Reagan, verbas provenientes da venda de armas ao Irão foram usadas para financiar os Contra na Nicarágua, então liderada por Daniel Ortega e a Frente Sandinista de Libertação Nacional. Gates sempre negou ter tido conhecimento dessa operação, mas Lawrence Walsh, que liderou as investigações sobre o Irão-Contra, concluiu que as “evidências provam” que Gates teve conhecimento do desvio inconstitucional de verbas, e que portanto Gates cometeu perjúrio e mentiu ao Congresso.

Na primavera de 1982, quando o Irão parecia ganhar ascendente na guerra, o presidente Reagan permitiu a venda de armas também ao Iraque, e Gates esteve envolvido no abastecimento militar das duas nações beligerantes, cuja guerra de oito anos causou mais de um milhão de mortos. Entre as armas vendidas ao Iraque estariam cluster bombs e químicos usados para produzir armas químicas, que causaram mais de cem mil vítimas Iranianas, tornando o Irão num dos países mais afectados por este tipo de arma de destruição massiva. Data desta fase a agora famosa fotografia de Donald Rumsfeld rindo e apertando a mão de Saddam Hussein. Mas na sombra, e com maior responsabilidade pela relação amigável, encontrava-se Robert Gates.

Mas Gates destacou-se durante a sua prestação na CIA como um dos responsáveis, juntamente como o seu mentor na agência, o então director William Casey, pela politização da inteligência providenciada pela agência. Gates, nas suas próprias palavras, aprendeu com Casey a “apresentar inteligência em termos moldados pela estratégia política”. Por exemplo, em 1981 o gabinete soviético da CIA elaborou um relatório concluindo que a URSS desencorajava actos de terrorismo por parte de grupos apoiados por Moscovo. Mas Gates, insatisfeito com as implicações de tal relatório, reescreveu o relatório sugerindo que a URSS apoiava terrorismo. Foi também responsável por um memorando – fundamentado, seguindo Gates - que implicava a cumplicidade da URSS no atentado ao Papa João Paulo II, em 1981. Uma revisão interna da CIA declarou mais tarde que o memorando era enviesado e o próprio Gates admitiu que as evidências eram escassas.

Concomitantemente, Gates e Casey foram responsáveis pela substituição de analistas sérios por serventuários da ideologia presidencial. Em 1983, o analista Peter Dickson concluía que a URSS estava empenhada em controlar a proliferação de armas nucleares, o que colidia com os desígnios de Reagan. Dickson foi pressionado a eventualmente sair da CIA. Vezes sem conta, Gates sobrestimava a ameaça soviética, dando assim cobertura ao clima de conflito e às crescentes despesas militares, e justificando a perspectiva ideológica e militarista da administração Reagan. O afastamento entre a realidade e o que afirmavam os relatórios de inteligência levou o Secretário de Estado George Shultz a exprimir ao Congresso ter grandes dúvidas sobre a objectividade e fidedignidade da inteligência que recebia.

Quando Gates foi nomeado, em 1987, a director da CIA por Reagan, o seu historial era de tal forma condenador que acabou por se retirar da corrida quando percebeu que o Senado não o iria confirmar. Tal não impediu que anos mais tarde, em 1991, quando a memória do escândalo Irão-Contra já se tinha esfumado, Gates tenha sido novamente nomeado para o cargo pelo então Presidente George H. W. Bush, e eventualmente confirmado após acesso debate, tendo servido apenas até 1993, com a saída de Bush da Casa Branca.

Desde então, Gates andou pelo mundo académico tendo servido como presidente da Universidade AT&T, no Texas, e ocupando posição em alguns conselhos de administração, incluindo a companhia petrolífera Parker Drilling Company. Mais significativamente, Gates servia, até à sua nomeação, no Grupo de Estudo do Iraque,[3] grupo liderado pelo amigo íntimo dos Bush, James Baker, e que vem preparando recomendações sobre a estratégia a seguir pela Administração Bush no Iraque. O relatório final foi sendo adiado até às eleições intercalares do início de Novembro. O Guardian de Londres revelou que entre as recomendações consta um aumento do número de tropas (vinte mil a somar às cerca de 140 mil já presentes) e o arrastar da presença dos EUA pelo menos até às eleições presidenciais de 2008.

Consta que este grupo recomenda também uma maior abertura diplomática dos EUA com o Irão e Síria, por forma a encontrar uma solução para a situação no Iraque. Significa então que a nomeação de Gates corresponde a uma ruptura com as ambições, encabeçadas por Rumsfeld e o vice-presidente Dick Cheney, de alguma forma atacar o Irão? O passado de subserviência de Gates levanta sérias dúvidas que continue a defender uma postura diplomática com o Irão se confrontado com um presidente e vice-presidente já engajados numa escalada de conflito. Com Gates à frente do Departamento de Defesa, já não será a figura tingida de Rumsfeld que terá de justificar perante o Congresso e o público o bombardeamento do Irão, fazendo uso do alegado programa de fabrico de armas nucleares Iraniano e o seu papel destabilizador no Iraque. Cheney garantiu antes das eleições que uma vitória dos democratas para o Congresso não iria deter a Casa Branca de avançar com opções militares contra o Irão. O director da grupo especialista em assuntos militares Globalsecurity.org, John Pike, prevê que os EUA bombardeiem alvos no próximo verão. Israel está a pressionar o EUA para que sejam lançado um ataque preventivo contra o Irão e analistas conservadores defendem que a solução para o Iraque passa por enfraquecer o Irão.

E tudo indica que a política de subverter relatórios de inteligência prossegue. Num artigo recente, Seymour Hersh [4] revela que uma avaliação classificada elaborada pela CIA não encontrou quaisquer evidências que o Irão possua um programa de produção de armas nucleares. A avaliação – baseada em observações por satélite e mediações radiológicas - tem circulado pelas agências de inteligência, mas as suas conclusões têm sido descartadas pela Casa Branca. Na boa tradição de Cheney-Rumsfeld concluem que a falta de evidências é evidência da sua existência.

Notas:
[1] Ver série de artigos de Robert Perry, em http://www.consortiumnews.com/
[2] National Security Council
[3] Iraq Study Group http://www.usip.org/isg/
[4] http://www.newyorker.com/fact/content/articles/061127fa_fact

* Biólogo

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