Entrevista a Sérgi Yahni Crise deve inflar nacionalismo em Israel

Tatiana Merlino*    04.Mar.09    Outros autores

Sérgio Yahni
Uma lúcida e esclarecedora entrevista com Sérgi Yahni, judeu e co-diretor do Centro Alternativo de Informação em Jerusalém…

Apesar de o Kadima, partido de Tipzi Livni, ter alcançado 28 cadeiras nas eleições legislativas em 10 de Fevereiro, uma a mais do que o Likud, o presidente de Israel, Shimon Peres, escolheu, no dia 20, o líder deste último, Benjamin Netanyahu, para tentar formar a coalizão de governo e obter assim o cargo de primeiro-ministro.

O fato de Netanyahu dispor de uma maioria de 65 parlamentares devido a uma aliança com partidos da extrema-direita (laica e religiosa) e com os ultra ortodoxos foi decisivo para que Livni fosse preterida por Peres.

Para Sérgio Yahni, co-diretor do Centro Alternativo de Informação em Jerusalém, a opção feita por Peres não altera muita coisa já que, para ele, os objetivos de um governo Likud-Israel Beitenu não serão fundamentalmente diferentes dos objetivos de um governo Kadima-Trabalhista.

Ambos os blocos apoiam projetos de liberalização econômica e pauperização social ao mesmo tempo em que apóiam uma política anti-insurgente ofensiva.”

Para Yahni, os primeiros a sofrerem esse impacto serão os 20% dos cidadãos palestinos de Israel já que os cortes orçamentários conduzidos pelo governo Netanyahu para contra-atacar a crise econômica global deverão incidir em especial sobre as áreas que afetam diretamente os palestinos.

Brasil de Fato – Qual é o significado de uma aliança entre o Likud e o Israel Beitenu?
Sérgio Yahni – Os objetivos de um governo Likud-Israel Beitenu não serão fundamentalmente diferentes dos objetivos de um governo Kadima-Trabalhista. Os quatro partidos políticos compartilham uma agenda sócio-econômica neoliberal e uma agenda política-militar ofensiva. Ou seja, ambos blocos apóiam projetos de liberalização econômica e pauperização social ao mesmo tempo em que apoiam uma política anti-insurgente ofensiva: o estabelecimento de um Estado palestino de acordo com as demandas de Israel, e não às reivindicações históricas do povo palestino; a repressão do movimento nacional palestino dentro de Israel; e a luta contra o “terrorismo islâmico”. Mas a diferença entre esses dois blocos está em sua imagem. Enquanto o bloco Kadima-Trabalhista se apresenta como um bloco moderado, o bloco Likud-Israel Beitenu se apresenta como um bloco nacional. Nas eleições de 10 de fevereiro, o Partido Trabalhista e o Kadima se apresentaram como a continuidade do processo de paz, respondendo aos interesses de certa parte da burguesia israelense e às necessidades de seus correligionários no exterior. Por outro lado, o Likud e o Israel Beitenu se apresentaram como partidos que não estão dispostos a vender barato seus interesses nacionais. Claro, intencionalmente, essa representação eleitoral, sobretudo de Israel Beitenu, foi vista como uma afiliação à direita do Kadima e do Partido Trabalhista.

Qual será o perfil de um governo formado pelo Likud, que contará, muito provavelmente, com partidos de extrema-direita? O que isso resultará em termos de políticas internas e externas?
Não se trata de que Israel Beitenu não seja de extrema-direita, mas sim que tanto o Likud, o Kadima e o Partido Trabalhista compartilham com este uma ideologia neoliberal e militarista. A situação geopolítica da burguesia israelense, que depende do imperialismo estadunidense para sua sobrevivência, e sua corrupção institucional levarão o governo Netanyahu-Liberman a adaptar-se às políticas estadunidenses mais cedo que tarde. Por outro lado, este governo precisará compensar seu ultranacionalismo, que poderia ser contrariado pelas demandas de futuras políticas estadunidenses, e ao mesmo tempo impor recortes orçamentários para contra-atacar a crise econômica global.

Quem deve ser atingido primeiro?

É de se esperar que as primeiras vítimas sejam os 20% dos cidadãos palestinos de Israel. O nacionalismo que fará com que os judeus pobres se enfrentem com os palestinos pobres poderá servir para traduzir as demandas sociais em reivindicações nacionalistas. Adicionalmente, poderiam cortar primeiro os orçamentos que afetam a população palestina de Israel criminalizando qualquer tipo de protesto social como um perigo à segurança do Estado. Claro, este cenário não seria diferente em um governo de coligação Kadima-Trabalhista. Ainda que neste caso a história das relações internacionais de Israel demonstre que tais políticas estariam quase automaticamente legitimadas pela social-democracia européia. Aos liberais europeus, levará mais tempo para adaptar-se à coligação Likud-Israel Beitenu. Mas não há dúvida que o farão.

O que isso significará, por exemplo, com respeito às negociações de paz com a Palestina e às relações com Irã?
Desde 29 de setembro de 1999, não existe o processo de paz. Também não houve negociações sérias de paz. Desde que o general Ehud Barak começou sua ofensiva contra a Autoridade Palestina, Israel demanda a capitulação total – ou seja, que a Autoridade Palestina, e todas as suas facções políticas, aceitem a criação de um Estado Palestino vazio de qualquer tipo de soberania. Até ao momento, somente a facção mais reacionária e colaboracionista dentro do Fatah, a facção dirigida por Abu Mazen [Mahmoud Abbas], está disposta a aceitar as condições de Israel.

A que se deve o enfraquecimento eleitoral do Partido Trabalhista e o avanço de Israel Beitenu?
O projeto político de integração global e regional do Partido Trabalhista, o processo de Oslo, fracassou frente às contradições sociais do Estado de Israel e às de seus países vizinhos. Em ambos os casos este fracasso se deu principalmente porque o projeto de integração vinha ligado a políticas econômicas neoliberais e políticas de pauperização social. Enquanto no mundo árabe as massas se voltavam justamente ao islamismo para poder sobreviver economicamente ao mesmo tempo que pretendiam defender a soberania nacional frente ao imperialismo, em Israel as massas se voltavam ao fundamentalismo religioso. A grande diferença está em que estas assumiam que seu futuro está ligado ao poder do imperialismo na região. No contexto político particular de Israel isto significa que frente à ofensiva neoliberal liderada pelo Partido Trabalhista durante o processo de Oslo, as massas em Israel pretendiam defender seus direitos sociais transformando-os em privilégios étnicos. Poderia se dizer que as massas judias empobrecidas buscavam refletir em relações de classes em Israel o lugar privilegiado que o Estado de Israel tem junto ao imperialismo para que seus direitos fossem protegidos.

Como isso se deu na prática?

O Partido Trabalhista abraçou o projeto de integração regional e global vendo-o como uma oportunidade que favorecesse os setores mais dinâmicos da economia israelense, sobretudo aqueles ligados à alta tecnologia e à comunicação, desligando-se dos trabalhadores industriais e dos pequenos produtores rurais – ambos foram lançados à pobreza extrema e o desemprego sem nenhuma rede de segurança social que amortecesse o impacto das novas políticas neoliberais. Portanto, as massas israelenses veem no projeto político de inclusão global do Partido Trabalhista um perigo imediato à sua qualidade de vida e têm decidido votar um projeto alternativo.

O avanço dos partidos de direita talvez possa se explicar pelo grande apoio dos israelenses aos ataques à Faixa de Gaza. Mas a que se deve esse forte apoio às políticas belicistas contra a Palestina?
A direita captou o retrocesso das massas em seu discurso que defende os privilégios da população judia em Israel conseguindo a maioria de votos. Claro, o objetivo político da direita e ultra-direita, que além de manter um discurso extremamente racista, apóia a liberalização radical da economia, é subjugar o voto anti-globalizador das massas aos interesses dos setores da burguesia associados à burocracia militar, aqueles setores ligados à produção de tecnologias de segurança e seus associados, e aos interesses regionais do imperialismo.

Qual deverá ser a postura do governo Obama ante o novo governo israelense?
O governo Obama defenderá os interesses estadunidenses na região. Primeiro e principalmente os interesses ligados ao controle da produção de energia. Portanto este governo terá que defender a supremacia militar imperialista na região, da qual Israel faz parte, como a única forma de conter a expansão política do Irã. Por outro lado, considerando o alto custo desta supremacia o regime de Obama poderá pretender chegar a algum tipo de acordo com o Irã ou com seus aliados. Principalmente com a República Árabe Síria. Israel poderia ser um problema para esta política, já que sua gestão agressiva desestabiliza os regimes árabes pró-imperialistas atualizando a revolução islâmica como uma alternativa popular de defesa da soberania nacional. Portanto o presidente estadunidense terá que decidir ou apoiar as políticas de Israel contendo a tendência a revoluções islâmicas na região por meios militares, ou chegar a algum acordo de convivência com Irã e seus aliados no qual o Oriente Médio ficaria dividido entre zonas de influência imperialista, nas quais o Irã não apoiaria os movimentos revolucionários, e zonas de influência iraniana. Neste último caso, Israel teria que adaptar-se a novas realidades e até se poderiam ver certas tensões entre o projeto dos EUA e seus interesses regionais e domésticos israelenses. As forças do poder político em Israel apostam que a tendência nos Estados Unidos seria conter o Irã e não chegar a um acordo de zonas de influência.

Hamas e Fatah vem tentando uma nova aproximação. Crê que isso, de fato, vai acontecer? Em que termos? Quais podem ser as consequências para as relações com Israel?
Na realidade, a ruptura já não é entre Hamas e Fatah, senão entre o setor do Fatah associado à Autoridade Palestina e o resto das forças políticas palestinas. A Autoridade Palestina, defendida pelas tropas paramilitares treinadas pelos Estados Unidos, leva adiante um projeto colaboracionista, enquanto o resto da sociedade política palestina leva adiante um projeto de resistência. Para não isolar-se totalmente, a Autoridade Palestina negocia com a resistência, e não somente com o Hamas, um suposto projeto de unidade nacional, mas este setor não está disposto a dissociar-se do projeto imperialista regional. O futuro da política colaboracionista da Autoridade Palestina está também intimamente ligado às perspectivas do imperialismo na região: se Obama e a administração estadunidense apostam pela contenção do Irã, os choques entre a Autoridade Palestina e a resistência aumentarão. Por outro lado, se os Estados Unidos decidem-se por um acordo com o Irã, isto poderia ter uma influência decisiva no diálogo entre a facção do Fatah na Autoridade Palestina e a resistência.

Nota: Sérgio Yahni é judeu, co-diretor do Centro Alternativo de Informação em Jerusalém. Em 19 de Março de 2002, foi condenado a 28 dias de prisão ao negar-se a prestar serviço militar em Israel.

Esta entrevista foi publicada em Brasil de Fato

* Redactora de Brasil de Fato

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