Empate técnico*

Filipe Diniz    27.Jun.15    Colaboradores

A campanha para confinar a escolha eleitoral aos partidos da política de direita – PSD/CDS e PS – está em marcha e vai intensificar-se todos os dias. Já é quase rotina. As sondagens vão desempenhando o papel que lhes cabe nessa engrenagem. Mas uma leitura das propostas eleitorais desses partidos bastaria para desmontar tal manobra. Em todos os aspectos fundamentais – UE, economia, educação, sistema político – a matriz é a mesma. E os resultados são bem conhecidos.

Não, este texto não é sobre actual fase da estratégia das sondagens. Só aproveita a boleia.
Os documentos eleitorais até agora publicados pelo PS (“Programa eleitoral”) e PSD (“Linhas de orientação geral para a elaboração do programa eleitoral”) permitem constatar que continua a verificar-se um empate técnico entre os dois partidos que, com o CDS alternadamente atrelado, são os responsáveis pela política de direita no nosso país. Empate técnico na demagogia; na tentativa mútua de atribuir responsabilidades; na memória curta, que ambos esperam que os portugueses também tenham.
São textos de passa-culpas em alguns casos verdadeiramente surreais. O PS acusa o governo PSD/CDS de ter ido “muito além” do que era a agressão contra os trabalhadores e o povo contida no memorando da troika (que os três subscreveram). O PSD diz (p. 23) que “cumpriu sem falhas os compromissos que outros tinham assumido, o que condicionou largamente os rumos da governação, e não permitiu que concretizasse as suas ideias e projectos”, ou seja, que PSD e CDS governaram segundo “as ideias e projectos” do PS o que, em geral, nem será completamente mentira.
Do mesmo modo que não diferem na desfaçatez. É de um lado o PS defendendo que não se esbanjem dinheiros públicos na “sistemática utilização de consultorias externas”, é do outro o PSD defendendo um Estado de Direito “exclusivamente orientado pela defesa do interesse público”, que “não transija com a corrupção e o compadrio”. É o PSD defendendo “soluções que incrementem a participação cívica e a proximidade entre eleitores e eleitos”, e é o PS defendendo “círculos uninominais, personalização dos mandatos e da responsabilização dos eleitos” «sem qualquer prejuízo do pluralismo».
Mais uma vez avança a engrenagem da falsa disputa entre PS e PSD/CDS. Mas se há coisa que o povo português deve comparar não é o que cada um deles agora promete. É o que cada um promete e o que fez quando esteve no governo, na longa e insuportável trajectória de quase quatro décadas de política de direita.
Não faltarão sondagens até às eleições. Até ao momento a única que é indesmentível é a da Marcha de 6 de Junho. É a única que sondou verdadeiramente a força do povo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2169, 25.06.2015

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