Em viagem

Correia da Fonseca    06.Abr.12    Colaboradores

Bento XVI está muito ralado e aplica-se a dar uns conselhos, porque Cuba está a seguir «uma ideologia do passado». Perante esta mescla de alarme e lamento, um desprevenido poderia supor que Raul Castro decidira que Cuba regressasse à «ideologia» que até 1959 transformou a ilha num casino e num prostíbulo privado dos Estados Unidos. Mas não: a aflição de Bento tem tudo a ver com o marxismo, o comunismo, com uma sociedade que teima em garantir aos cidadãos a garantia da satisfação de necessidades básicas, desde a saúde à instrução.

1. A televisão informa-me de que Bento XVI está em viagem. Não é surpreendente: é bem sabido que desde o pontificado de João Paulo II, homem de muitas iniciativas e grandes navegações aéreas, se tornou normal esta espécie de turismo apostólico que se presume ser capaz de resultar na multiplicação dos crentes, um pouco no prolongamento do que há dois mil anos aconteceu com a multiplicação dos pães pela mão de Jesus. É certo que estas viagens são por vezes feridas por inconveniências que aliás bem se compreendem, pois é claro que por enormes que sejam as sabedorias e as virtudes de todos os sucessores de Pedro nunca poderão igualar os predicados verdadeiramente transcendentes do Mestre. Lembramo-nos, por exemplo, de uns desacertos de expressão cometidos por este mesmo Bento XVI quando de uma sua viagem pelas Áfricas e acerca do uso do preservativo, essa invenção diabólica que permite a relação sexual, e por consequência o prazer, sem o risco da procriação. Sabe-se que desde há muitos séculos, se não desde sempre, a Santa Madre é contra o prazer em geral, que afasta as gentes da reflexão e obstaculiza a purificação da alma, e mais ainda contra o prazer sexual, aliás pouco democrático porque interdito à classe profissional dos sacerdotes. De onde a assumida aversão pelo preservativo. É certo que atreladas ao seu uso ou não uso estão duas questões importantes: o risco da propalação da SIDA e a explosão demográfica. Mas há que compreender Bento quando ele deposita a solução desses problemas na atenção e misericórdia dos Céus. Quanto à SIDA, é de crer que os falecidos terão lugar no Paraíso desde que não tenham pecado. E no que respeita à sobrepopulação mundial, confie-se que quando num imaginário limite os humanos fossem tantos que, de tão apertados à superfície da Terra, já com dificuldade encontrassem espaço para se deitarem, Alguém faria com que miraculosamente sempre coubesse mais um. Mas, de qualquer modo, esta hipótese é além de absurda de todo improvável, pois sempre aí estará, ao longo do tempo, o Poder Militar Norte-americano para desbastar os excessos de população sobretudo nas regiões onde haja petróleo.

2. Está, pois, Bento XVI de novo em viagem, e a televisão tem-nos dado notícia dessa iniciativa. O Papa visitou o México, onde terá deparado com alguns protestos contra o excessivo amor pelas crianças que sacerdotes católicos têm vindo a demonstrar e que, segundo a mesma televisão, não encontraram no Vaticano a denúncia e a condenação que vozes exigentes julgam indispensável. Bento XVI dispensará ao caso, decerto, a atenção que julgue adequada, mas é de crer que de momento esteja mais preocupado com outro problema: Cuba. Não apenas porque em Cuba vivem muitos pecadores, sendo bem provável que boa parte deles recorra regularmente ao reprovado preservativo, mas também e principalmente por uma outra razão que, pelos vistos, aflige o pontifício coração: Cuba vai por mau caminho. Por mim, soube inicialmente da angústia papal pelas páginas de um diário do Norte, o «Jornal de Notícias», e, francamente, fiquei na dúvida, mas depois disso chegou a TV a confirmar a informação: Bento está muito ralado e, mais, aplica-se a dar uns conselhos, porque Cuba está a seguir «uma ideologia do passado». Perante esta mescla de alarme e lamento, um desprevenido poderia supor que Raul Castro decidira que Cuba regressasse à «ideologia» que até 1959 transformou a ilha num casino e num prostíbulo privado dos Estados Unidos. Mas não: a aflição de Bento tem tudo a ver com o marxismo, o comunismo, com uma sociedade que teima em garantir aos cidadãos a garantia da satisfação de necessidades básicas, desde a saúde à instrução. Que é, enfim, um péssimo exemplo. E Bento rala-se tanto que, pelos vistos, não hesita em transformar a sua viagem apostólica em cruzada política. Desobedece mesmo ao próprio Jesus: recusa-se a conceder a César o que é de César e situa-se em aberta aliança com fariseus da pior espécie. Não será por isso condenado ao Inferno, a cuja existência já um seu antecessor retirou, creio, o reconhecimento oficial. Mas as suas palavras têm um som de guerra que contrastam com a brancura do seu trajo. Receio que um dia destes me surpreenda a imaginá-lo de negro e calçando botas militares.

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