Egipto:
Contágio explosivo

Egipto - Pirâmides“… A lição inexorável para as diplomacias ocidentais, a estadunidense em primeiro lugar, é que devem rever profundamente e corrigir a prática diplomática de dar apoio a regimes tirânicos, a troco de um alinhamento com os seus interesses geopolíticos: se essa fórmula imoral foi num determinado momento conveniente para Washington e os seus aliados, é hoje claro que ela é insustentável e contraproducente, e que obstaculiza as perspectivas de democratização pacífica não só do Magrebe e no norte de África, mas em todo o mundo.”

No âmbito do chamado Dia da Ira, milhares de egípcios manifestaram-se ontem [25 de Janeiro] nas principais cidades daquele país para exigir a demissão do presidente Hosni Mubarak – que encabeça, há três décadas, um regime ditatorial, corrupto e violador dos direitos humanos –, em luta pela derrogação da Lei de Emergência, em vigor no país desde 1981, lei que permite detenções arbitrárias e que foi usada para reprimir qualquer voz discordante com o regime, contra a violência policial, o desemprego, o aumento dos preços e os baixos salários. O saldo preliminar pela tentativa de dissolver as mobilizações é de três mortos: dois manifestantes em Suez (noroeste) e um polícia no Cairo.

Com tudo isto ficou evidente a velocidade com que se estendeu a outra nação do mundo árabe as revoltas iniciadas em Tunis há já um mês (que provocaram a queda de Zine Abdine Ben Ali no passado sai 14 de Janeiro). Com efeito, ainda que os distúrbios e o descontentamento no país magrebino estejam longe de terminar, o ambiente político explosivo contagiou o Egipto, país que, tal como a Tunísia, presumia gozar de alguma estabilidade interna, mas em que também se conjugam o estarem fartos de um governo autocrático e repressor, bem como o desespero popular pelos efeitos da globalização económica.

Para além destes traços comuns, o caso egípcio reveste-se de particularidades que potenciam o seu impacto internacional: ao contrário da Tunísia, que é a nação mais pequena do norte de África, o Egipto é o país mais populoso do mundo árabe – com uns 80 milhões de habitantes –, e o que tem o maior exército; tem uma posição geográfica estratégica – entre os continentes africano e asiático e entre os mares Vermelho e Mediterrâneo -, e tem uma rota chave para as comunicações e o aprovisionamento energético da Europa: o canal do Suez. Outra diferença substancial é que, enquanto na Tunísia não existe praticamente uma oposição islâmica – que foi conscientemente reprimida pelo governo de Ben Ali – nas mobilizações do Egipto foi clara a participação dos Irmãos Muçulmanos, partido ortodoxo sunita que constitui a principal oposição ao regime, e é tido como a formação inspiradora do grupo palestino Hamas, e que, por isso, representa um dos principais factores de preocupação para as nações ocidentais

Mas o aspecto mais importante é que, se é certo que Ben Ali era considerado um aliado do Ocidente na região, o seu governo não tem o peso geoestratégico de que se reveste o regime do Egipto, para os interesses de Washington e dos seus aliados. Na verdade, a partir da assinatura dos acordos de Camp David, em 1979 – com os quais se pôs fim ao conflito com Israel – e sob os regimes de Anwar al Sadat e o do próprio Hosni Mubarak, o Cairo elevou-se à posição do segundo maior beneficiário de ajuda externa estadunidense, com uma média de 2 mil milhões de dólares anuais em assistência económica e, sobretudo, militar, apenas ultrapassado por Telavive. A posição do Egipto como aliado privilegiado dos Estados Unidos na região continuou com a administração de Barack Obama que, inclusive, elegeu este país para pronunciar, no início da sua administração, o célebre discurso de aproximação ao mundo muçulmano, eventualmente sem ter em conta que regime do Cairo gravitou como contra-peso para a desarticulação dos afãs de unidade que floresceram há meio século entre os governos Árabes, e que colaborou com Telavive no férreo bloqueio que esse governo mantém na martirizada Faixa de Gaza.

Ontem mesmo, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, deu uma nova prova da dupla moral característica de Washington, ao afirmar que é sua impressão que o governo egípcio é estável. No entanto, perante revoltas como as ocorridas em Tunísia e no Egipto, a lição inexorável para as diplomacias ocidentais, a estadunidense em primeiro lugar, é que devem rever profundamente e corrigir a prática diplomática de apoiar regimes tirânicos, a troco de um alinhamento com os seus interesses geopolíticos: se essa fórmula imoral foi num determinado momento conveniente para Washington e os seus aliados, é hoje claro que ela é insustentável e contraproducente, e que obstaculiza as perspectivas de democratização pacífica não só do Magrebe e no norte de África, mas em todo o mundo.


Este editorial foi publicado no diário mexicano La Jornada, no dia 26 de Janeiro de 2011.

Tradução de José Paulo Gascão

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos