El Salvador: A antiga direita e a nova direita

“Ainda que timidamente a antiga direita gosta de chamar esquerda à nova direita, e esta nova direita gosta de chamar esquerda a si-própria. E deste jogo perigoso de palavras aparece uma confusão política nas cabeças, na alma e nos corações de não poucas pessoas no nosso país. Por isso é necessário situar historicamente esta nova direita.»
Embora estas palavras não tenham sido escritas sobre o nosso país, ilustram na perfeição como as condições particulares de cada país não são afinal tão particulares como por vezes se quer fazer crer.

Esta crise rompeu com os fundamentos do sistema político e as lógicas do regime. Pôs a nu, quase eroticamente, as contradições essenciais que movem o país.

Trata-se do esgotamento do neoliberalismo, aplicado a regra e esquadro desde que a guerra terminou e depois de ter terminado também o acordo político chamado FMLN. O Estado de então, no princípio da década de noventa, criou um novo partido que usou o nome da antiga e desaparecida guerrilha: FMLN, fortaleceu o regime dos partidos políticos e revigorou o regime político, que pôde assim aparecer como um regime democrático, onde até a guerrilha comunista participava como partido, tinha alcaides e deputados.

A direita fez uma das suas mais felizes manobras, apesar de nunca ter entendido que os acordos de paz não ameaçavam as suas posições e que os recém-incorporados no jogo da democracia como jogo, tampouco eram uma ameaça.

Passaram mais de duas décadas nas quais o capitalismo proletário apresentou algumas fendas, a economia estadunidense, desmoronou-se, a União Europeia fez-se em pedaços e o poder da Rússia, China, Irão, Brasil, Índia, África do Sul constrói um novo polo económico, militar, ideológico e político no planeta; ao mesmo tempo, na América Latina abrem-se processos enovelados como os da Venezuela, Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai e Equador que, com diferentes tons e enfases anunciam e apresentam caminhos independentes do dos Estados Unidos.

Enquanto tudo isto acontece, no nosso país a antiga oligarquia perde o controlo da economia e depois perde o controlo do aparelho de Estado, tudo em diferentes momentos e circunstâncias. O recém-chegado ao jogo é absorvido pela lógica económica capitalista, pela filosofia neoliberal e pela lógica da antiga direita oligárquica.

Trata-se de um processo que começa por larvar-se a partir da condição de classe da cúpula do partido FMLN. Passa pela natureza política da antiga guerrilha, e culmina numa decisão de se constituir numa espécie de relevo histórico no controlo do aparelho de Estado, sem construir nem um novo Estado, nem uma nova economia, nem uma nova filosofia política, nem novas estruturas de poder.

Tudo isto significa que o longo processo de um pós-guerra não aceite produziu uma nova direita que neste momento, 2014, enfrenta a antiga direita na disputa definitiva pelo controlo do aparelho de Estado.

Nesta altura, esta nova direita tem suficiente poder económico para perturbar, ameaçar e descontrolar um sector da economia nacional tradicional do país; todavia, não enfrenta o pequeno casulo burguês oligárquico integrado por Ricardo Poma, os Kriete, os Simán [os mais ricos de El Salvador] que, sendo donos do partido ARENA têm os seus próprios cenários económicos e políticos para além do mundo partidário, e podem negociar determinadas circunstâncias com a burguesia emergente de Alba Petróleos [os ex-comandantes da FMLN].

Postas assim as coisas, há que dar conta que o que está em jogo nas urnas não tem que ver com a classe do país, nem a classe da sociedade, nem do poder, nem da política. Trata-se apenas de saber quem serão os sócios das empresas transnacionais que controlam os mercados e, a partir daqui, quais serão os usufrutuários dos lucros desses negócios.

Esta circunstância explica a natureza da campanha eleitoral, o predomínio total do mercado e a ausência de políticas contrastantes. É que se trata de um só projecto – o do mercado –, e de uma só disputa, que é a dos que dirigem, a partir do aparelho de Estado, os negócios a implantar com o projecto de parcerias [sic] público-privados e outros que aí virão

Direita e esquerda

O tema ainda se torna mais complexo porque ainda que timidamente a antiga direita gosta de chamar esquerda à nova direita, e esta nova direita gosta de chamar esquerda a si-própria. E deste jogo perigoso de palavras aparece uma confusão política nas cabeças, na alma e nos corações de não poucas pessoas no nosso país. Por isso é necessário situar historicamente esta nova direita.

Estamos perante um processo onde uma força guerrilheira é classificada como comunista pelo governo estadunidense, e este qualificativo – errado – traslada-se ao novo partido que no final da guerra se incorporou no regime político com o nome que tinha na guerrilha. Este foi um recurso eleitoral muito hábil e necessário porque, assim, os eleitores identificavam o novo partido com o heroísmo, a inteligência, a imaginação e a audácia da guerrilha que fez a maior proeza da nossa história. E estes votantes não estiveram em condições de marcar a distância de uma série de decisões políticas que marcaram e determinaram a natureza e a conduta política do novo actor do regime.

Em primeiro lugar, este novo partido rompe com todos os seus vínculos com o movimento social, e fá-lo em nome da independência deste movimento – quando na realidade se tratou romper todo o compromisso com as lutas reais das pessoas reais. E em seguida adopta e adapta-se á filosofia do mercado, e desta maneira, os conceitos fundamentais como o crescimento económico, a macroeconomia, o desenvolvimento passam a substituir no cérebro conceitos como a luta de classes, as contradições e os interesses dominantes.

O novo partido renuncia a ser sujeito político e converte-se num actor político, leal ao sistema e á ordem estabelecida. Já não se trata de substituir o sistema ou o regime por uma nova ordem, mas de trabalhar para o fortalecimento da ordem actuante, e em todo o caso converter-se nos novos gerentes dessa mesma ordem.

Naturalmente que a disputa deixa de estar situada no terreno propriamente político e económico e passa a situar-se na luta pelo controlo do aparelho e pelo seu usufruto. Como se pode ver, neste processo vai-se definindo um relevo histórico que não supõe nem uma nova política, nem uma nova maneira de fazer política, nem uma nova ordem, mas sim de um novo dono do aparelho do Estado, um novo gerente e um novo sócio.

Postas assim as coisas, não se trata da confrontação histórica entre uma direita e uma esquerda subversiva, democrática e revolucionária. O confronto aparece entre uma nova direita que adopta a filosofia, a política praticada pela antiga direita e a resistência desta em ser substituída no próprio terreno que antes dominou e controlou.

A direita não ganhou a guerra mas ganhou o pós-guerra

O processo que descrevemos significa que se a direita não ganhou a guerra de 20 anos, pôde ganhar, no entanto, o pós-guerra de mais de 20 anos. Mas não se dá conta do que aconteceu na sua casa e não aceita, pelo menos por agora, partilhar os negócios, nem entregar o lucrativo aparelho de Estado, nem as novas regras do mesmo jogo.

Naturalmente que este jogo realiza-se no meio de uma elevada ebulição social e também ideológica, porque o Estado de El Salvador, o magro Estado que temos conhecido encontra-se praticamente desaparecido, e é o mercado que lhe fixa os jogos e as regras, e os seres humanos chamados cidadãos surgem totalmente abandonados à sua sorte.

Quando um Estado e uma classe dominante não são capazes de assegurar minimamente o mais pequeno nível de vida dos seus súbditos, então estamos num momento de soçobro que pode transformar-se em vários momentos de rebelião.

Ganhe quem ganhar no próximo mês de Fevereiro, será este povo que agora permanece adormecido quem com o seu despertar terá neste drama a última palavra.

* Dagoberto Gutiérrez integrou a FMLN pela Juventude Comunista e pelo Partido Comunista Salvadorenho, sendo hoje dirigente da Tendência Revolucionária.

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Tradução de José Paulo Gascão

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