El Salvador: De fantasmas a pactos de nação e vice-versa

Joel Arriola    21.Abr.14    Outros autores

A situação política pós-eleitoral em El Salvador é equívoca. Sob a designação de “pacto de nação” é aberta a porta a que os sectores oligárquicos mais retrógrados mantenham o seu poder e participem de forma determinante na “governabilidade” do país.

‘Um fantasma percorre El Salvador: o Fantasma do Alba’ [grupo de empresas mistas entre a Venezuela e municípios da FMLN], disseram os apologistas da FMLN, tratando de trazer da tumba o velho Marx. Como se este não se encontrasse já nas lutas e processos de reorganização gremial e política (ainda dispersos) da classe trabalhadora e do movimento popular.

Esqueceram entretanto os nossos queridos apologistas, a consequência necessária de tal afirmação: “Contra este fantasma conjuraram-se em Santa Aliança todas as potências…”, e naturalmente alguns terão ficado deslumbrados, por ocasião do processo eleitoral, quando o seu fantasma embate na espantosa muralha do chamado “pacto de nação”, tão gabado pelos máximos dirigentes da FMLN e pelos próprios Presidente e Vice-presidente eleitos: Um pacto da “esquerda” com os sectores oligárquicos mais retrógrados do país.

Outros dos nossos apologistas não terão podido fazer mais do que ajoelhar-se ante o possibilismo: “Não se pode fazer mais nada”, dizem; para governar há que negociar, ganhámos com uma margem muito reduzida; a “sociedade” exige que se pare a polarização, há que avançar nas mudanças na medida do possível… etc.

A Santa Aliança desmorona-se subitamente, enquanto os fantasmas voam pelo “buraco da fechadura”. Nas cabeças dos nossos “letrados” apologistas não resta mais do que o ALBA e a FMLN sem mais, sem fantasmas nem alianças, não restam mais do que amigos. Desapareceram a ANEP [associação de empresários] e os oligarcas, o G20 e o partido ARENA… Agora todos vamos negociar o “pacto de nação”.

¿Que significa este “pacto de nação”?

Para além das respostas vulgares dos nossos apologistas da FMLN, o que devemos procurar no âmago deste pacto não é a suposta governabilidade democrática ou uma inexorável reconciliação da história (a quarta lei da dialéctica – hegeliana -, como quiseram fazer-nos crer um ou outro desses apologistas: Ricardo Ribera, etc.), mas o desenvolvimento político de uma luta entre facções de classe.
Uma luta que nunca foi determinada, mas sim temerosa, que nunca se ergueu em toda a sua potência mas sim que se pôs a lacrimejar em nome da democracia, tentando parir um pacto de nação que permita, não ferir de morte os velhos oligarcas, mas negociar uma nova forma de relação com eles. Uma luta tímida, medrosa, empreendida por uma facção da classe burguesa [a de “esquerda”] que se espanta ao deparar com as tarefas de que está incumbida.

E tal como a burguesia alemã de 1848 não realizava senão a caricatura do que meio século antes a burguesia francesa fizera, assim esta facção burguesa da FMLN (com um capital de pelo menos $800 milhões e uma rede de empresas), não faz mais do que cair rendida ante a sua própria missão.

Como facção burguesa renuncia ao enfrentamento final com o seu inimigo corporativo: a burguesia oligárquica, para passar a oferecer-lhe um pacto, disfarçado de pacto de nação: uma trégua. Tal como a burguesia Italiana setentrional traiu o movimento camponês meridional abandonando-o à sorte dos grandes latifundiários semi-feudais, assim a cúpula burguesa da FMLN renuncia à sua tarefa de enfrentar até à morte a burguesia oligarquia. Abandona o seu mais natural aliado: o campesinato, para estender a mão aos Poma, Callejas, Murray Meza, Regalado… [os donos de El Salvador] etc.

Mas há outros; estão os nossos amigos não apologistas da FMLN, mas que não deixam de ficar boquiabertos perante os apelos da cúpula “farabundista” a uma negociação, a um pacto. Estes amigos desembaraçam-se das armas teóricas do marxismo para se refugiarem em qualquer outra filosofia pós-moderna, pós-marxista… ou o que seja.

São sem dúvida tempos de loucura, como diria Menjívar Ochoa (ou talvez não, já não estamos seguros). Tempos de crise ideológica. Todavia não será senão destes tempos que brotarão de novo, violentamente, rompendo a ordem burguesa, as lutas pela emancipação total da humanidade, a lucha pelo socialismo e com este pelo comunismo.

Alardeais da vossa estabilidade, da vossa paz, da vossa ordem; ¡esbirros estúpidos! diremos, juntamente com Rosa Luxemburgo: “a vossa ordem está edificada sobre areia. Amanhã a revolução já ’se elevará de novo com estrondo em direcção ao alto’ e proclamará, para terror vosso, entre o som de trombetas: ¡Fui, sou e serei!”. Não serão fantasmas nem pactos de nação mas o punho da classe trabalhadora e o movimento popular quem golpeará com toda a força as cadeias da vossa ordem burguesa.

La Haine

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