Dia M*

Jorge Cadima    13.Jun.14    Outros autores

Jorge CadimaA mentira histórica das comemorações do “dia D” falseia os acontecimentos reais e oculta o papel determinante da URSS na derrota do nazi-fascismo. Mas vai mais longe. Logo no final da guerra, boa parte do aparelho de Estado dos EUA (com destaque para a futura CIA) se dedicou a reciclar o aparato nazi para a luta anti-comunista e anti-soviética. Um fio condutor liga directamente, por exemplo, o nazismo ao ascenso fascista na Ucrânia em 2014.

A comemoração dos 70 anos do Dia D – o desembarque dirigido pelos EUA na Normandia em Junho de 1944 – foi um colossal embuste. Foi o Dia M – de Mentira. No seu discurso, Obama conseguiu a proeza de não fazer uma única referência ao papel da URSS na derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial. Pelo contrário, afirmou que «no final desse dia mais longo […] a Muralha de Hitler foi quebrada […]. Foi aqui, nestas costas, que a maré virou na luta comum pela liberdade». A verdade histórica inapagável é que, muito antes de 6 de Junho de 1944, já se haviam dado as batalhas decisivas da II Guerra Mundial na Frente Leste, onde se concentravam mais de 75% das forças operacionais da Wehrmacht. Os nazis foram derrotados em Moscovo em Janeiro de 1942, em Estalinegrado em Fevereiro de 1943, em Kursk em Agosto de 1943. O cerco de Leninegrado foi quebrado em Janeiro de 1944. Foi o heroísmo e coragem do povo soviético e do seu Exército Vermelho que, antes do Dia D, «virou a maré» às hordas nazis.

Mas a mentira histórica vai mais longe. Logo no final da guerra, boa parte do aparelho de Estado dos EUA (com destaque para a futura CIA) se dedicou a reciclar o aparato nazi para a luta anti-comunista e anti-soviética. Caso exemplar, relatado em pormenor no livro do jornalista Christoper Simpson «Blowback: o recrutamento americano de Nazis e os seus efeitos na Guerra Fria», é o de Reinhard Gehlen, «o mais responsável funcionário de Hitler nos serviços secretos militares na Frente Leste». Gehlen entregou-se às tropas americanas em Maio de 1945, juntamente com toda a documentação dos serviços secretos que chefiava. Ao serviço dos EUA, reagrupou a rede de agentes nazis no Leste e relançou-os na guerra, nem sempre “fria”: «já em 1946 Gehlen tinha retomado o financiamento limitado do Exército Vlasov [de colaboracionistas russos] e do exército clandestino ucraniano OUN/UPA». Este último é o berço dos actuais partidos Svoboda e Sector Direita que desempenharam papel decisivo no golpe de Estado de Fevereiro na Ucrânia. Gehlen não foi apenas um mero agente de Hitler e do imperialismo dos EUA. Entre 1956 e 1968presidiu aos serviços secretos da República Federal da Alemanha, o BND, formados precisamente com base na «Organização Gehlen». Como lembra Simpson, a importância de Gehlen está directamente ligada aos seus crimes de guerra: «Gehlen obteve grande parte da sua informação através do seu papel numa das mais terríveis atrocidades da guerra: a tortura, interrogatório e assassinato pela fome de cerca de 4 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos».

Não houve exércitos clandestinos apenas a Leste. Uma falsamente ingénua notícia publicada na revista alemã Der Spiegel em14 de Maio deste ano, titulada «Veteranos Nazis criaram Exército ilegal», diz que o exército “secreto” era formado por «cerca de 2000 ex-oficiais da Wehrmacht e Waffen-SS do tempo Nazi» e «em caso de guerra,[…] o exército secreto podia chegar aos 40 mil combatentes». Tinham importantes padrinhos: «O envolvimento de figuras destacadas das futuras forças armadas da Alemanha, a Bundeswehr, é uma indicação de quão sério era este empreendimento». Entre os «mais importantes actores» estava Albert Schnez, um futuro conselheiro da chefia militar da RFA, e «Hans Speidel – que se viria a tornar o Comandante Supremo do Exército Aliado da NATO na Europa Central em 1957», o que evidencia padrinhos bem mais importantes.

Há um fio condutor ligando directamente o nazismo ao ascenso fascista na Ucrânia em 2014, e esse fio passa pelos EUA, como é também relatado num artigo na revista The Nation (28.3.14) com o título «Sete décadas de colaboração Nazi: o segredinho sujo ucraniano dos EUA». A presença do fantoche Porochenko na Normandia é elucidativa da farsa monumental que foi o Dia M. E também da cada vez mais descarada deriva fascizante das classes dominantes euro-atlânticas.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2115, 12.06.2014

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