Dias E, F, G*

Jorge Cadima    16.Jun.19    Outros autores

A habitual manobra de falsificação histórica que se verifica de cada vez que os EUA e os seus vassalos evocam o “Dia D” repetiu-se, desta vez até com o extra de incluir a Alemanha no grupo dos «aliados». Nunca se conformaram com o papel determinante da URSS e dos comunistas das resistências nacionais na derrota do nazi-fascismo. O imperialismo alimentou então a esperança de que sucedesse o contrário. E hoje prepara a guerra com uma visão do mundo que pouco difere da do nazismo.

As comemorações oficiais dos 75 anos do desembarque na Normandia (Dia D) foram um dia E, de enganos, e um dia F, de fake History. Não foi o Dia D que determinou a derrota do nazismo. Basta olhar para o calendário: o desembarque foi em Junho de 1944. Depois das grandes batalhas que determinaram o desenlace da guerra, e onde foi derrotado o grosso das forças militares do nazismo alemão. Batalhas em território soviético: Moscovo, Leninegrado, Estalinegrado, Kursk. Em Junho de 1944 já o Exército Vermelho libertara quase toda a URSS e preparava-se para levar a libertação até Berlim. Foi então que os anglo-americanos, que há dois anos adiavam a abertura da 2.ª frente, se decidiram pelo Dia D. Foram a URSS, o seu povo, Exército Vermelho e Partido Comunista os grandes obreiros da derrota do nazismo – expressão mais violenta e terrorista do capitalismo. É um facto que mais forças tiveram um papel importante, entre os quais outros ausentes nas comemorações: a Resistência popular armada de numerosos países (da China à França), onde os comunistas assumiram também papel decisivo.
Não falsificam apenas o passado. Encobrem que há quem hoje prepare Dias G, de novas guerras. Deixemos que fale o Vice-Presidente dos EUA, Pence, no discurso aos novos graduados da Academia Militar de West Point (25.5.19): «É praticamente certo que vocês combaterão pela América nalgum momento das vossa vidas. […] Isso vai acontecer. Alguns de vós combaterão contra terroristas islâmicos radicais no Afeganistão e Iraque. Alguns juntar-se-ão ao combate na Península Coreana e no Indo-Pacífico, onde […] uma China crescentemente militarizada ameaça a nossa presença na região. Alguns juntar-se-ão ao combate na Europa, onde uma Rússia agressiva procura redesenhar as fronteiras internacionais pela força. E alguns de vós podem até vir a ser chamados para servir neste hemisfério. […] Vistam as vossas armaduras para que “quando” – e não “se” – chegar o dia, estejam prontos». Os desígnios bélicos de Pence abarcam todo o globo. É a guerra como facto banal. A guerra para afirmar o lebensraum (espaço vital) sem limites do grande capital dos EUA. E que tem na China um alvo central. Segundo Martin Wolf escreve no Financial Times(5.6.19), esse foi tema central na reunião anual do Grupo de Bilderberg.
A guerra económica conduz à guerra militar. Todos os dias chegam notícias alarmantes. A UE, para além de palavras de circunstância, reage com submissão e até alinhamento entusiástico, sempre que os alvos sejam a Síria, a Venezuela, a Rússia. Mas a História (a verdadeira) da Europa dos anos 30 mostra ao que conduz dar pasto ao belicismo, ao fascismo, às vontades de dominação mundial pela força. O Washington Post (7.6.19) noticia que Pompeo, o MNE dos EUA, durante uma reunião com dirigentes judaicos nos EUA, prometeu que irá intervir no Reino Unido para impedir uma vitória do dirigente trabalhista Corbyn, antes que aconteça: «É demasiado arriscado e demasiado importante e demasiado difícil, depois de acontecer». O caminho da ilegalidade descarada e assumida foi aberto há 20 anos, com a guerra do Presidente Clinton e da social-democracia contra a Jugoslávia. Está agora a fazer a sua estrada. Está nas mãos dos povos travar a corrida para o abismo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2376, 13.06.2019

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