Dois anos depois de Fukushima
Um importante ponto de inflexão na história contemporânea do Japão

Pierre Rousset    30.Mar.13    Outros autores

Pierre RoussetO impacto da tripla tragédia (sismo, tsunami, desastre nuclear) de 11 de Março de 2011 no Japão ainda está em desenvolvimento. Uma novidade importante a considerar é ter dado ocasião à configuração de dois blocos politicamente opostos. De um lado, o lobby nuclear, as correntes militaristas e em geral a direita nacionalista. De outro, o movimento antinuclear civil, os últimos sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki, os pacifistas que defendem a Constituição, a população que luta na ilha de Okinawa contra as bases estado-unidenses, personalidades intelectuais. O ressurgimento das ambições militares e imperialistas no Japão não é um fenómeno menor. A História nem sempre se repete como farsa. Em muitos casos, repete-se novamente como tragédia.

A tripla catástrofe de 11 de Março de 2011 constituiu um importante ponto de inflexão na história contemporânea do Japão, mas o seu alcance político não é unívoco. Marcou uma ruptura radical na imagem que muitos japoneses tinham das autoridades e das instituições do seu país e deu lugar a uma revolta cidadã profundamente progressista. Entretanto, tudo isto se produziu no meio de uma profunda instabilidade da situação geopolítica da Asia oriental: ao sentimento popular de insegurança acrescentou-se uma grande incerteza sobre a evolução da relação de forças entre as diferentes potências regionais, que suscitou o renascimento de movimentos militaristas e nacionalistas reaccionários.
O terramoto e o tsunami de 11 de Março de 2011 tiveram fortes implicações sociais e económicas, sobretudo na área directamente afectada, o nordeste do Japão, onde a maioria da população afectada se encontra impotente e muito dependente. As redes institucionais, sociais e familiares tradicionais romperam-se. O choque psicológico é profundo, devido à desaparição física de espaços comunitários (povoados, bairros…), à perda de seres queridos, à ausência de informação fiável, à solidão e ao sentimento de não possuir já nenhum controlo sobre o futuro. Face à enorme impotência administrativa que o Estado demonstrou durante estes tempos de crise, as organizações militantes regionais (sindicatos, associações…) realizaram um trabalho notável para oferecer os primeiros auxílios e gerar uma actividade colectiva dirigida aos refugiados. Para a levar a cabo contaram com o apoio de redes nacionais e internacionais, mas os seus recursos são a todos os títulos limitados face à amplitude da catástrofe. O movimento operário japonês, por seu lado, está demasiado debilitado e burocratizado para implicar o conjunto do país nos desafios que a catástrofe colocou na agenda.

Neste contexto, e dada a extrema gravidade do acidente na central de Fukushima, a questão nuclear dominou a cena política no período posterior ao 11 de Março.

O consenso pró-nuclear que existia até então no Japão volatilizou-se. As confissões de personalidades implicadas neste sector económico e a publicação de documentos inéditos mostraram que esse consenso estava baseado em mentiras, corrupção e na cumplicidade do sector público com o privado; na negação dos riscos relacionados com a radioactividade e com a possibilidade de graves acidentes. As mentiras continuaram inclusivamente durante e depois da catástrofe, até ao ponto de que as mães das zonas contaminadas não sabiam que precauções adoptar para proteger os seus filhos (mais sensíveis do que as pessoas adultas a doses de radiação relativamente baixas). Antes do acidente os colectivos cidadãos contra as centrais tinham, sobretudo, um carácter local. Após o acidente, o movimento antinuclear adquiriu uma dimensão nacional que, em algumas ocasiões, chegou a mobilizar dezenas de milhares de pessoas, coisa que nunca antes se tinha visto no arquipélago. Por razões diversas, uma após outra, as centrais nucleares foram parando a sua actividade e em Maio de 2012 não havia nenhuma em funcionamento. Em Julho, Naoto Kan, Primeiro-ministro na altura da catástrofe, manifestou-se a favor de um Japão sem nuclear.
Em 2012 muitas sondagens outorgavam uma ampla maioria a favor da saída da energia nuclear. Entretanto, em princípios de Fevereiro de 2013, as sondagens mostraram que 56% eram favoráveis a uma política de relançamento das centrais, tal como apregoa o novo governo de Shinzo Ave. ¿A que se deve esta mudança?

Instabilidade regional e contra-ofensiva nuclear

Após a catástrofe de Fukushima, o lobby nuclear colocou-se na defensiva. A evolução da situação na Asia Oriental proporcionou-lhe a ocasião para retomar a ofensiva. O lançamento de mísseis norte-coreanos, embora alguns dos quais tenham sido falhados, alimentou o medo face a uma ameaça militar. E, sobretudo, o conflito de soberania com a China agudizou-se. Tóquio administra as ilhas Senkaku (em japonês) ou Diaku (em chinês). Pequim rejeitou sempre a sua anexação pelo Japão mas há décadas que os dois governos evitavam fazer desta questão um “ponto quente” nas suas relações.

Os chamados “pontos quentes” territoriais encontravam-se (e encontram-se ainda) mais a Oeste: a China reivindica, com um forte aparato militar, as ilhas Parecels e Spratley contra o Vietnam, Malásia, Brunei, Filipinas…, mas mantinha-se discreta na delimitação das suas fronteiras marítimas com o Japão.

Em Setembro de 2012, Tóquio abriu a grande caixa de Pandora: o governo “nacionalizou” as ilhas Senkaku, que estavam nas mãos de um proprietário privado. Pequim reagiu enviando navios e aviões para a zona, e declarando depois que queria cartografar o micro arquipélago… A tensão subiu de tom quando o governo japonês acusou um vaso de guerra chinês de ter apontado o radar de ataque a um dos seus destroyers.
Isto não quer dizer que nos encaminhemos para uma guerra entre potências, mas sim que estamos perante um conflito territorial activo, que está para durar.

Se o que até agora estava circunscrito ao âmbito diplomático se converte num conflito explosivo, isso deve-se a que cada Estado cobiça as riquezas submarinas do Mar da China Meridional. E também porque cada um deles tem interesse em alimentar um nacionalismo de grande potência: tanto por razões internas (desviar a atenção da crise social), como porque as relações de força estão em plena evolução. A China reafirma-se como potencia militar e não quer ver-se bloqueada por uma “primeira linha de ilhas” que vai desde Senkaku/Diaku até Spratley e Paracels. O Estados Unidos reforçam a presença da VII Frota. Entretanto, Tóquio não tem assegurado que a protecção de Washington continuará indefinidamente.

Nesse contexto, pela primeira vez se ouvem vozes autorizadas do Japão declarando, de forma mais ou menos explícita, que o arquipélago deveria dotar-se de armas nucleares. Está a ponto de cair um tabu fundamental deste país que, em 1945, viveu na própria carne os crimes contra a humanidade de Hiroshima e Nagasaki. Cada vez é mais evocada a supressão do Art.º 9º da pacifista Constituição nipónica que consagra a sua renúncia à guerra. Adoptam-se medidas concretas (e anunciam-se outras novas) orientadas no sentido de acrescentar o poder militar das “forças de autodefesa”: incremento do orçamento militar, reposicionamento de caças F-15, colocação em órbita de um satélite óptico de grande precisão, etc.

O lobby nuclear argumenta que quem queira a segurança energética nestes tempos turbulentos deve querer a energia nuclear, para não depender das vias marítimas de aprovisionamento. E o mesmo para quem quer a bomba: a indústria nuclear “civil” fornecerá os materiais físseis necessários aos militares. Esta campanha alarmista teve êxito entre a população japonesa.

Confrontada com esta nova situação, a esquerda civil japonesa lançou um apelo a que cada país da região se opusesse ao crescimento dos nacionalismos xenófobos e militaristas. Denuncia a vontade de recorrer a uma história mitificada para se apropriar de ilhotas desabitadas. Propõe uma gestão compartilhada dos mares no interesse dos povos e respeitando as exigências ecológicas.

Configuraram-se dois blocos politicamente opostos, o que constitui toda uma novidade. De um lado, o lobby nuclear, as correntes militaristas e em geral a direita nacionalista. De outro, o movimento antinuclear (civil), os últimos sobreviventes de Hiroshima/Nagasaki ou quem os representam (os representantes municipais), os pacifistas que defendem a Constituição, a população que luta na ilha de Okinawa contra as bases estado-unidenses, personalidades como o premio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe… Todavia, o movimento antinuclear nipónico enfrenta uma situação política difícil para a qual não estava preparado.

A ausência de uma alternativa política à esquerda, a rejeição da energia nuclear após Fukushima, foi capitalizada no terreno eleitoral pelos partidos de centro-direita, que rapidamente caíram em desgraça pela sua incompetência. Consolidam-se novas formações políticas populistas de direita radical, primeiro na região de Osaka e depois em Tóquio. De momento, quem reconquistou o poder, com Shinzo Abe, foi o Partido Liberal Democrata, partido maioritário do pós-guerra. Beneficiou da abstenção dos sectores desencantados da população, de uma bem embrulhada reputação de bom gestor, e de diferir para depois da campanha eleitoral as más notícias, como a assinatura do Tratado transpacífico de Livre Comércio, cujos efeitos sociais serão desastrosos.

Internacionalização do movimento antinuclear

Não existe possibilidade de que a central de Fukushima regresse à normalidade. A crise nuclear está para durar.
O movimento cidadão do arquipélago continua lutando dia a dia: piquetes frente à sede de Tepco (o operador de Fukushima), denúncias das vítimas, oposição à reabertura das centrais… Em Novembro passado, o Japão acolheu a segunda conferência internacional para um mundo livre de nucleares. Teceram-se nele estreitos vínculos entre as lutas que se desenvolvem em diversos países da região, como na Coreia do Sur ou na India. Pela primeira vez, o Fórum Popular Asia-Europa aprovou uma declaração a favor do abandono da energia nuclear. E para Março de 2013 estão convocadas numerosas mobilizações em torno do segundo aniversário da catástrofe.
A onda de choque de Fukushima continua a ampliar-se.

Fonte: http://www.vientosur.info/spip.php?article7756

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