É oficial! Curar doentes é mau para o negócio

Milton Packer    21.Abr.18    Outros autores

A mercantilização da saúde só poderia seguir-se a sua financeirização. Não são as curas necessárias mas os relatórios de Goldman Sachs quem define as opções da indústria farmacêutica. O capitalismo na sua fase terminal faz da doença e da morte um colossal negócio, seja directamente pela via da guerra ou indirectamente pela mercantilização da doença.

As empresas farmacêuticas apenas estão a desenvolver novos medicamentos em duas áreas – cancro e doenças raras. Porquê? Porque estas são as duas únicas áreas terapêuticas em que os preços exorbitantes são tolerados pelos pagantes.

De quanta exorbitância estamos a falar? Muitos novos medicamentos para o cancro e as doenças raras estão a custar acima de $400,000 anuais por paciente. E os preços continuam a subir.

Quem sofre com esta política de preços? Poderia pensar-se que seriam os doentes com cancro ou doenças raras os mais atingidos. Mas não é isso que sucede.

Para fazer face a estes custos exorbitantes mesmo para um número reduzido de pessoas, quem paga corta nos gastos em outras áreas terapêuticas, e esses cortes afectam milhões de pessoas. Por exemplo: em vez de aceitarem pagar $1,500 pelo melhor tratamento para a diabetes, os pagantes optam por um tratamento de segunda por $75. Como os médicos não são bons a dissuadir pagantes, muitos doentes ficam pelo tratamento de segunda.

Assim, os doentes que mais ficam a perder são em particular aqueles que não têm cancro ou doenças raras. Na verdade, é aproximadamente toda a gente quem perde de cada vez que uma empresa coloca em níveis extremos o preço de um novo medicamento.

Na semana passada, as coisas pioraram ainda.

Segundo um artigo de Tae Kim na CNBC, a Goldman Sachs publicou um relatório (de Salveen Richter) que sugeria que os fabricantes de medicamentos deveriam pensar duas vezes acerca da questão de produzirem medicamentos demasiado eficazes. O relatório Richter, intitulado “The Genome Revolution” (“A Revolução do Genoma”) foi publicado em 10 de Abril. Nele é dito:
“Um dos aspectos mais atractivos da terapia genética, da terapia através de células geneticamente manipuladas, e da edição de genes é o potencial de disponibilizar ‘curas instantâneas’. Esses tratamentos oferecem, contudo, uma imagem muito diferente se se considerarem os rendimentos obtidos por comparação com os das terapias prolongadas ou crónicas…Enquanto esta perspectiva comporta um valor tremendo para os doentes e para a sociedade, poderia representar um desafio para os que desenvolvem a medicina do genoma tendo em vista um fluxo de ingressos sustentado.”

Traduzindo: se desenvolves um novo medicamento que cura rapidamente as pessoas, então os doentes não necessitam de tomar esse medicamento de forma continuada, e isso limita a quantidade de dinheiro que a empresa pode obter.

A analista pergunta: “Curar doentes será um modelo sustentável de negócio?”

O “problema” parece ser particularmente sério se se tratar de uma doença contagiosa. O relatório Goldman Sachs cita o exemplo da Gilead Sciences (etiqueta GILD), que obteve sucesso com o seu inovador tratamento para a hepatite C Sovaldi em 2013, seguido pelo Harvoni menos de um ano mais tarde.
A sua introdução constituiu um acontecimento marcante – por duas razões. Primeiro, disponibilizavam uma cura quase segura para a hepatite C em 12 semanas. Fantástico! Segundo, situavam-se entre as primeiras cujo preço se situava a níveis exorbitantes. Quando o Harvoni foi disponibilizado, um tratamento de 12 semanas custava nos EUA $94,500. Curiosamente, o mesmo tratamento de 12 semanas custava $900 na Índia (presumo que, ainda assim, a companhia obtinha lucro com as suas vendas na Índia).

Era este escandaloso preçário suficientemente bom para Goldman Sachs? Aparentemente, não.

No seu relatório, a srª Richter regista que as vendas de tratamentos para a hepatite C atingiram um pico de $12.5 milhares de milhões, mas têm vindo a decair desde então. Goldman estima que as vendas nos EUA destes tratamentos sejam este ano inferiores a $4 milhares de milhões. A srª Richter lamenta esta evolução.

Escreve ela: “GILD é um caso de estudo, em que o sucesso da sua patente para a hepatite exauriu gradualmente o universo disponível de doentes a tratar.” “No caso de doenças infecciosas transmissíveis como a hepatite C, curar os doentes existentes reduz também o número de portadores em condições de transmitirem o vírus a novos doentes, e dessa forma o número de incidências declina também.”

“A rápida ascensão e queda da patente da Gilead para a hepatite C ilustra uma das dinâmicas de um medicamento eficiente que cura uma doença de forma permanente, tendo como resultado uma gradual exaustão do universo predominante de pacientes,” escreveu a analista.” …doenças como os cancros vulgares – em que o universo de incidência permanece estável – constituem um menor risco para o negócio.”

Irá portanto uma empresa que se disponha a desenvolver uma verdadeira cura para uma doença infecciosa ter problemas em obter financiamento?
Basta imaginar que uma empresa dispõe de um novo medicamento que pode curar com uma só dose ≥ 90% dos doentes.

Resposta imaginária dos investidores: Isso é excelente. Mas o vosso medicamento é demasiado eficiente. Não irão conseguir gerar um movimento de receitas sustentável com esse tipo de plano de negócio.

Sugestão óbvia: Não seria possível tornar o medicamento um pouco menos eficiente, de modo a que as pessoas necessitassem de o tomar de forma continuada, de modo a que a vossa empresa pudesse gerar maior receita?
A empresa responde que não.

Resposta imaginária: Pronto, se insistem em produzir um medicamento que cura com uma só dose, então recomendaríamos que cobrassem uma quantia enorme por ele. Poderíamos propor que cobrem $1 milhão por cada tratamento?

Pensão que este valor é exagerado?

No início deste ano, a Spark Therapeutics apresentou um novo medicamento (Luxturna) para uma forma rara de cegueira. Promete a cura com uma só dose. O preço tabelado é de $425,000 por cada olho. O que significa $850,000 por uma cura.

E há pior.

Em 2012, uma empresa chamada uniQure N.V. colocou no mercado o Glybera (tiparvovec) para o tratamento da deficiência de triproteína lípase, ao preço de $1.6 milhões por tratamento. Depois de um único paciente ter sido tratado no mundo inteiro, ninguém pareceu motivado para receitar o supercaro medicamento, e a empresa não renovou a sua autorização de venda.

O que é que estes exemplos nos ensinam? Que ainda não atingimos os limites da inovação científica, mas atingimos os limites do bom senso e da simples decência.

Quando a mais importante empresa de investimento bancário do mundo se interroga se será boa ideia apoiar empresas que querem desenvolver curas, batemos no fundo.

O que é que vem a seguir para a assistência à saúde? Sempre soubemos que prolongar a vida sai caro. Agora parece que curar as pessoas não é suficientemente lucrativo.

Quer ganhar dinheiro? Desenvolva medicamentos que não curam nada, mas que promovem utilização prolongada e dependência, e encurtam a vida. Os banqueiros e os pagantes vão adorar.

Ooops! Esqueci-me. Já temos esses medicamentos. Chamam-se opiáceos.

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