Electrochoques*

Filipe Diniz    28.Nov.15    Colaboradores

O embaixador dos EUA achou-se na obrigação de manifestar “preocupação” face à evolução do quadro político nacional. Juntou a voz da ingerência imperialista à dos outros reaccionários, nacionais e estrangeiros, que se têm pronunciado. Para os EUA, o lugar de Portugal deve continuar a ser o que Durão Barroso assumiu nos Açores: mais do que de peão, o lugar de lacaio. Mas o povo português não está para aí virado.

Portugal, como muitos outros países, tem uma instrutiva experiência do que significa a diplomacia dos EUA: ingerência sempre, conspiração quando necessário.

Conforme as prioridades de tal diplomacia, também o tipo de embaixador varia. A embaixada de Lisboa manteve uma tranquila convivência com o regime fascista. O embaixador MacVeagh – um teórico da “ameaça soviética” – foi instrumental na integração do Portugal de Salazar na NATO. Apanhados de surpresa, ao que se diz, pelo 25 de Abril, correram o inadvertido embaixador e enviaram o operacional Carlucci, cujo rasto passa por toda a acção contra-revolucionária, da conspiração política às redes bombistas. Instalada uma correlação de forças favorável ao grande capital, ao “atlantismo” e à Europa dos monopólios, o nível do embaixador voltou ao antigo padrão: embaixadores oriundos do mundo dos negócios ou embaixadores que devem o cargo sobretudo às vultuosas quantias com que contribuíram para as campanhas dos partidos no poder. É o caso do actual, Robert Sherman.

Incomodado com a derrota do governo PSD/CDS, achou-se no direito de manifestar “preocupação” face ao que chama “aliança” (que só existe na sua cabeça) entre o PS e o PCP e o BE, que são «anti-NATO e contra o tipo de compromissos que os Estados Unidos consideram que devem ser implementados (sic)».

A arrogante afirmação é intolerável no plano diplomático. Mas o currículo pessoal do embaixador dos EUA aconselharia ainda cautelas acrescidas no que diz. O sr. Sherman está ligado a um chocante processo judicial envolvendo crianças deficientes profundas que frequentavam o Behaviour Research Institute. Essa instituição recorria a “terapias” com electrochoques e privação de comida tanto para “tratamento” como para punição de mau comportamento. O Estado de Massachusetts ordenou à instituição que terminasse com tais práticas. Alguns pais processaram o Estado, exigindo que os seus filhos continuassem a ser objecto de tratamento “como deve ser”. E o seu advogado foi o sr. Sherman.

Não se sabe se vem daí alguma concepção diplomática do sr. embaixador. Mas o povo português não está disponível para ser tratado com electrochoques.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2191, 26.11.2015

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