Dialética de uma derrota

Atilio Boron    11.Dic.07    Outros autores

“Chávez enfrentou uma fenomenal coligação política e social que aglutinava todas as forças da velha ordem, carcomida até às suas entranhas mas com os seus agentes históricos travando uma batalha desesperada para a salvar”

Como explicar a derrota do SIM, e até que ponto foi só uma derrota?

Chávez enfrentou uma fenomenal coligação política e social que aglutinava todas as forças da velha ordem, carcomida até às suas entranhas mas com os seus agentes históricos travando uma batalha desesperada para a salvar. A grande burguesia autóctone, os latifundiárias, o capital financeiro, as direcções sindicais corruptas, a velha partidocracia, a hierarquia da Igreja Católica, a embaixada norte-americana obcecada por o derrotar e, coroando toda esta panóplia, uma confabulação mediática nacional e internacional poucas vezes vista na história, que reunia nos seus ataques a Chávez os grandes expoentes da «imprensa livre» da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina. O líder bolivariano atraiu contra si todos os espantalhos sociais com que deve lidar qualquer governo digno da América Latina, e combateu-os em solidão e com as mãos limpas. O que unificou os conservadores não foi a cláusula da «reeleição permanente», mas algo muito mais grave: a reforma que atribuía categoria constitucional ao projecto socialista em gestação, uma coisa totalmente inaceitável. Apesar da tão descomunal disparidade o resultado eleitoral foi praticamente um empate.

Para muitos venezuelanos a eleição não era importante, o que explica os 44% de abstenção. A grande maioria dos que não acorreram a votar tê-lo-iam feito pelo SIM, o que revela a debilidade do trabalho de construção hegemónica e de consciencialização ideológica dos bolivarianos no seio das classes populares. A redistribuição de bens e serviços é imprescindível, mas não cria necessariamente consciência política emancipadora. Por outro lado, alguns governadores e alcaides chavistas não se empenharam a fundo numa reforma constitucional que democratizaria, em detrimento das suas atribuições, a organização política do Estado, ao criar novas instituições de poder popular. Além disso, há que ter em conta que depois de nove anos de gestão qualquer governo sofre um desgaste ou deixa de suscitar o entusiasmo colectivo anterior. A isto há que acrescentar alguns erros cometidos na intermitente campanha eleitoral de um presidente que, pelo seu protagonismo na cena mundial, não dispõe de muito tempo para outra coisa.

De qualquer maneira e apesar da derrota, Chávez sai muito bem na fotografia. As suas credenciais democráticas fortaleceram-se notavelmente. A oposição chegou à votação dizendo que jamais aceitaria um triunfo do SIM. No caso de este se dar, repudiá-lo-iam por ser produto de uma fraude e poriam em marcha o «Plano B» da Operação Tenaz(1). Os falsos democratas confessavam que só se comportariam como tal no caso de vitória; se não, a sua resposta seria a sedição. Em contrapartida, Chávez deu-lhes uma lição de republicanismo democrático ao aceitar com fidalguia o veredicto das urnas. Imaginemos que teria que o que teria acontecido se o sim tivesse vencido por uma pequena diferença. Os porta-vozes da democracia teriam incendiado a Venezuela. Apesar da sua derrota a estatura moral de Chávez e a sua fidelidade aos valores de democracia converte em pigmeus os seus oportunistas adversários, que só respeitam os resultados das urnas quando os favorecem. E a propósito, já estão numa posição insustentável os senadores brasileiros que, pretextando a débil vocação democrática de Chávez, querem frustrar o ingresso da Venezuela no MERCOSUR.

Nota do Tradutor:
(1) Operação Tenaz é o nome dado pela CIA ao seu Plano de intervenção na Venezuela pelo referendo: «…um dos objectivos da operação Tenaz é controlar uma faixa territorial ou institucional, com apoio massivo de cidadãos descontentes, num lapso de tempo estimado entre 72 e 120 horas como período mínimo para detonar a fase ascendente das acções previstas, onde se comtempla o pronunciamento militar. (…) O apoio das equipas externas provenientes dos países verde e azul está coordenado, a acção marítima de azul está prevista e as fronteiras com verde nos pontos determiados está livre» As citações são retiradas do relatório «confidencial», datado de 20 de Novembro e divulgado a 27 do mesmo mês. www.aporrea.org/tiburon/n105390.html), em Caracas, redigido pelo funcionário da Oficina de Asuntos Regionales (ORA) da Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA em Caracas, Michael Middleton Steere, e dirigido ao Director da CIA, General Michael Hayden.

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