Dois velhos

Correia da Fonseca    04.Mar.07    Colaboradores

Apesar do aumento crescente da riqueza criada, da propaganda do Primeiro-Ministro José Sócrates de que a recuperação económica está aí, do aumento do investimento estrangeiro tão largamente publicitado pelo ministro Manuel Pinho, são cada vez mais os velhos que vivem em condições degradantes. A opção de classe do governo é uma evidência.

A televisão deu a notícia, não sei se em todos e cada um dos quatro canais «básicos» ou se apenas em alguns deles, nem parece ser isso o que importa: a televisão deu a notícia de que os dois velhos haviam sido encontrados mortos. Pelo menos um dos canais até mostrou fugidias imagens da casa, ou melhor, do casebre onde moravam. E a televisão, ainda que sem muito se demorar na notícia, até acrescentou alguns pormenores: o casal andava pelos oitenta anos de idade, ele um pouco menos, ela um pouco mais, e quanto às causas da morte não se sabe nada. Ou, mais exactamente, sabia-se alguma coisa: que não tinham morrido por terem sido vítimas de violência, género assalto a idosos isolados e indefesos, que é modalidade que está a usar-se muito. Também não haveria sinais de intoxicação ou coisa parecida. Mas que estavam mortos os dois, isso estavam, e até já há alguns dias.

Aparentemente, os dados tornados públicos sugeriam algum mistério, mas não vi que nenhuma das estações se sentisse motivada para o decifrar, o que aliás me espantou um poucochinho pois bem se sabe que a TV é doidinha por cadáveres e por mistérios.

O que ouvi a TV dizer, não sei se já se num ou em mais do que um dos canais, foi que o casal vivia isolado e em condições de grande miséria. Disse-o, porém com muita naturalidade, quase que com displicência, sem o menor sinal de espanto e muito menos de indignação. Compreende-se lindamente que assim tenha sido: velhos a arrastarem os seus últimos tempos na maior miséria é o que há mais por esse Portugal fora e, como bem se compreende, se fôssemos a importarmo-nos muito com isso não ha¬veria tempo nem cabeça para acompanharmos devidamente a odisseia das duas OPA actualmente em curso, as telenovelas portuguesas e luso-brasileiras e as peripécias investigatórias do Apito Dou¬rado. Isto não significa, entenda-se, que a televisão portuguesa nunca fale dos velhos que, de resto, no nosso país são milhões, bem mais numerosos do que era necessário, e por serem milhões custam um dinheirão ao Serviço Nacional da Saúde. Muitas vezes a TV mostra os velhos a dançar, actividade que pelos vistos praticam mais intensamente do que seria de supor, ou a jogar às cartas. Quanto às condições de vida ou, dizendo talvez melhor, de penosa sobrevivência, não tem a televisão oportunidade de se ocupar do tema que, aliás, podia ter efeito deprimente sobre a massa espectadora, o que não será aconselhável. Bem se vê que a RTP, a do serviço público, decerto no cumprimento do dever que é o de fazer com que o bom povo não tenha pensamentos tristes, passa o tempo a transmitir coisas alegres ou que por ser alegres se esforçam. Por exemplo, andou meses a dar-nos o «Vamos Dançar» em horário nobilíssimo onde está agora o tam¬bém divertido «Aqui há talento». E, quando se trata de dar-nos notícias tristes, grandes desastres, bombas que estoiram, fomes e doenças, reparar-se-á que são acontecimentos situados longe, noutros países, nada que nos diga respeito. Tudo de tal modo que mesmo os velhos portugueses afundados na miséria bem podem, apesar de tudo, dar graças por viverem aqui. Tudo a justificar que a TV não dá muito importância aos seus casos. Mesmo quando morrem em circunstâncias não esclarecidas como o casal de velhos cujos corpos, encontrados agora, mereceram um minutinho de tempo de antena, o que já não é mau atendendo à efectiva irrelevância do seu caso.

Aliás, pelo menos um dos canais que deu a notícia do duplo falecimento (a menos que eu tenha lido a informação na imprensa, o que aliás não exclui que a televisão a tenha recuperado, co¬mo tantas vezes acontece), o casal tinha um rendimento mensal de trezentos euros graças à Segurança Social, sessenta contos na moeda do tempo dos dois velhos. Este facto parece desmentir a referência à «miséria extrema»: presume-se que os tais sessenta contos/mês auferidos por dois velhos inevitavelmente achacados, se não doentes, vivendo isolados, carentes de todo o conforto, atolados num desespero que já não o é porque se tor¬nou rotina, pode viver muito bem com sessenta contos. Mas não é bem verdade. Para o saber com um mínimo de rigor seria preciso conhecer pelo menos alguns dados acerca do seu quotidiano; mas se nos lembrarmos de quanto custam legumes e azeite, do que é indispensável para poder cozinhar, de quanto é difícil conseguir uma consulta de onde se sai com uma receita que não pode ser aviada na farmácia por falta de dinheiro, do custo para muitos astronómicos do peixe e da carne, de que isto tudo é terrivelmente pior quando se é octogenário ou se está à beira de o ser, fica-se mais perto, mas ainda longe, de poder imaginar o que leva um casal de velhos a abandonar-se até que a morte entre em sua casa pela porta talvez mal fechada. Mas, felizmente, nada disto é muito importante. Porque, se fosse, decerto a TV não teria sido tão sucinta.

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