Entre as duas mandíbulas do torno da extrema-direita

Rémy Herrera    27.Dic.18    Colaboradores

Realizou-se a 22 de Dezembro o «Acto VI» na luta dos coletes amarelos em França. Para além de particularidades que são sinal não só de organização, mas de uma organização capaz de iludir os serviços de informações, verifica-se com crescente clareza que, em vez de responder a reivindicações que Macron reconheceu já serem legítimas, a opção do poder é a da intensificação da acção de um aparelho repressivo de Estado onde a extrema-direita tem uma muito forte presença.

A quem ouvisse os representantes dos sindicatos de polícias à saída do ministério do Interior na noite de 19 de Dezembro, pareceria que «as negociações tinham sido difíceis, muito difíceis». Fica portanto a saber-se que apenas algumas horas depois disso terão sido suficientes para que tenham obtido «os mais fortes avanços salariais» na profissão desde há 20 anos. Dois dias passados sobre o «Acto V dos coletes amarelos», a 17, várias organizações sindicais da polícia nacional tinham anunciado a sua intenção de proceder a uma jornada de «comissariados fechados» na quarta-feira 19 – uma vez que o direito à greve lhes é interdito. Christophe Castaner teve de largar lastro: as remunerações dos polícias são aumentadas em 120 euros para os jovens no início da carreira e em 15º para os mais antigos; é mais do que obtiveram os seus colegas da função pública – ou seja, absolutamente nada (quando das negociações de 20 de Dezembro) – ou os coletes amarelos – quase nada (dez dias antes).

Para quem não saiba quem é Christophe Castaner, recordemos que é o actual ministro do Interior do governo remodelado em Outubro passado pelo presidente da República no seguimento da inopinada demissão do seu predecessor. Antes disso, ocupou sucessivamente as funções de secretário de Estado encarregado das Relações com o Parlamento e de porta-voz do governo de Édouard Philippe.

Para os que não sabem quem é Christophe Castaner, recordemos que é o actual ministro do Interior do governo remodelado em Outubro passado pelo presidente da República no seguimento da demissão inopinada do seu predecessor. Antes disso, ocupou sucessivamente as funções de secretário de Estado encarregue das relações com o Parlamento e de porta-voz do governo de Édouard Philippe. E antes disso? Foi chefe do partido presidencial La République en marche (a partir de Novembro de 2017, porta-voz de Emmauel Macron durante a sua campanha presidencial (em 2017) e…membro do Partido socialista (a partir de 1986). E ainda antes? Na sua juventude, Christophe Castaner foi jogador de póquer em salas de jogo clandestinas e protegido de um dos padrinhos da máfia marselhesa, alcunhado o «Grand Blond», chefe de um bando de ladrões abatido com balas de 9 mm num ajuste de contas em 2008…Procurem simplesmente em “Wikipédia”, e depois se necessário em «tradução google» para se informarem. Tudo isto apenas com o objectivo de avaliar a que nível se situam hoje em dia os nossos governantes.

É verdade que há anos que os polícias se queixam de más condições de trabalho e de remuneração. Já para não falar dos 24 milhões de horas extraordinárias que o Estado continua a não lhes pagar, ou das despesas da caixa dos acidentes de trabalho que a Segurança social tarda em reembolsar quando sucede serem feridos…A trituradora neoliberal afecta igualmente as forças da ordem. Em múltiplas ocasiões, na televisão ou na internet, polícias não identificados têm dado testemunho do seu cansaço, e para alguns do seu mal-estar face às directivas dos seus superiores (políticos) exigindo deles um endurecimento da repressão dirigida contra os coletes amarelos ou, antes, dos estudantes contestatários, dos ocupantes de «Zonas a interditar» (ZAD), dos militantes ecologistas ou dos manifestantes que se opõem à flexibilização do mercado de trabalho. As línguas desatam-se: «São os nossos amigos, nossos irmãos, parentes, crianças que nos ordenam reprimir» ouve-se da boca de polícias…

O ponto de viragem é claramente identificável: é o estado de urgência, decretado sobre todo o território nacional em Novembro de 2015 depois dos atentados terroristas que atingiram o país, que desencadeou uma aterrorizante espiral repressiva. Foi sob as pressões e ameaças dessa extrema-direita que é o Islão político desde a Al-quaeda ao Daesh que ele foi imposto ao povo francês. E foi renovado cinco vezes consecutivas. Primeira mandíbula do torno. É cero que o estado de urgência foi levantado em 2017, mas o facto é que o essencial das disposições excepcionais que ele previa passaram a ter força de lei: rusgas, interpelações preventivas, perímetros de protecção, detenções domiciliárias individuais, controlos de fronteira são de agora em diante autorizadas no quadro da lei «reforçando a segurança interna e a luta contra o terrorismo» de 30 de Outubro de 2017. Daí o desvio desse arsenal jurídico de excepção no sentido de fazer regredir as liberdades públicas em França. A ponto de nos dias de hoje os direitos de se manifestar e de exprimir as suas opiniões estarem em perigo.

Todos os que participaram recentemente em manifestações no país sabem aquilo que as organizações de defesa dos direitos do Homem, e mesmo os polícias como já dissemos, e também jornalistas quando acontece serem espancados, há meses denunciavam: muitas das intervenções das forças da ordem são desproporcionadas e excessivamente violentas. Disparos de balas de borracha à altura da cabeça, utilização frequente de granadas ensurdecedoras ou de confinamento, utilização sistemática de gases lacrimogéneos e de canhões de água contra que protesta, prática do envolvimento de grupos impedindo-os de se juntar a outros manifestantes, interpelações arbitrárias, confiscação de material médico dos «street medics» (voluntários que acompanham os percursos para tratar de feridos), intimidações, provocações gratuitas, por vezes insultos, detenção de menores…Tudo factos que chocam e inquietam os Franceses. Mas é precisamente isso que é pretendido. Para que cesse a sua revolta.

A partir dos primeiros dias da mobilização dos coletes amarelos, circulou o rumor de que eles eram manipulados pelo Rassemblement national, que se trava de um «golpe de força» teleguiado pelo partido de extrema-direita de Marine Le Pen – segunda mandíbula do torno. É essa efectivamente a linha d argumentação do ministro do Interior. «Provas»? Algumas frases xenófobas apanhadas aqui ou ali entre os manifestantes. Entre várias centenas de milhares de coletes amarelos, teria sido miraculoso não se encontrar entre eles alguns abrutalhados racistas. Daí a extrapolar, é um passo que o sr. Castaner adianta alegremente. É astucioso. Desse modo ele tenta 1) descredibilizar o conjunto dos coletes amarelos; 2) manter fora da rebelião actual os jovens suburbanos, onde é importante o peso de pessoas oriundas da imigração; e 3) confecionar para Emmanuel Macron uma imagem fictícia de baluarte contra o «fascismo».

A extrema-direita falhou até ao momento na recuperação da liderança da mobilização – e isso pela razão fundamental de que, na sua imensa maioria, o povo francês não é racista. Ora o que tem vindo a desenhar-se, discretamente, é um deslizamento do poder no sentido da extrema-direita. Sondagens indicam que mais de metade dos polícias e dos militares teriam simpatia ou votariam pelo Rassemblement national. A extrema-direita está no próprio cerne do aparelho repressivo de Estado. Aliás, ela revelou-se de novo há alguns dias numa carta-aberta anti-imigrantes subscrita por um ex-ministro da Defesa e por uma dezena de oficiais superiores das forças armadas denunciando não apenas o «pacto mundial para as migrações» adoptado sob a égide da ONU na cimeira de Marraquexe mas também «o Islão enquanto ameaça para a França».

Os cadernos reivindicativos dos coletes amarelos reclamam explicitamente que «os que pedem asilo sejam bem tratados […] devemos-lhes alojamento, segurança, alimentação, bem como educação para os menores». Sejamos portanto bem claros. Não são os coletes amarelos que são xenófobos e racistas, mas componentes cada vez mais amplas das elites francesas. Elites que não hesitarão um instante, quando chegar o pós-Macron, em confiar o poder à extrema-direita se tal se revelar necessário. Ou seja, se a sua odiosamente iníqua ordem capitalista estivesse verdadeiramente ameaçada; se o povo francês, sedento de justiça, com o coração cheio de esperanças reencontradas, proclamando a alegria de ter de novo ganho a sua dignidade, reunido na revolta e consciente da sua força, conseguisse levantar-se e tornar-se senhor de um destino colectivo solidário e progressista.

Servilmente curvado aos pés dos milionários, o presidente Macron optou por não dar resposta às expectativas profundas dos franceses, e mesmo de enveredar cada dia mais pela via da repressão. Esta «estratégia do apodrecimento» faz o jogo do Rassemblement national. Porque apesar das suas diferenças encenadas pelo media – que são diferenças de grau, não de natureza – não existe realmente descontinuidade entre a direita da alta finança, que Emmanuel Macron serve, e a extrema-direita da burguesia reaccionária de Marine Le Pen; um terrível e dramático continuum político une-os na defesa de um capitalismo agonizante. Um afirma-o neoliberal-globalizado, outro obscurantista-nacionalista, mas ambos o querem. Para além dos ódios pessoais recíprocos, interesses comuns de classe saberão em breve aproximá-los para se esforçarem para salvar o seu sistema. A todo o custo. O povo deverá encontrar em si próprio a energia para alargar as suas lutas a fim de conseguir libertar-se do mortífero torno em que o encerram as mandíbulas do monstro bicéfalo da extrema-direita: de um lado o islão político terrorista e retrógrado, do outro o chauvinismo burguês egoísta e racista. É aí que o perigo se encontra.

Entretanto, no sábado 22 de Dezembro, para o «Acto VI» da sua mobilização, os coletes amarelos puseram à prova e eficácia dos serviços de informações. Vigiados de muito perto pelos olhos o ministério do Interior, as suas redes sociais faziam apelo a uma concentração – quão simbólica – frente às vedações do castelo de Versalhes. O prefeito apressou-se a ordenar o seu encerramento e enviou igualmente a polícia de choque (CRS) para guardar as proximidades e proteger as lojas. Mas tratava-se de um engodo! Uma pequena vintena de coletes amarelos, não mais do que isso, estava presente no local na manhã de 22, para se rir da brincadeira e fazer troça das forças da ordem vidas em massa…

Na mesma altura, em Paris, o grosso dos seus camaradas vestidos de amarelo, prevenidos à última da hora de modo a conservar o efeito de surpresa, reuniam-se nas proximidades da praça da Étoile ou em volta da basílica do Sacré-Coeur no alto das encostas da Butte Montmartre, nomeadamente. E como os dispositivos de segurança parisienses se tinham gabado no decurso das semanas precedentes de serem «extremamente móveis», os grupos de coletes amarelos jogaram ao gato e ao rato com eles, fazendo-os correr todo o dia nas ruas da capital, bloqueando aqui e ali, ao acaso das suas deslocações, os eixos de circulação, sob os concertos de buzinas de automobilistas solidários, e os aplausos de turistas divertidos. Boas festas de Natal para todos em França!

Os jornais televisivos acharam por bem repetir ciclicamente os «dois acontecimentos mais importantes de 22». Um vídeo registado nos Champs-Élysées mostrando três polícias de moto atacados por uma multidão furiosa a golpes de …trotinete (se as imagens são claras)! Como se isso se assemelhasse `s iniciativas levadas a cabo nesse dia por dezenas de coletes amarelos no país! E as declarações antissemitas que um jornalista testemunhou no metro! Como se tal sintetizasse uma opinião representativa dos coletes amarelos! Felizmente que o ridículo não mata; se matasse, há muito que não existiam media na Macrónia!

Entretanto, neste 22 de Dezembro, a polícia não perdeu completamente o seu tempo. Conseguiu deter, em diferentes pontos do território, várias «figuras» particularmente activas dos coletes amarelos. É o caso de Éric Drouet, interpelado a meio do dia na zona da Madeleine em Paris e detido por «organização de forma ilícita de uma manifestação, participação num agrupamento formado tendo em vista violências ou degradações, e porte de arma proibida». A arma em questão seria um pedaço de madeira que o seu proprietário, motorista de profissão, traz sempre consigo como meio de defesa, segundo o seu advogado. Quanto ao resto, e uma vez que Éric Drouet era nacionalmente conhecido por ter apelado a «entrar no Élisée», algumas pessoas interrogam-se por que razão o ministro Édouard Philippe tinha desejado falar com ele…e o próprio presidente Macron tinha lançado, em pleno «caso Benalla» no final do passado mês de Julho, e sem que ninguém tenha percebido então a quem se dirigia: «Se estão à procura de um responsável, ele está à vossa frente! Venham procura-lo! E este responsável responde ao povo francês, ao povo soberano». Imediatamente após ser anunciada a interpelação a Éric Drouet, centenas de coletes amarelos, surgidos desse povo soberano, todos autoproclamando-se «líderes do movimento», reivindicavam a sua libertação…ou então serem presos também!

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