Desafios para o movimento social - Ante a especulação com a fome

Wim Dierckxsens*    26.Jun.08    Outros autores


Na opinião de muitos analistas de diferentes opções políticas, todos os indicadores da actual crise são mais devastadores que os da crise de 1929. Neste artigo o autor analisa os desafios que se colocam, face ao aumento da fome no mundo.

Da especulação imobiliária à especulação com a fome

A actual crise mundial é mais devastadora que a Grande Depressão dos anos 30, afirma Chossudovsky. Tem muito mais implicações geo-políticas; deslocações económicas acompanharam o início de guerras regionais, a fractura de sociedades nacionais e nalguns casos a destruição de países inteiros. Esta é, de longe a crise económica mais séria da história moderna (Miguel Chossudvsky, The Globalization of Poverty, Primeira Edição, 1997). Perante a crise financeira e imobiliária, que surgiu nos Estados Unidos a partir de Agosto de 2007, os grandes fundos de investimento especulativo mudaram somas de dinheiro milionárias para controlar os produtos agrícolas no mercado internacional ou «commodities». Quando a bolha imobiliária rebentou, os especuladores reabilitaram um velho paraíso: os mercados de cereais (Serge Halimi, «O FMI e a fome», no Le Monde Diplomatique, Maio de 2008:40). Actualmente, calcula-se que estes fundos controlam 60 por cento do trigo e altas percentagens de outros cereais básicos. A maior parte da colheita de soja dos próximos anos, já está comprada como «futuro». Esses alimentos converteram-se em mais um objecto de especulação da bolsa, cujo preço se modifica (e aumenta) em função dos índices especulativos e não em função dos mercados locais ou nas necessidades das pessoas.

Segundo a FAO, entre Março de 2007 e Março de 2008, o preço dos cereais, sobretudo o trigo, aumentou cerca de 130%, a soja 87%, o arroz 74%, e o milho aumentou nesse ano 53% (Aurelio Suárez, A vulnerabilidade alimentar da Colômbia, Le Monde Diplomatique, Maio 2008:11). O aumento dos preços dos alimentos atribui-se nos meios dominantes a uma «tormenta perfeita» provocada pela maior demanda de alimentos por parte da Índia e da China, a diminuição da oferta de alimentos por causa das secas e outros problemas relacionados com a mudança climática, o aumento dos custos do combustível, que desviou culturas como o milho para alimento para a produção de etanol. Nada se fala sobre a especulação com a fome. Nos últimos nove meses de 2007 o volume de capitais investidos nos mercados agrícolas quintuplicou-se na União Europeia e multiplicou-se por sete nos Estados Unidos (Domique Baillard, «Estala o preço dos cereais», no Monde Diplomatique Maio 2008:6). A especulação criada em torno dos alimentos básicos transforma-se em carburante e empurra os preços dos cereais e do açúcar para novos máximos, inatingíveis para uma imensa massa de população, que se encontra principalmente na Ásia, na África e na América Latina.

Este conjunto de aumentos especulativos recentes nos preços dos alimentos levaram a uma vaga de fome mundial que não tem precedentes pela sua escala. A ausência de medidas de regulamento desencadeia a fome. O que desencadeia a fome é a ausência de regulações nestes mercados especulativos. A volatilidade nos mercados alimentares é devida sobretudo à desregularização, falta de controle sobre os grandes agentes e a falta da intervenção necessária estatal a nível internacional e nacional para estabilizar os mercados. No contexto actual, um congelamento da especulação nos mercados de alimentos de primeira necessidade, tomado como uma decisão pública imperativa, contribuiria desde logo para baixar os preços dos alimentos. Nada impede de o fazer mas nada faz prever que se esteja pensando num prudente e cuidadoso conjunto de medidas como este. Pelo que vemos não é isso que está sendo proposto pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (Michel Chossudovsky, «Fome Global,» Rebelión, 12 de Maio de 2008).

A crise alimentar está a acontecer enquanto há comida suficiente no mundo para alimentar a população global. A fome não é a consequência da escassez de alimentos mas o contrário: no passado, os excedentes de alimentos nos países centrais foram utilizados para desestabilizar as produções dos países em desenvolvimento. Segundo a FAO, o mundo poderia ainda alimentar até 12 biliões de pessoas no futuro. A produção mundial em grão em 2007/2008 está estimada em 2108 milhões de toneladas (um aumento de 4,7% comparada à de 2006/2007). Isso supera bastante a média de crescimento de 2% da década passada. Embora a produção continue num nível alto, os especuladores apostam na escassez esperada e aumentam artificialmente os preços. De acordo com a FAO o preço dos grãos de primeira necessidade aumentou 88% desde Março de 2007 (art. De See Ian Angus, Crise Alimentar: «The greatest demonstration of the historical failure of the capitalist model» (a maior demonstração do falhanço histórico do modelo capitalista), Global Research, Abril 2008)

Enquanto os especuladores e comércios de grande escala se beneficiam da crise actual, a maioria dos camponeses e agricultores não se beneficiam dos preços altos. A terra torna-se mais cara. A especulação com a terra agrícola aumenta cada vez mais. Os desalojamentos frequentemente forçados são a consequência. Os camponeses que se mantêm cultivam os alimentos, mas a colheita frequentemente já está vendida a quem empresta o dinheiro, à companhia de sementes agrícolas ou directamente ao comerciante ou à unidade de processamento. Embora os preços que se pagam aos camponeses tenham subido para alguns cereais, esse aumento é muito pouco comparado com os aumentos no mercado mundial e com os aumentos que se impõem aos consumidores.

Durante os últimos anos, as multinacionais e os poderes económicos mundiais, desenvolverem rapidamente a produção de agrocombustíveis. Subsídios e investimentos massivos estão a atingir em cheio este sector. O resultado é que as terras estão a passar em massa e rapidamente da produção de comida para a produção de agrocombustíveis. As multinacionais e os analistas convencionais predizem que a terra será cada vez mais utilizada para agrocombustíveis (milho, mas também azeite de palma, sementes de colza, cana de açúcar…) Uma parte importante do milho dos Estados Unidos «desapareceu» repentinamente, pois foi comprada para a produção de etanol. Esta explosão descontrolada do sector dos bio-combustíveis causou um grande impacto nos já instáveis mercados internacionais de cereais básicos.

A especulação aproveita-se da escassez relativa dos alimentos. Os vendedores mantêm as suas reservas afastadas do mercado para estimular subidas de preço no mercado nacional, criando enormes áreas de terras agrícolas à volta das cidades com fins especulativos, expulsando os camponeses (www.ecoportal.net, Henry Saragih Coordenador Internacional de La Via Campesina).

Nas últimas décadas O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), juntamente com a Organização Mundial do Comércio (OMC) forçaram os países a diminuir o seu investimento na produção alimentar e o seu apoio aos camponeses e pequenos agricultores, que são as chaves da produção alimentar. As regras do jogo mudaram dramaticamente em 1995, quando o acordo na OMC sobre a agricultura entrou em vigor. As políticas neoliberais destruíram as produções nacionais de alimentos, e obrigaram os camponeses a produzir cultivos comerciais para companhias multinacionais e a comprar os seus alimentos das multinacionais no mercado mundial. Os tratados de livre comércio forçaram os países a «liberalizar» os seus mercados agrícolas: reduzir os impostos à importação e aceitar importações. Ao mesmo tempo, as multinacionais continuam a fazer dumping com os excedentes nos seus mercados, utilizando todas as formas de subsídios directos e indirectos à exportação. O resultado foi que o Egipto, o antigo silo de trigo do Império Romano se tornou o primeiro importador; Indonésia, um dos berços do arroz, hoje importa arroz transgénico e o México berço da cultura do milho importa hoje milho transgénico. Os Estados Unidos, a União Europeia, o Canadá e a Austrália são os maiores exportadores.

Assim, os países periféricos tornaram-se dependentes das importações de alimentos baratos. E agora que os preços estão a disparar, a fome está a crescer. Muitos países que até então produziam comida suficiente para a sua própria alimentação foram obrigados a abrir os seus mercados a produtos agrícolas do estrangeiro. Ao mesmo tempo, a maioria das regulações estatais sobre existências de reserva, preços, produções ou controle das importações e exportações foram desmanteladas gradualmente. Como resultado, as pequenas explorações agrícolas e ganadeiras de todo o mundo não têm sido capazes de competir com o mercado mundial e muitas arruinaram-se. (www.ecoportal.net, Henry Saragih Coordenador Internacional de La Via Campesina)

As políticas neoliberais das últimas décadas expulsaram milhões de pessoas das áreas rurais para as cidades onde a maioria acaba em bairros pobres, com uma vida muito precária. Os últimos são as primeiras vítimas da crise actual, porque não têm maneira de produzir o seu próprio alimento. O seu número aumentou dramaticamente e têm de gastar uma grande parte dos seus rendimentos em comida. De acordo com a FAO, nos países em vias de desenvolvimento a comida representa até 60-80% do gasto dos consumidores. Um aumento brusco nos preços condena grandes maiorias à fome.

Em todo o mundo estalam distúrbios pelos preços dos alimentos. Houve protestos no Egipto, Camarões, Indonésia, Filipinas, Burkina Faso, Costa do Marfim, Mauritânia e Senegal. Demonstrações semelhantes, greves e choques tiveram lugar na maior parte da África subsaariana e também na Bolívia, Peru, México e sobre tudo no Haiti. (Bill Van Auken, Para além da crescente crise alimentar, os governos receiam a revolução dos pobres, Global Research, Abril de 2008). O preço dos alimentos no Haiti subiu em média mais de 40% em 2007, com os de primeira necessidade como o arroz, duplicando-se numa semana em fins de Março de 2008. Os distúrbios pela subida de preços dos alimentos no Haiti deixaram mortos e centenas de feridos e levaram à destituição do primeiro-ministro Jacques-Edouard Alexis. O Programa Mundial de Alimentos classificou a actual crise alimentar como um «tsunami silencioso», Amy Goodman, As acções da Bolsa não são combustíveis, Rebelión).

Depois de 14 anos da NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) o México passou por uma grande crise, chamada frequentemente a «crise da tortilha». De ser um país exportador, o México passou a ser dependente da importação de milho dos Estados Unidos. Actualmente o México importa 30% do seu consumo de milho. Durante o último semestre, crescentes quantidades de milho dos Estados Unidos foram subitamente derivadas para a produção de agrocombustíveis. As quantidades disponíveis para os mercados mexicanos diminuíram, provocando um aumento de preços e deixando o país sem nenhuma segurança alimentar.

Também na América Central a segurança alimentar está em grande perigo. Afecta sobretudo El Salvador onde a dolarização da economia arrasou com o sector agropecuário. O TLC juntamente com a dolarização desmantelou a agricultura como nenhum outro país. Quanto às exportações destacamos que se está a comprar dos Estados Unidos para 2007 71% da produção nacional de milho (que tanto em 2006 como em 2007 foi o terceiro produto mais importado dos Estados Unidos). Se acrescentarmos a importação de milho branco do México, chega-se a 81% da produção nacional de milho do ano 2005. Contrariamente ao credo do jogo livre de mercado, em El Salvador, os preços dos grandes básicos tiveram um aumento substancial. O preço do milho por quintal em 2005 teve um aumento de 77% até Novembro de 2007, no mesmo período o preço do maicillo (graminea semelhante ao milho) por quintal aumentou em 93%, o feijão vermelho de seda 39% e o arroz 1ª classe nacional 33%. (Julian Ernesto Salinas, «Impactos do TLC a dois anos de implementação).

Perante a fome a proposta oficial é mais neoliberalismo

Enquanto estalam os distúrbios da fome em todo o mundo, dirigentes mundiais como Pascal Lamy (Director Geral da OMC), Dominique Strauss-Kahn, director do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Secretário-Geral da ONU Ban Ki-Moon, estão a alertar sobre os perigos do proteccionismo. Segundo o senhor Ban, «mais comércio não nos arrancará do aperto em que estamos». Sob as regras do livre comércio, a protecção dos alimentos transformou-se num crime. O proteccionismo transformou-se numa palavra suja. Quanto contraste com a ajuda de milhares de milhões de dólares que recebem os grandes bancos e empresas financeiras para evitar a sua quebra perante os jogos especulativos.

O Banco Mundial e o FMI, assim como alguns países centrais, estão agora a advogar por mais importações eliminando todos os impostos para os países pobres importadores de alimentos e liberalizando mais os mercados para que os países possam melhorar os seus rendimentos mediante a exportação. Continuam a promover mais acesso para as suas multinacionais na Ronda de Doha e a condicionar o apoio financeiro extra a critérios políticos para aumentar a dependência desses países. Nada dizem sobre a necessidade de uma maior regulação e estabilização do mercado, e muito menos da necessidade da soberania alimentar. A pergunta é: Chegará a ajuda que tem que ir para a produção agrícola baseada nos camponeses? Não, quando o preço do trigo sobe, a ajuda alimentar para. A generosidade dos países do Norte manifesta-se quando têm excedentes. Durante o período de 2005-2006 despacharam-se 8,3 milhões de toneladas de cereais para a ajuda humanitária contra apenas 7,4 milhões em 2006-2007 Baillard, ob. Cit:6)

Robert Zoellick, actualmente presidente do Banco Mundial, anuncia que os preços continuarão altos durante vários anos, e que é necessário fortalecer a «ajuda alimentar» para gerir a crise. Zoellick, que passou para este cargo depois de ser chefe de negociações dos Estados Unidos na Organização Mundial de Comércio, sabe do que fala. A partir do seu posto anterior fez tudo que pôde para quebrar a soberania alimentar dos países, em função de favorecer os interesses das grandes multinacionais dos agronegócios. Mesmo agora, a receita da «ajuda alimentar», é de novo um apoio encoberto para as mesmas multinacionais, que tradicionalmente são quem vende ao Programa Mundial de Alimentos os cereais que «caritativamente» os entregam aos esfaimados, com a condição de que eles não produzam os alimentos de que necessitam. (veja-se Silvia Ribeiro A Fome dos agronegócios, La Jornada, México, 10.05.08).

Os grandes vencedores da crise alimentar são também actores centrais e os grandes ganhadores na promoção dos agrocombustíveis: as multinacionais que englobam o comércio nacional e internacional de cereais, as empresas de sementes, os fabricantes de agrotóxicos. Nestes últimos dois tópicos são em muitos casos as mesmas empresas: Monsanto, Bayer, Syngenta, Dupont, BASF e Dow. Estas seis empresas controlam o total das sementes transgénicas no mundo. Com a maior naturalidade do mundo, as sementes transgénicas e os agrotóxicos constituem hoje a solução que propõem os poderosos a todos os novos problemas que as mesmas multinacionais geraram. Cargill, ADM, ConAgra, Bunge, Dreyfus, juntos dominam mais de 80% do comércio mundial de cereais. Um relatório de Grain afirma que os lucros atingiram na Dreyfus até 77% no último trimestre de 2007. O neoliberalismo permitiu que os alimentos passem a ser uma mercadoria mais exposta à especulação e ao jogo do mercado» (veja-se, Grain «O negócio de matar à fome» www.grain.org),

As multinacionais não se dão por satisfeitas e querem mais. Agora preparam o próximo assalto, monopolizando através de patentes, os caracteres genéticos que consideram úteis para fazer plantas resistentes à seca, salinidade e outros factores de clima extremo. Os governos ao seu serviço, como o México, pretendem apagar o fogo com gasolina: em vez de reivindicar a soberania alimentar e o controle camponês das sementes e propõem transgénicos ainda com mais modificações e mais riscos (Silvia Ribeira, ob. Cit.), O Brasil por sua vez, prepara uma autêntica ofensiva diplomática, para convencer o mundo sobre a importância do etanol da cana-de-açúcar, que este ano terá como colófon uma cimeira mundial de biocombustíveis. Numa conferência recente de imprensa, o presidente Bush defendeu a utilização de alimentos para produzir etanol. As companhias multinacionais e as principais potências exploram sem piedade a situação actual, condenando uma grande e crescente massa de pessoas a passar fome. É uma política genocida.

Soberania alimentar
A resposta social perante a crise: soberania alimentar

Encontramo-nos perante um desenvolvimento estrutural, resultado directo de três décadas de globalização neoliberal. Por outras palavras, o mercado de valores não dá de comer aos famintos, em vez disso condena-os à morte. O neoliberalismo em muitos países pobres enfrenta hoje uma crise de grandes proporções. É assim em virtude das suas manifestações que dão mostras de ser a de uma crise sistémica em todo o sentido da palavra. Por detrás da fome, por detrás dos distúrbios encontram-se os fracassos dos chamados acordos de comércio livre e dos brutais acordos de empréstimos de emergência impostos aos países pobres pelas instituições financeiras como o Fundo Monetário Internacional.

Perante a gravidade da crise, caem as máscaras e esvaziam-se discursos, como a receita dos agrocombustíveis e os supostos benefícios do comércio livre e a agricultura de exportação. A soberania alimentar e o direito à Alimentação resulta na resposta mais evidente. A irracionalidade do sistema capitalista. «Queimar alimentos dos pobres para que sirvam à mobilidade dos países ricos» é um crime contra a humanidade. A nível internacional há que tomar medidas para a estabilização. Deve estabelecer-se reservas de segurança internacionais assim como um mecanismo de intervenção para estabilizar os preços. Os países exportadores devem aceitar as normas internacionais que controlam as quantidades que podem levar ao mercado. Os países devem ter a liberdade de controlar as importações para poder fomentar e proteger a produção nacional de alimentos.

Jacques Diouf, secretário geral da FAO, afirmou que os países em vias de desenvolvimento devem poder chegar à autosuficiência alimentar. Urge uma moratória imediata sobre os agrocombustíveis para evitar um autêntico genocídio. A soberania alimentar é um direito inalienável dos povos. A pobreza e a fome não são fatalidades mas sim consequências directas de um sistema económico desumano e destruidor que viola o direito à vida. Por essa razão, é urgente estabelecer uma moratória imediata sobre os biocombustíveis… (Chegou o momento da soberania alimentar! La Via Campesina 2 de Maio de 2008).

Em cada país há que estabelecer um sistema de intervenção que possa estabilizar os preços do mercado. Para o conseguir, os controles à importação com taxas e quotas, são necessários com o fim de regular a importação e evitar o dumping ou as importações baratas que destroem a produção interna do país. A terra deveria antes distribuir-se de forma igualitária às pessoas sem terra e às famílias dos camponeses mediante uma verdadeira reforma agrária e da terra. Esta deveria incluir o controle e o acesso à água, as sementes, créditos e tecnologias apropriada. Deve permitir-se a nível local produzir o seu próprio alimento e sustentar as suas comunidades. Há que impedir que arrebatem e desalojem as terras e se expandam as terras dedicadas à agricultura dos grandes agro-negócios. São necessárias medidas imediatas para apoiar os pequenos agriculturas e camponeses para aumentar a sua produção agro-ecológica de alimentos. Os governos nacionais não devem repetir o erro de promover que as grandes companhias agrícolas invistam em unidades de produção massiva de alimentos. Assim, paremos os tratados de livre comércio sobre todas as economias tão abertas como as da América Central.

A crise de migradólares: fim da válvula de escape migratória.

De acordo com a Organização de Estados Iberoamericanos (OIE) o número de emigrantes internacionais duplicou a nível mundial entre 1960 e 2005. Em 2005. Cerca de 190 milhões de pessoas, ou seja, 3% da população mundial vivia fora do seu país natal. Embora frequentemente se julgue que a emigração é um fenómeno nitidamente masculino, os números revelam outro quadro. Dos emigrantes internacionais de todo o mundo, a metade (95 milhões) são mulheres. A haver alguma tendência nas últimas décadas observa-se uma maior equidade nesta matéria. Entre 1960 e 2005, os maiores aumentos de migração feminina observam-se na Oceania /de 44% a 52%), na América Latina e na América Central (de 45 a 50%) e na antiga União Soviética (de 48% a 58%). A única região onde se registou uma diminuição da percentagem de mulheres emigrantes foi a Ásia (de 46% a 43%). Para maiores detalhes veja-se OEI «A migração internacional de mulheres», 2008).

Segundo o artigo «Dinâmica recente das migrações na América» (veja-se o boletim nacional de população, Ano 6, n.o 98. 2002), a percentagem de mulheres entre os emigrantes nos Estados Unidos é de 46% para os mexicanos, 50% para os do Corno Sul, 52% para os Centro-americano e inclusive 54% para os imigrantes procedentes da América Central. Dos emigrantes centro-americano para os Estados Unidos, a grande maioria provem de zonas urbanas, mais de 90% dos emigrantes da Nicarágua provem de zonas urbanas, mais de 60% das Honduras e de El Salvador e só a metade da Guatemala (veja-se Eduardo Baumeister, «Migração internacional e desenvolvimento na Nicarágua», CELADE, Santiago do Chile, 2006).

As Nações Unidas deram a conhecer um relatório, em que se indica que os trabalhadores imigrantes nos países mais ricos enviaram às famílias o número recorde de US$ 167,000 milhões durante o ano de 2005. Imigrantes latino-americanos nos Estados Unidos enviaram 30% disso aos seus países de origem em 2005 com um montante de US$ 53.000 milhões. O anterior consistiu num novo recorde no envio de remessas. Segundo informação do Banco Interamericano de Desenvolvimento BID, estes números representam um aumento de 17% em relação ao ano anterior. Seja porque aumenta a capacidade de registá-las ou porque o volume é realmente maior, as remessas pareciam crescer a um ritmo assombroso. Segundo a CEPAL, nos últimos 25 anos, as remessas recebidas na América Latina aumentaram de 1 mil 120 milhões de dólares em 1980 para mais de 20 mil milhões em 2994. Com pequenas flutuações, as remessas duplicam a cada cinco anos. Os montantes que recebem a Guatemala, Honduras e El Salvador dos seus emigrantes multiplicaram-se mais de dez vezes em 1980-1990 ao passar de 55 para 649 milhões de dólares, mostrando uma fecundidade realmente assombrosa se considerarmos que o número de cidadãos desses países para os Estados Unidos só se multiplicou por quatro. É uma válvula de escape muito visível perante os efeitos nefastos da política neoliberal que em vez de politizar despolitiza. O futuro e a salvação são acima de tudo de carácter individual e a solução para os problemas encontra-se fora do país.

A alternativa está num «projecto país»

Com a crise financeira e hipotecária, o montante total de remessas que os emigrantes latino-americanos fazem do exterior para os seus países de origem desacelerou-se no ano de 2007, segundo um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Só 50% dos imigrantes consultados assegurou enviar dinheiro para casa, perante 73 por cento que o fazia em 2006, o que constitui uma baixa de mais de 30%. Ao findar o ano de 2007, o México recebeu 23 979 milhões de dólares em remessas, o que representa um crescimento de apenas um por cento respeitante a 2006. Em Janeiro de 2008, os envios tiveram uma queda de 5.87 por cento, ao somar 757 milhões de dólares, revelam números do Banco do México (Banxico). A crise nos Estados Unidos afecta os emigrantes e com isso os familiares no seu país de origem. A válvula de escape começa a fechar-se cada vez mais. Aumenta a xenofobia e são cada vez mais os imigrantes deportados dos Estados Unidos. Só no ano de 2003 foram deportados 260.000 centro-americanos sem contar os costariquenhos. Trata-se de 94 mil guatemaltecos, 76 mil hondurenhos, 50 mil nicaraguenses e 40 mil salvadorenhos (Baumeister, ob. Cit.).

Países como as Honduras, Nicarágua, Guatemala, Haiti e República Dominicana vêem-se mais afectados com a crise nas remessas do que o México, já que o peso relativo dos envios de dinheiro no PIB nacional é muito maior. Os centro-americanos continuam a ser os que por capita enviam mais dinheiro. 65 por cento deles manda em 2007 remessas a suas famílias. Fazem-no 49 por cento dos dominicanos, 48 por cento dos mexicanos e 42 por cento dos sul-americanos. Apesar da descida nas pessoas latino-americanas a enviar dinheiro, o volume total das remessas baixou 13% comparando com o ano 2005, alcançando 45.900 milhões de dólares. O efeito não foi maior devido a que os que continuam a mandar dinheiro o fazem agora com mais frequência (de doze a quinze vezes por ano) e em quantidades levemente superiores. A média das remessas cresceu de 300 a 325 dólares por envio.

No ano de 2008, a crise económica e a da construção em particular afecta especialmente os imigrantes ilegais que aí trabalham amiúde. A queda nas remessas será irreversível e as deportações aumentarão sem cessar.

As remessas que os emigrantes centro-americanos enviavam para os seus países — predominantemente a partir dos Estados Unidos, embora a miúdo de outros países do istmo — alcançaram em 2007, segundo cálculos do BID, os 12 mil 160 milhões de dólares, ou seja, a metade do que enviaram os seus iguais mexicanos. Para a Guatemala 4.055 milhões de dólares, 3.530 para El Salvador, 2.675 para as Honduras, 990 para a Nicarágua, 590 para a Costa Rica e 320 para o Panamá. Combinando as estimativas do BID com as estatísticas dos bancos centrais centro-americano podemos inferir que em 2006 as remessas superaram o valor das exportações em El Salvador e nas Honduras, e quase chegaram a esse valor na Nicarágua; alcançaram um valor equivalente ao de metade das importações em El Salvador, e representaram a quarta parte do PIB nas Honduras. Com as excepções da Costa Rica e Panamá, as remessas colocaram-se num lugar de honra nas contas nacionais centro-americanas. O seu peso foi enorme e será também muito forte o impacto da crise norte-americana na América Central.

O valor das remessas está entre 9.4 e 25.5% do PIB, o de 60 a 173.5% do valor das exportações, de 30.3 a 51.6% do valor das importações, de 55 a 67.6% do valor do défice comercial e de 88.7 a 153.5% do valor de défice comercial com os Estados Unidos. Na Guatemala e El Salvador as remessas superam mais de seis e sete vezes, respectivamente, o investimento estrangeiro directo. Nas Honduras e Nicarágua as remessas somam o triplo e o dobro do valor deste investimento. Segundo estimativas do sociólogo Eduardo Baumeister, nas Honduras as famílias que recebem remessas somaram cerca de 16%; na Nicarágua, quase 20%; na Guatemala 24% e em El Salvador até 28% das famílias do país (Veja-se Eduardo Baumeister, «Migração internacional e desenvolvimento na Nicarágua», CELADE, Nações Unidas, 2006).

A crise dos migradólares será particularmente evidente no caso de El Salvador. Até à data foi um mecanismo de descompressão social. Uma renúncia à redistribuição pela via política. Uma despolitização da redução da pobreza. E também tem um efeito perverso sobre os mecanismos de mobilidade social, porque as remessas separam a receita do emprego. E assim a posição como trabalhador desvincula-se cada vez mais da posição de classe, com que se reforça a despolitização e a evasão do conflito. A melhoria de qualidade de vida está posta num «mais além» terreno, mas «mais além» ao fim e ao cabo. Nada do que se faz é «aqui e agora» repercute positivamente sobre o bem-estar familiar, excepto o cultivo de frequentes e amáveis relações com os que conseguiram chegar «mais além».

A ruptura na chegada de remessas causará uma recuperação ideológica forçosa; acaba-se de uma vez com a renúncia dos migrantes a procurar o desenvolvimento no seu próprio país já que se acaba o sonho de «mudar de país» em vez de «mudar o país». Acabará a renúncia actual dos receptores de remessas para manter as conquistas elementares dos trabalhadores (veja-se José Luís Rocha, ob. Cit.) Esta situação latentemente explosiva exigirá soluções dentro dos países latino-americanos em geral e centro-americanos em particular. Não se trata apenas da soberania agrícola, mas da exigência de um projecto país. Aqui forças políticas como o FMLN de El Salvador terá muitas vantagens políticas sobre a ARENA e apresenta-se uma situação de voltar de facto ao proteccionismo ainda que ressoem as ideologias neoliberais.

* Economista

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