Entrevista a Ali Larijani:
«Não temos animosidade aos Franceses »

Stéphane Bussard*    28.Oct.09    Outros autores


Há relativamente pouco tempo, quando Ali Larijani foi substituído como chefe dos negociadores iranianos com a Agência Internacional de energia Atómica (AIEA), logo a manipuladora imprensa mundial difundiu a ideia de Larijani se opunha aos conservadores e por isso estava mal visto e era afastado de responsável máximo pelas negociações. Agora, eleito Ali Larijani para presidente do Parlamento iraniano, é novamente apresentado como conservador…

Stéphane Bussard (SB): - O primeiro dia de negociações em Viena sobrea questão do enriquecimento do urânio fora do Irão correu mal. Porquê um tão grande hostilidade iraniana para com a França?
Ali Larajani (AL): - O que acontece em Viena são discussões de peritos desejadas pelo Irão para que possa ter acesso a urânio enriquecido por um reactor d e investigação. E, de acordo com o Tratado de Não-Proliferação (TNP) nuclear, para que este combustível nos seja fornecido, pela Rússia, por exemplo, é preciso que a AIEA esteja ao corrente do dossier. Começámos as negociações com um espírito positivo. Não temos qualquer animosidade para com os franceses.

SB: - Verdade?
AL: - O que é verdade é que há já algum tempo os franceses nos confiscaram 60 toneladas de hexafluoreto de urânio. Eles nunca o devolveram. Mas para nós não há qualquer razão para que a França seja nossa inimiga.

SB: - A revelação da existência dum segundo lugar de enriquecimento de urânio, perto de Qom, minou a confiança dos ocidentais. Os norte-americanos e os franceses já estavam ao corrente antes do Irão comunicar à AIEA…
AL: - Se eles conheciam a existência deste lugar, porque é que não nos entregaram nenhuma prova? Nós temos agido correctamente informando a AIEA muito antes do prazo de 180 dias previstos pelo TNP até que a matéria fissil esteja pronta.

SB: - Então não temos que nos preocupar, o Irão não vai construir a sua bomba?
AL: - Há dois anos, o relatório da National Intelligence Estimate [Direcção de Informação Norte-americana] demonstrou claramente que a República Islâmica não queria adquirir a sua bomba atómica. Hoje vivemos num mundo complexo. Quando nos acusam de querer criar a bomba atómica, seria bom que fundamentassem as suas acusações.

SB: - Qual a sua apreciação política de Barack Obama?
AL: - A sua política ainda é ambígua. Não sabe o que quer e um razoável número das suas decisões são contraditórias. Por um lado, estende a mão ao Irão, por outro, ogrupo terrorista Joundallah matou alguns responsáveis iranianos. Temos informações de que este grupo é apoiado pelos norte-americanos. Obama fez um bom discurso no Cairo prometendo restabeçecer os direitos dos muçulmanos e respeitar os palestinos. O que fez até agora? O regime sionista continua a desenvolver colonatos, Gaza e os seus 1,5 milhões de habitantes, continuam a sofrer um bloqueio terrível. Seráque Obama viu esta miséria? Nós, iranianos, não estamos interessados na apresentação da comida no restaurante. Gostamos mais de ver como essa alimentação é confeccionada na cozinha…

SB: - Como vê a «Revolução Verde», de que foi porta-bandeira Mir Hossein Moussavi?
AL: - Não compreendo por que diz revolução verde. Todas as instituições do Irão saíram da vontade do povo. O Supremo Guia foi eleito pela Assembleia de peritos, ela também eleita pelo povo. O presidente é eleito pelo povo, tal como os membros do parlamento. No Irão não é necessária uma tal revolução. As revoluções de veludo são para ditaduras.

SB : - No domingo [dia 18 de Outubro], os Guardas da Revolução foram atingidos por um atentado. Diz-se que eles tomaram o controlo do país e o militarizaram.
AL: - É incrível dizer tal coisa. Os poderes militares estão bem definidos na Constituição. Nunca as diferentes facções politicas permitiriam uma militarização do sistema. Isso não quer dizer que alguns militares não façam parte das nossas instituições. No Parlamento, por exemplo, há 7 ou 8 militares.


Este texto foi publicado no Le Monde de 21 de Outubro de 2009.

* Jornalista de Le Monde

Tradução de José Paulo Gascão

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