Entrevista com Alfonso Sastre
Querem que a ETA cometa um atentado

Carlos Aznarez*    21.Feb.11    Outros autores

Carlos Aznarez Nesta entrevista de Carlos Aznarez com Alfonso Sastre, o escritor e dramaturgo castelhano, hoje a residir em Euskal Herria, fala “da possibilidade do colapso do capitalismo, do não comprometimento de certos intelectuais, (d)o avanço revolucionário que ocorreu na América Latina e (d)as perspectivas abertas no País Basco, após o comunicado da ETA”.

Alfonso Sastre é, sem dúvida, um dos grandes pensadores que resistem com dignidade na Europa do capital. Dramaturgo, ensaísta, escritor e, acima de todos os rótulos, um homem comprometido com a causa dos povos, Sastre é madrileno por nascimento e agora basco por adopção, uma vez que não só vive num lugar maravilhoso de Euskal Herria, chamado Honadarribia, como apaixonadamente defende a ideia de que este país situado em ambos os lados dos Pirenéus, tem todo o direito de alcançar a sua desejada independência. Com Sastre, discutimos a possibilidade do colapso do capitalismo, o não comprometimento de certos intelectuais, o avanço revolucionário que ocorreu na América Latina, e as perspectivas abertas no País Basco, após o comunicado da ETA.

Carlos Aznarez (CA): Alguns anos atrás, num discurso na Argentina, Fidel Castro previu que o capitalismo entraria em colapso neste século, até mesmo falou de não mais de 40 anos. Hoje essa estrutura range por todos os lados. Você acha que a actual crise na Europa e a ostensiva “direitização” da política americana, poderiam apressar esta queda?
/strong>Alfonso Sastre (AS) : Eu não acho que a ciência da história, ou o que a história tem de ciência (o que não está muito claro) esteja em condições para fazer previsões desse tipo. Talvez (pelo) número de variáveis envolvidas nos processos históricos. No entanto, o inesperado sempre acontece. Como foi agora na Tunísia, por exemplo. Quanto ao capitalismo, ele tem mostrado muitas vezes, a eficiência e a complexidade dos seus partidários para enfrentar as suas crises. É uma ilusão, acho eu, que possa cair. A queda dos grandes impérios, como foi o romano, mostra a importância de factores exógenos na possibilidade de um colapso. Quedas empurradas, podemos dizer. Nessa altura foi a presença e actividade dos bárbaros. No nosso caso, agora, seria o renascimento do socialismo numa versão actual, o que vamos chamando de socialismo do século XXI, e eu prefiro chamar de Neo-socialismo. Hoje, a qualidade e a quantidade dos cúmplices do capitalismo, fazem com que não se possa sonhar com uma queda a tão curto prazo, mas que também pode ocorrer. Neste caso, Fidel, mais uma vez, teria tido razão.

CA: É notório que existe uma ausência de pensamento crítico e uma tendência para evitar o envolvimento em grande parte da intelectualidade face aos crimes do capitalismo. Do lado contrário, um núcleo digno em que você próprio se inclui, lutando para gerar opinião favorável a não deixar passar as tropelias do império. Como fazer para que o seu contributo ocupe o espaço que merece e alcance mais e mais jovens, que é precisamente para quem é orientado o discurso do Império?
AS: Como fazer, como fazer? É uma pergunta famosa. Assim como quando Lenin perguntava “O que fazer”? A resposta está numa das letras da Internacional, ou seja que voltamos atrás para tornar a ir em frente. “Unamo-nos”, já que parece claro que não estamos à beira de uma luta final, mas talvez nos seus prolegómenos. Eu não sou nem estritamente optimista nem estritamente pessimista.

CA: Por outro lado, há muitos intelectuais que bebem no discurso único ou são próximos de governos que em nome da democracia maltratam os seus povos. Como os classificaria e quais são as ferramentas para evitar a contaminação de sua influência para a geração mais jovem?
AS: Eu os qualificaria como servos da manjedoura do poder e mentirosos. Muitos têm a desvergonha de se proclamar defensores do progresso social, mas o que fazem os mais avançados deles é “obedecer ao sistema com a linguagem da rebelião.” Assim, muito justamente os definia Theodor Adorno.

CA: Não há dúvida de que o medo ao diferente cresce de forma agressiva na sociedade europeia e mesmo alguns países que sempre se caracterizaram como liberais, têm agora governos ou parlamentos de extrema-direita. Que antídoto recomenda para atenuar os efeitos desse surto de xenofobia e de racismo?
AS: Eu não vejo outro caminho senão declarar a busca da verdade, e não se confunda realidade com a verdade. A realidade é que vivemos em tempos muito maus, especialmente em países subdesenvolvidos, onde há o espectáculo da fome e da pobreza. Essa má realidade promove movimentos migratórios, mais fortemente do que no passado. Agora, passemos ao campo da verdade. E aí vemos que a presença desses diferentes nos países desenvolvidos não é a causa dos males que se sofrem nesses países. O capitalismo é o inimigo, e o fascismo e o racismo, a pior solução possível. Eu diria àqueles que se mostram hostis para com os nossos visitantes forçados: abraçai-os, dai provas da vossa humanidade e de que estais a favor da verdade e da justiça.

CA: É optimista face á realidade da América Latina, onde alguns governos e seus povos, refiro-me, por exemplo, à Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, desenvolvem um sentimento nacionalista anti-colonial e anti-imperialista?
AS: Eu sinto-me dentro desta época, em que se estão fazendo essas experiências. E assim, manifesto-me na base realista que referi antes, um pouco à margem de um optimismo radical ou de um optimismo de curto prazo. Nesta situação de simpatia sincera com esses movimentos que acabas de mencionar, eu coloco-me sob o amparo da mãe Cuba (ela é a Pátria-mãe para mim) e sigo com muitas esperanças as expressões de um sentimento, que eu não chamaria de nacionalista mas de patriótico, no sentido do que os cubanos gritaram no início da Revolução: Pátria ou Morte, e, claro, venceremos, venceremos.

CA: Como um bom amigo de Cuba que sempre foi, parecem-lhe lógicos ou preocupam-no as recentes mudanças na Revolução, no âmbito laboral e económico?
AS: Rapidamente digo: estas alterações parecem-me muito lógicas e necessárias, e desejo que tenham chegado a tempo.

AC: Falando de Euskal Herria. Qual é a sua opinião sobre o cenário que se abre após o recente comunicado da ETA, declarando um cessar-fogo permanente? Pergunto isto, porque este anúncio suscitou todo o tipo de opiniões, algumas muito favoráveis e outras carregadas da malícia de quem, do poder, parece preferir o prolongamento indefinido do conflito.
AS: Em Euskal Herria, eu também estou, é claro, do lado da esperança, e muito animado com realidades eloquentes como a recente manifestação pelos presos e presas, de 8 de Janeiro, que tu mesmo saudaste com entusiasmo e uma emoção que eu compartilho. É claro que a luta pela paz rejeita qualquer humilhação que o povo tenha de sofrer para obtê-la. Estamos num momento em que o povo basco está sendo humilhado continuamente, com detenções e tortura de activistas políticos e patriotas (como aconteceu nos últimos dias.) Muitos anos atrás eu escrevi uma nota – quando trabalhava com o jornal El Pais – expressando o meu repúdio enérgico pela palavra “pacificação”. Sou contra a “pacificação” de Euskadi. Por quê? Porque a “pacificação”, na questão da paz, não conduz precisamente à paz. Só há paz baseada num princípio de liberdade e justiça. A paz nunca está na ponta das baionetas, como se demonstra aqui todos os dias. Agora estamos vivendo dias de muita força, de muita esperança, onde o inimigo mostra que não está disposto a caminhar rumo à paz. Há uma provocação permanente para que a ETA rompa a trégua que anunciou e cometa um atentado. Isso seria uma boa notícia para o inimigo. Para eles não é uma boa notícia que a ETA tenha optado pela luta política.

CA: Em que é que a participação internacional pode ajudar na resolução do conflito?
AS: Eu acho que está ajudando muito. É uma contribuição muito necessária a um conflito com esta complexidade. A intervenção de uma terceira palavra, nesses casos, é imprescindível para se dar passos em frente. Neste caso, temos a colaboração de grandes personalidades que estão contribuindo para que um dia, o chamado Partido Socialista no poder, retroceda nos seus erros, e deixe de tocar esse disco quebrado que ouvimos todos os dias. Embora muitas coisas estejam acontecendo, eles continuam tocando esse disco. Eles também terão que mudar. Dentro desse partido há certamente pessoas ligadas às glórias do seu passado, que poderiam influenciar o PSOE a se afastar da dependência do Partido Popular e colocar-se do lado da paz. Algo que é reivindicado por grande parte do povo basco. O problema aqui não é se há ou não um grupo armado, mas se há um sentimento patriótico e popular. Isso é precisamente o que os patrioteiros espanhóis não conseguem aceitar, e a que Lenine chamava o “chauvinismo de grande potência.” Eles são o grande poder contra o povo basco, e, portanto, não admitem que este possa auto-determinar o seu destino.

CA: Como imagina ou como gostaria que fosse a Euskal Herria do futuro?
AS: O último livro que publiquei, chama-se apenas “Ensaiando o futuro”, e tenta descrever ou imaginar o futuro do ponto de vista da imaginação dialéctica, como eu a designo, partindo do princípio que eu sou um escritor de ficção e não um escritor político. Colocamo-nos num futuro, provavelmente longínquo (mas não necessariamente longínquo, por causa dessas coisas que acontecem, por vezes, inesperadamente) e, então, eu conjecturo que na Península Ibérica, haverá uma Confederação de Repúblicas Ibéricas, que incluem, necessariamente, Portugal. Eu sei que muitos companheiros Portugueses participam desse sonho, certamente possível, sem dúvida longínquo, mas possível. Isso é o que eu penso e quero para o futuro.


* Director do Resumen Latino-americano e amigo e colaborador de odiario.info

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