Egipto legitima regime militar*

Carlos Lopes Pereira    15.Jun.14    Colaboradores

O novo Presidente egípcio, al-Sissi, governa de facto desde Julho de 2013, quando os militares derrubaram e encarceraram Mohamed Morsi. A sua eleição apenas reforça a legitimação do regime autoritário militar num país crucial para a estratégia imperialista no Médio Oriente.

O novo presidente do Egipto, Abdel Fattah al-Sissi, tomou posse no domingo. Saudou a «transição democrática e pacífica» no país, prometeu segurança e estabilidade, falou de «reconciliação».

No dia seguinte, o primeiro-ministro cessante, Ibrahim Mahlab, foi reconduzido e encarregado de formar governo. Uma das tarefas do futuro gabinete será organizar eleições legislativas, ainda sem data marcada, prosseguindo assim a legitimação do regime autoritário militar.
Ex-líder das forças armadas, marechal na reserva, al-Sissi governa de facto desde Julho de 2013, quando os militares derrubaram e encarceraram Mohamed Morsi. O golpe foi justificado na altura pelas gigantescas manifestações que exigiram o afastamento do presidente, eleito um ano antes mas que rapidamente se tornou impopular ao pretender impor um regime islâmico.

Seguiu-se uma repressão sangrenta contra os partidários de Morsi, membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana. Esta vaga de violência terá causado 1400 mortos e 15 mil presos. A confraria foi ilegalizada, declarada «organização terrorista», os seus principais dirigentes foram presos e julgados sumariamente, enfrentando a pena de morte. Alguns partidos e movimentos laicos sofreram igualmente a repressão.
Al-Sissi, de 59 anos, venceu com quase 97 por cento as eleições realizadas em finais de Maio, marcadas por elevada abstenção. Tornou-se assim no segundo presidente da República do Egipto desde que Hosni Moubarak foi derrubado em 2011 pelos ventos da «Primavera árabe».

Agora, no Supremo Tribunal, à cerimónia de juramento presidencial assistiram os principais responsáveis políticos e religiosos egípcios. No Palácio de Ittihadiya estiveram presentes as delegações estrangeiras que se deslocaram ao Cairo para a posse de al-Sissi. As de mais alto nível foram encabeçadas pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, pelos reis da Jordânia, do Kuweit e do Bahrein, pelo líder da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, pelos presidentes da Eritreia, Guiné Equatorial e Chade. Washington enviou um conselheiro de John Kerry, da Rússia viajou o líder da Duma, os países da União Europeia mandaram embaixadores.

Negócios militares de milhões

Apesar das habituais «preocupações» manifestadas em relação à democracia e aos direitos humanos, os Estados Unidos e aliados nunca deixaram de apoiar al-Sissi, um homem da sua confiança. O marechal, ao longo da sua carreira, recebeu formação militar em academias britânicas e norte-americanas.

O Egipto, a mais populosa nação árabe, com os seus 90 milhões de habitantes, é um país crucial para a estratégia imperialista no Médio Oriente, garantindo a segurança de Israel. Estima-se que a «ajuda» de Washington ao Cairo, desde finais dos anos 70, seja da ordem dos 1,8 mil milhões de dólares anuais, a maior parte em armamento e formação militar. Só Israel e a Colômbia recebem dos Estados Unidos «ajudas» militares superiores.

Não é por acaso, pois, que as forças armadas egípcias são a instituição mais poderosa do país. Estão no poder desde a revolução encabeçada por Nasser, em 1952, e são omnipresentes em todas as esferas da vida pública, incluindo a económica. Possuem empresas – de construção civil, turismo, alimentação, combustíveis –, um autêntico império que escapa ao escrutínio público. Os peritos calculam que o sector económico controlado pelos militares represente entre 5% e 35% do produto interno bruto.

Para além do apoio político, económico e militar dos Estados Unidos, o Egipto de al-Sissi conta com o auxílio dos petrodólares das monarquias árabes para relançar a sua debilitada economia. Segundo o jornal espanhol El País, a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes Unidos e o Kuweit evitaram males maiores com a recente injecção de 20 mil milhões de dólares em empréstimos, subvenções e produtos petrolíferos.
À cautela, para consolidar o reconhecimento do Ocidente, al-Sissi diversifica os negócios de armamento. A revista Jeune Afrique, de Paris, revelou que, em princípios de Junho, o Cairo ofereceu à França um contrato de mil milhões de euros para construção de quatro corvetas para a marinha de guerra egípcia. Os navios poderão ser equipados com mísseis de fabrico britânico.

Mesmo a Rússia, que os Estados Unidos tentam isolar a pretexto do conflito na Ucrânia, não fica de fora. Ainda ministro da Defesa, em Fevereiro deste ano, al-Sissi visitou Moscovo e assinou com Putin um acordo para fornecimento ao Egipto de 24 modernos caças-bombardeiros Mig-35, no valor de três mil milhões de dólares. O negócio inclui o envio de instrutores russos para treino de pilotos egípcios e outras formas de assistência militar…

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2115, 12.06.2014

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