Eis chegado o belo mês de Maio

Rémy Herrera    07.May.18    Colaboradores

As manifestações do 1º de Maio realizaram-se em toda a França, com mais de 200 mil participantes.
A manifestação de Paris, onde teria grande expressão a luta dos ferroviários e da administração pública, foi objecto de uma violenta provocação por parte de vândalos encapuzados, que a polícia deixou actuar. É uma lição de toda a história do movimento operário: entre os meios que o inimigo de classe mobiliza estão também grupelhos violentos que fingem agir em nome dos trabalhadores, mas cuja acção resulta sempre em prejuízo e em maior repressão das suas lutas.

No 1º de Maio, em França como em toda a parte do mundo, a jornada internacional de solidariedade dos trabalhadores celebra-se de forma especial: em festa e com reivindicação. Em geral, vem-se em família ao desfile, encontram-se amigos e camaradas, conversa-se, trocam-se novidades, mobilizamo-nos, cantamos, fazemos o pleno de esperanças e motivações, rimos, vivemos. Todos em conjunto. Em Paris, contudo, este 1º de Maio decorreu de forma diferente. Enquanto mais de 210 000 pessoas desfilavam pacificamente em todo o território francês, a manifestação parisiense, iniciada na praça da Bastilha, degenerou.
Tendo-se posicionado à cabeça do cortejo e tendo surpreendentemente escapado aos controlos policiais, cerca de 1 200 indivíduos encapuzados, vestidos de negro (depois de em alguns casos se terem disfarçado com coletes sindicais), armados com barras de ferro, martelos, pedras arrancadas da calçada, desencadearam uma vaga de violência sob os olhos das forças da ordem, que durante largo tempo permaneceram passivas. Apenas passada a ponte de Austerlitz, grupos dispostos a partir tudo («black blocs»), que todavia eram facilmente identificáveis, lançaram-se ao assalto de um McDonalds, de lojas, de mobiliário urbano…os canais informativos de televisão – todos eles propriedade da oligarquia dominante – regalaram-se. Foi um espectáculo!
O prefeito da polícia exigiu que a manifestação dispersasse, o que foi recusado pelas organizações sindicais. O cortejo foi então desviado, e desse modo foi impedida a anunciada junção entre ferroviários e trabalhadores da função pública! Foi apenas quando o pacifico cortejo dos trabalhadores chegou, bem depois de os «black blocs» terem concluído o seu serviço, que a polícia de choque bloqueou o desfile – colocando em perigo os seus pacíficos participantes – e começou a confrontar e a interpelar os vândalos, colocando uma centena deles sob vigilância directa.
No fim de contas, o objectivo estava alcançado: as imagens de guerrilha urbana eram difundidas e as reivindicações de dezenas de milhares de manifestantes eram eclipsadas! Na noite deste (organizadamente?) caótico 1º de Maio, os sindicalistas convidados nos estúdios de televisão manifestavam, com toda a razão, a sua cólera por terem visto a festa dos trabalhadores confiscada – e alguns deles terem sido agredidos pela polícia quando defilavam tranquilamente… Mais revelador ainda: um dos responsáveis do sindicato nacional da polícia (que nada tem de progressista) queixava-se das «instruções» recebidas pela polícia de choque no sentido de não intervir, «de deixar partir para que a coisa seja bem visível» frente às câmaras de televisão.
É inteiramente evidente que estes vândalos foram aliados objectivos do poder nesta situação. De um poder de Estado capitalista que dizem combater, e que empreende pela sua parte a vanadalização dos serviços públicos. A quem favorecem estes actos? Tratava-se de uma jornada insurreccional, de barricadas? Sejamos sérios. A consequência destes actos é tornar inaudível o combate contra a oligarquia e o poder ao serviços dos ricos, é assimilar manifestantes e vândalos, é desacreditar a resistência dos trabalhadores, é introduzir a confusão nos esforços há meses empreendidos para construir a convergência das lutas, de pôr em risco o próprio direito de manifestação, de ver reforçados os apelso ao restabelecimento da ordem – portanto à suspensão das greves e dos movimentos de mobilização pela defesa dos direitos do trabalho.
Vândalos e poder são aqui solidários! A manipulação é grosseira! Tão grosseira como a hipocrisia do presidente Macron – em viagem para os antípodas, em Sydney, este 1º de Maio! – que envia a polícia para os campus universitários ocupados para calar os estudantes contestatários, mas que há poucos dias convidava a jovem audiência da George Washington University a «decidir por si própria»: « Let’s disrupt the system together (…) Don’t believe those who say that’s the rule of the game, don’t question the rules of the game, it’s always been like that, you have to follow these rules. That’s bullshit ! ». [«desfaçamos em conjunto o sistema (…) Não acreditem nos que afirmam que o jogo tem regras, que as regras do jogo não devem ser postas em questão, que sempre foi assim, que tendes de cumprir essas regras. Isso são disparates!»]. Ou que em meados de Março, em Deli, aconselhava os jovens indianos: «Just do it. (…) One last advice: never respect the rules» [«Façam-no (…) Um último conselho: nunca respeitem as regras»]. De onde vem então a provocação?
Não nos deixemos intimidar! Prossigamos a luta! Contra as imposições do patronato de um governo às suas ordens, o desmantelamento dos serviços públicos e a destruição do direito do trabalho. Pelo progresso social, uma vida digna, apaz e a solidariedade internacional: «Não largamos nada da mão», com se diz em França. Até à convergência…

Manifestações do 1º de Maio em França

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