“E ao Trabalho, no duro”

Raúl Castro*    29.Ene.08    Outros autores

Raúl Castro

Neste importante discurso, Raul Castro analisa muitos dos problemas que atravessam a sociedade cubana e aponta os caminhos da sua superação.

Discurso de Raul Castro na Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba

Companheiras e companheiros:

Tivemos uma boa reunião sobre o Plano da Economia e o Orçamento aprovados para o próximo ano [2008, N.T.]. Foi a mais rápida da história.

O objectivo desta intervenção é partilhar convosco algumas reflexões sobre a situação económica e social do país.

O último ano foi indubitavelmente de um intenso trabalho com a participação activa de todo o povo. Decorreram menos de três meses desde que se concluíram as 215.687 reuniões realizadas no âmbito do debate promovido pelo nosso Partido, a partir dos temas expostos no comício central do 54º aniversário do assalto aos quartéis de Moncada e Carlos Manuel Céspedes.

Quando o nosso Partido apelou à reflexão sobre o que se disse em 26 de Julho em Camaguey, o objectivo não foi inteirarmo-nos dos problemas. Realmente a maioria destes eram conhecidos e sobre muitos deles falei nessa ocasião, pelo menos sobre os que consideramos fundamentais para o bem-estar da população e o adequado desempenho sócio-económico do país.

Que a nossa apreciação é correcta, ratificaram-no mais de cinco milhões de cidadãos nas reuniões de estudo e reflexão durante os meses de Setembro e Outubro, qualificadas como necessárias e úteis.

Muito do que foi colocado refere-se a problemas locais ou estão associados a deficiências e erros de pessoas específicas, pelo que há que enfrentá-los e resolvê-los de forma directa onde acontecem.

Em consequência disso, orientaram-se os diferentes níveis de direcção do Partido, o Governo, as organizações de massas e os locais de trabalho a adoptar, de imediato, as medidas necessárias para a solução dos problemas que não têm que esperar por uma decisão superior, o que já foi concretizado.

O principal e decisivo objectivo deste grande esforço foi a procura, com a participação consciente e activa da imensa maioria dos cubanos, das melhores soluções ao alcance das possibilidades económicas do país já que, como se disse recentemente, aqui ninguém é mágico nem pode sacar recursos da manga.

Além disso, é preciso tempo para estudar, organizar e planificar a forma de alcançar os objectivos propostos a partir das prioridades estabelecidas, com mais qualidade e eficiência. Tudo isto não passa apenas pela vontade ou pelo interesse dos envolvidos na solução dos problemas, também depende em boa medida da disponibilidade de recursos e da autoridade e qualidades dos quadros envolvidos.

A experiência ensina-nos a importância de analisar os problemas de forma integral, conciliar decisões e actuar com racionalidade.

Por isso, nem todas as propostas e sugestões se poderão aplicar integralmente.

Há que forjar um consenso para determinar o mais racional conveniente, pois em não poucos casos contrapõem-se, e algumas opiniões reflectem falta de informação, muito especialmente na esfera económica.

Este processo ratifica uma coisa fundamental: quem ocupa um cargo de direcção deve saber ouvir e criar o ambiente propício para que os demais se expressem com liberdade absoluta. É algo que deve incorporar-se definitivamente no estilo de trabalho de cada dirigente, juntamente com a orientação, a crítica ou a medida disciplinar oportuna.

Todos queríamos avançar mais depressa, mas nem sempre é possível.

O nosso povo recebe informação por muitas vias e trabalhamos para as aperfeiçoar e eliminar a tendência nocivo para o triunfalismo e a complacência, e garantir que cada companheiro com determinada responsabilidade política ou administrativa informe de maneira sistemática sobre o que lhe compete, com realismo, de forma diáfana, crítica e autocrítica.

Esse é o propósito das últimas mesas redondas sobre temas nacionais, com a presença dos chefes dos organismos mais importantes. Estas continuarão a realizar-se sempre que haja qualquer coisa importante para informar. Também devem fazer-se nas províncias e municípios, não apenas pelos meios de difusão, mas também directamente nos bairros e locais de trabalho, onde podem resolver-se ou explicar-se muitos problemas.

Também os diferentes meios da imprensa nacional contribuíram para a análise de temas vitais para a população e o desenvolvimento sócio-económico do país. A crítica, quando adequadamente exercida é essencial para avançarmos.

Muitas companheiras e companheiros são testemunhas do rigor com que se estudaram as mais 1.300.000 questões recolhidas a partir das 3.255.344 intervenções feitas. Constituem uma fonte de informação de grande utilidade, tanto para o presente como para o futuro.

Concordamos com os que alertaram sobre o excesso de proibições e medidas legais, que trazem mais prejuízo que benefício. A maioria podemos dizer que foram correctas e justas no seu momento, mas não poucas foram superadas pela vida e por trás d cada proibição incorrecta, está um bom número de ilegalidades. Sobre um dos temas mais abordados nas reuniões, a produção de alimentos e os seus altos preços, o país trabalha com a urgência que esse vital assunto exige, pelo seu impacto directo e quotidiano na vida da população, sobretudo nas pessoas com menores rendimentos.

Avançou-se no estudo e continuar-se-á a actuar com toda a rapidez que as circunstâncias o permitam, para que a terra e os recursos estejam nas mãos dos que sejam capazes de produzir com eficiência, se sintam apoiados, reconhecidos socialmente e recebam a retribuição material que mereçam.

Não pretendi esgotar nenhum dos temas abordados, a eles haverá voltar uma e outra vez. Este foi, como esperávamos um processo crítico, em que a maioria dos nossos compatriotas manifestou de forma clara o seu apoio ao nosso sistema social, ao Comandante em Chefe e ao Partido.

Milhões de cubanos expressaram considerações e sugestões dirigidas a aperfeiçoar o nosso socialismo. Como expressei há poucos dias em Santiago de Cuba, foi uma sólida demonstração do alto nível de consciência e cultura política do nosso povo.

É inegável o avanço da economia expresso no crescimento do Produto Interno Bruto nos últimos anos, mas interessa-nos especialmente que o comportamento positivo dos indicadores macro-económicos se reflicta o mais possível na economia doméstica, onde estão presentes carência quotidianas.

Também se analisam decisões dirigidas à paulatina solução de diversos problemas na educação, na saúde, no transporte, na habitação, na recriação, para mencionar apenas alguns dos problemas mais acutilantes, parte dos quais poderão resolver-se, ou peo menos melhorarem-se em prazos razoáveis, sobretudo os que são originados por causas de carácter subjectivo. O principal destes problemas abordou-se nos relatórios entregues aos deputados para esta sessão da Assembleia e que antes foram discutidos profundamente nas Comissões.

A solução de muitas dificuldades exige elevar a eficácia do processos de investimento. Haverá que estabelecer prioridades, organizar melhor a mão-de-obra e os recursos e introduzir tecnologias modernas. Este esforço deve contriuir para incrementar a produtividade. E uma coisa fundamental: investimento que se inicie deve concluir-se no prazo previsto, caso contrário imobilizam-se recursos sem colher os benefícios.

Outro grupo de complexos problemas, com a existência de duas moedas e as deformações dos sistemas de salários e preços, requerem um etudo profundo e realizar-se-á com o cuidado, rigor e responsabilidade que merecem.

Devemos determinar, com a participação activa de todos, quais são, nas nossas condições, as vias mais efectivas para assegurar o incremento sustentado da produção nacional e da capacidade exportadora do país, reduzir as importações e investir os recursos em prioridades bem definidas, para que a procura sistemática da eficiência produtiva, bem como o aperfeiçoamento do sistema empresarial, ligado aos resultados.

Além disso, estamos obrigados a defender a credibilidade do país perante os credores e garantir os recursos necessários para os investimentos que assegurem o desenvolvimento perspectivo.

Como já disse, na poupança está uma das maiores fontes de recursos para alcançar o desenvolvimento referido, mas ainda é insuficiente a consciência da sua importância em alguns cidadãos, colectivos de trabalho e instituições.

São justas as críticas da população pelo uso irracional dos recursos em determinadas entidades estatais por desorganização, falta de controlo e exigência, enquanto se encontram pendentes de solução necessidades sociais e económicas.

Como expliquei em Camagwey, nem todos os problemas e carências se devem a deficiências internas. Também tem influência uma conjuntura económica internacional que não podemos pôr de lado, caracterizada pelo crescimento acelerado do custo do combustível e alimentos que compramos, para mencionar apenas dois aspectos básicos, ainda que a realidade é que quase tudo o que importamos subiu de preço e continua a subir.

A isto soma-se, como sabemos, as perdas derivadas do bloqueio económico contra Cuba e a necessidade de enfrentar as consequências de desastres naturais de magnitude e frequência crescentes, produzidos pela mudança climática. Basta assinalar um só dos acontecimentos climatéricos no Oriente do país, onde nos vimos obrigados a gastar 499 milhões de dólares não previstos.

Como vemos, são enormes os desafios que temos pela frente, mas ninguém duvide da firme convicção demonstrada pelo nosso povo de que só o socialismo é capaz de vencer as dificuldades e preservar as conquistas de quase meio século de Revolução.

Uma Revolução que nos pertence, a todos, pois nasceu e cresceu graças ao esforço e ao sacrifício de muitas gerações de patriotas. Das mãos e da consciência de todos nós, os cubanos de hoje e de amanhã, depende torná-la cada dia mais forte até que seja invulnerável em todos os campos.

Seria suicida não actuar assim frente a uma administração norte-americana que, como acaba de explicar o companheiro Alarcón, aumentou a sua agressividade contra Cuba para satisfazer os interesses dos sectores mais extremistas desse país. Prova disso é o recrudescimento da guerra económica, como parte do reforço do Plano Bush, que inclui medidas de pressão e tentativas desesperadas e infrutíferas para desestabilizar o país, procurando articular novos pretextos para justificar a sua política hostil, ante o qual cresce a rejeição internacional e em sectores cada vez mais amplos da própria sociedade norte-americana.

O nosso povo toma muito a sério cada ameaça. Assim o vem demonstrando a Operação Caguairán, que permitiu preparar cerca de 430.000 combatentes da reserva e milicianos, e outras tarefas fundamentais como a modernização do armamento, a preparação do teatro de operações militares e o recente exercício Moncada 2007, que fortaleceram substancialmente a capacidade defensiva do país e assentaram as bases que contribuirão para o desenvolvimento com êxito, em finais do próximo ano, do exercício Bastión 2008.

Perante a intensificação das manobras de subversão e dos esforços para no isolarem internacionalmente, preservou-se a estabilidade interna,o país continuou a consolidar o seu desenvolvimento sócio-económico e fortaleceu o prestígio internacional da Revolução.

Durante o ano, como já antes aqui fizemos referência, avançou-se significativamente na implementação de programas estratégicos que se repercutiram de forma positiva na economia e na melhoria das condições de vida do nosso povo, como a Revolução Energética, para citar apenas um exemplo.

No plano político, a imensa maioria dos cubanos demonstraram de forma indesmentível a sua decisão de preservar e defender a Revolução durante as eleições dos delegados do Poder Popular no passado mês de Outubro, e estamos seguros que assim será no próximo dia 20 de Janeiro, quando elegermos os delegados às assembleias provinciais e os deputados que integrarão a nossa Assembleia Nacional.

Na presidência dos Não Alinhados, Cuba manteve a sua vitalidade e influência em importante processos multilaterais.

Uma vez mais, o governo norte-americano, apesar dos ingentes esforços, não conseguiu impor as suas pretensões de condenar o nosso país em matéria de Direitos Humanos, tendo sofrido uma humilhante derrota na votação recorde contra o bloqueio na Assembleia-Geral das Nações Unidas.

A recente visita do Presidente Chávez, a Cimeira da PETROCARIBE e o avança da ALBA foram passos importantes na consolidação dos mecanismos de integração regional.

No próximo ano, o nosso desempenho deverá caracterizar-se pela sistematização, a organização, a planificação e o controlo efectivos; trabalhar por prioridades e usar racionalmente os recursos; incrementar a produtividade do trabalho e da eficiência; fortalecer a integração, a cooperação e a coesão na actividade de direcção dos organismos de Estado, do Governo, da União de Jovens Comunistas e das organizações de massas a todos os níveis, para enfrentar em conjunto e sob a direcção do Partido, os princípios problemas que hoje afectam o nosso povo.

Em nome do Comandante em Chefe, do Comité Central do Partido e dos membros desta Assembleia transmitimos aos nossos compatriotas uma merecida felicitação por tudo o que têm feito para chegar com êxito, apesar de todas as dificuldades e agressões, ao “Ano 50 da Revolução”, que indubitavelmente será também de modestos triunfos em todos os campos.

Os deputados que integram esta Sexta Legislatura souberam cumprir o mandato do nosso povo e merecem o seu reconhecimento. Alguns de vós foram novamente propostos, outros cessam esta função e continuarão a cumprir as suas tarefas habituais pois, como é conhecido, ninguém ganha um centavo por ser membro desta Assembleia. A todos posso garantir que se alguma coisa não lhes faltará será muito trabalho.

Em qualquer responsabilidade que nos for confiada estaremos à altura da confiança que o nosso heróico povo em nós depositou e da honra de ser soldados de uma Revolução encabeçada por um Comandante em Chefe que, com o seu exemplo e sabedoria, sempre nos conduziu à vitória.

Seremos dignos de um povo que enfrentou durante décadas, com valor e estoicismo, todos os perigos e dificuldades; um povo cuja juventude está a demonstrar saber ser consequente com a sua gloriosa história, de que são um fiel exemplo os nossos Cinco Heróis prisioneiros do Império, que no próximo ano cumprirão uma década de injusta condenação nos cárceres norte-americanos.

Desejo a todos, cubanas e cubanos, um feliz ano 2008. Celebrem, descansem, recuperem forças, merecem-no.

E ao trabalho, no duro!

Muito obrigado

*Intervenção do general do Exército Raul Castro Ruz, Primeiro Vice-presidente dos Conselho de Estado e de Ministros, na Assembleia Nacional do Poder Popular, em 28 de Dezembro de 2007, Ano 49 da Revolução.

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