Entrevista com Dagoberto Gutiérrez*: Análise das eleições em El Salvador

Entrevista    06.Jun.12    Outros autores

Dagoberto GutiérrezEsta entrevista foi publicada após as eleições legislativas e autárquicas em El Salvador realizadas em Março - nas quais o partido de direita ARENA recuperou o lugar de força mais votada -, mas a reflexão que nela é feita não perdeu actualidade, e é um valioso contributo para a compreensão do complexo processo político daquele país.

“A cúpula da FMLN não é de esquerda”
“A FMLN abandonou a luta pelo poder e substituía pela luta pelo governo”

Temos o primeiro governo de esquerda no país, o primeiro presidente da Assembleia Legislativa que pertence à FMLN, mas no domingo passado a Frente perdeu os seus bastiões.

Não creio. E acontece que essa figura dos bastiões é sempre uma figura que existe num tempo e em condições determinadas. A guerra é um exercício de força e de política. Um bastião eleitoral é mais volátil, porque depende do voto e da subjectividade das pessoas. Na votação de domingo tanto o ARENA como a FMLN foram surpreendidos pelos resultados.
ARENA não esperava ganhar onde ganhou e a FMLN não esperava perder onde perdeu. O que sucedeu é que o voto foi convertido num instrumento administrativo esvaziado de poder. A figura que se associa ao voto é a do seu exercício, o exercício do voto quando se vota, mas neste caso surgiu uma outra figura que aponta para o talento político do povo… as pessoas decidiram utilizar o voto, o que é diferente de exercer o direito de voto; utilizaram-no politicamente e não eleitoralmente.
Utilizaram-no dando o voto ao partido a quem há dois anos o tinham recusado. Mas não deram a mais ninguém, consideraram simplesmente que no momento actual não existia ninguém por quem votar [a abstenção atingiu 50%] e as pessoas utilizaram o voto mais para castigar a FMLN do que o próprio governo. O governo Maurício [Funes] é outra história, é praticamente inimputável.

E o que é que sucedeu no caso dos municípios?

Aí o voto de castigo é mais claro. Quando um partido assume um cargo público, o funcionário – que chega a esse cargo público – não tem de se converter em funcionário, tem sim que saber para que fins vai fazer uso do cargo público. Acontece que as estruturas do Estado são instrumentais, tal como o próprio Estado – que é um instrumento nas mãos do sector que o controla - o é. Quando ocupo um cargo público devo saber o fim para o qual o vou utilizar sem me tornar funcionário, porque se se acredita que a função é o fim e não o meio está a criar-se um problema. E foi isso que sucedeu.

Será que é a população que continua a temer a FMLN, ou foram eles que utilizaram mal esse instrumento político?

Não são as pessoas que temem a FMLN, é o partido FMLN que tem medo do povo, não é a população. A população é um conjunto de seres humanos que habitam um país num momento determinado; os chineses, os guatemaltecos e hondurenhos que aqui vivem são população, mas o povo é a parte da população que possui e exerce direitos políticos. Na luta política o fundamental é o povo, as pessoas são os súbditos do Estado mas são pessoas de carne e osso, que sonham, que sofrem por causa do subsídio do gás, das tarifas da electricidade, do elevado preço dos alimentos, dos combustíveis, é isso que são as pessoas. Acontece que o partido desenvolve medo das pessoas, sobretudo quando alguém se converte em funcionário e apenas olha para o mundo a partir de cima.
Quando olhas para as pessoas a partir do cargo que desempenhas perdes inteligência política, deixas de saber o que é que as pessoas sentem, a que é que aspiram. Sabiam os funcionários da FMLN que iam perder? Não, antes pelo contrário. Como funcionários, estavam absolutamente seguros de que as pessoas iriam segui-los, como se as pessoas lhes pertencessem. Foi esse o erro. E as pessoas já não estavam de acordo com eles. Saber o que as pessoas pensam é fundamental, é uma questão chave, foi isso que aprendemos na guerra.

Deve demitir-se, em parte ou na totalidade, a Comissão Política da FMLN?

Nós dirigimos a guerra e, como sucede com tudo na vida, se amolecemos equivocamo-nos. Na guerra, quando sofríamos algum golpe falávamos com as pessoas e reconhecíamos e procurávamos perceber o que é que tinha sucedido, porque se não o fizéssemos éramos mortos, precisávamos de conhecer as causas. Pode a actual direcção fazer o mesmo? Ouvi um dirigente da FMLN dizer que não houve problema nenhum, que não aconteceu nada, que se perdem uns municípios aqui e se ganham outros ali. Portanto não há problema…
Se a direcção envereda por este caminho então estão perdidos. Estão a auto-condenar-se. Estas eleições foram um prelúdio para a FMLN; o confronto definitivo sucederá em 2014, porque aí o que estará em jogo é o rumo que o país vai tomar, e o problema é como vamos sobreviver. A cúpula deve pensar no que é que tem que fazer, que se avaliem e que decidam o que é melhor para o país

A FMLN tem de se afastar do governo de Maurício Funes, uma vez que esta relação lhe está a provocar danos?

Maurício não precisa da FMLN, mas o partido precisa dele. Isso é um drama humano, e nos resultados de agora a posição das pessoas face ao governo pesou parcialmente.
Agora, está o partido em condições de se retirar deste governo? Deveria… a FMLN deveria retirar-se do governo de Maurício Funes, mas poderá fazê-lo? Não creia que tenha a energia suficiente para o fazer, além do mais porque sendo um partido de governo como é, isso significa que tem muita gente no aparelho do governo e teria custos a pagar.
Maurício tem o seu próprio partido e a sua opção própria e isso toda a gente sabe até no Butão, um minúsculo país no norte da Índia. Mas Maurício é inimputável.
Noutras circunstâncias o partido já há muito teria tomado essa opção, mas isso acarreta custos, uma vez que têm que reconhecer que se enganaram e que não disseram a verdade às pessoas.
Maurício não tem nada a perder, mas eles vêm sempre dizendo “o nosso governo”, e isso nunca sucedeu. Não são capazes de admitir que erraram.

Tendo a FMLN chegado à situação em que agora se encontra quer dizer que não foi capaz de prever isso?

Exactamente. A FMLN não foi capaz de prever o que a esperava nestas eleições. O problema é que os partidos deixam de fazer política, mas são mais partidos do que políticos. A direcção da FMLN ouve as opiniões, mas não creio que lhes preste atenção. Ouvir é sempre ideologia, dar atenção é sempre intelecto.
Veja o governo do Japão, um governo de direita. Comemorou o primeiro aniversário do tsunami e o primeiro-ministro aparece a dizer que se enganaram, que não foram capazes de garantir a segurança das pessoas, de garantir o funcionamento das instalações nucleares, veja que maravilha! Mas estes da FMLN não são capazes de reconhecer que se enganaram, não podem fazê-lo porque não podem ouvir as pessoas.
Nesta votação as pessoas retiraram mais de cem mil votos à FMLN, não os deram a ARENA. Quer dizer que não existe uma viragem à direita. ARENA aumentou alguns votos, mas nada de especial. Esses votos da FMLN continuam aí, simplesmente não lhes foram dados como castigo pela sua falta de inteligência política, pela sua falta de firmeza nos momentos em que era necessário ser firme.

Disse que o presidente é inimputável, a classe média está seriamente desgostosa com ele, e há quem diga que o partido que o levou ao poder nada fez e continua sem nada fazer pela classe média. Existe a percepção de que a classe média é quem vota maioritariamente à esquerda….

E é correcto. Os votos que se afastaram da FMLN são votos da classe média. São votos da capital, são pessoas que estão a reclamar contra esta degradação das condições de vida. A classe média, que anteriormente apoiou a FMLN, castiga-a agora a não lhe entrega os seus votos. Ofendida pelos abusos. Acontece que Maurício venceu com a palavra da “mudança”, e com o partido sucedeu a mesma coisa; a mudança é um conceito ambíguo e perigoso, se falamos em transformação trata-se de algo mais seguro e definido, mas a mudança não, mudança pode ser qualquer coisa e dizê-lo politicamente é um abuso.
Existe efectivamente uma atitude contra o governo, mas no fundamental dirige-se contra o partido, que não é nem partido de governo nem partido no governo, é um partido governamental. Maurício não dá expressão a nenhum projecto, não representa nenhum projecto político, nenhuma cabeça política definida.
Maurício não é um combatente social nem um renovador social, não é nada disso, mas as circunstâncias concretas fizeram-no presidente da República deste desgraçado país. Já lá vão quase três nos e continuamos a interrogar-nos sobre qual é o projecto do Senhor Presidente, e teríamos que o inventar, e isso afecta a FMLN.

Mas porque é que o considera inimputável?

Porque ele não é responsável pelo que acontece; mas o partido é, tem mais responsabilidade histórica. Maurício nem partido tem, ou pelo menos o seu partido não é este partido, por isso não tem responsabilidade face à FMLN. Além do mais, daqui a dois anos Maurício já não será presidente, mas eles continuarão a ser partido.

Mas então como é que Funes tem uma responsabilidade tão grande na perda de cem mil votos?

É que uma parte desses votos tem a ver com o governo… com o gás, com os problemas da classe média, e que este é um governo que se comprometeu com a palavra “mudança”, e que mudança veio trazer ao país? Mas este partido garantiu à pessoas que este governo era o governo da mudança, e isso não aconteceu, e que este presidente era o presidente da mudança. Lá fora Maurício diz que o seu governo é de esquerda. Os da FMLN dizem este é um governo seu, dizem “o nosso governo”, e o governo de Maurício nunca foi da FMLN, e hoje estão a pagar a factura.
Há esquerdas e direitas, mas a esquerda em que me situo percebe bem esta situação. Pensamos que o problema do país reside no Estado, um novo Estado, e vamos prepara-nos para participar na campanha de 2014 com o nosso próprio projecto e os nossos próprios candidatos, um movimento definido, vamos à procura de um instrumento partidário legal, evidente, que não esteja dependente de nenhum partido político.

E serão capazes de fazer frente à máquina eleitoral da FMLN?

Isso logo se verá, porque nós não vamos fazer uma campanha eleitoral mas uma campanha política. Ainda não temos um nome, ver-se-á mais à frente.

O que é que se passa com a esquerda em El Salvador?

Para além de ser uma posição teórica, filosófica e política é uma forma de ver o mundo e de interpretar a realidade, precisamente para a subverter e a contestar. O sentido da esquerda é a subversão da realidade. A cúpula da FMLN não é de esquerda, é de direita e, politicamente e em todos os aspectos da vida, cada um é o que faz, não o que diz.

E em que momento é que se tornam de direita ?

É que a FMLN guerrilheira foi um acordo político entre comunistas, anticomunistas e não comunistas, e portanto não é fácil considerar a FMLN como de esquerda. A Frente foi uma obra de arte em termos de alianças políticas, é a aliança melhor conseguida na história do nosso país e talvez de toda a América Latina, uma aliança que foi capaz de organizar a guerrilha mais poderosa do continente.

Mas como é então possível que esse agrupamento, fruto da aliança entre sindicatos, operários, classe média, não seja agora mais do que história passada?

É que essa aliança morre quando os Acordos de Paz são assinados, e tinham entretanto ocorrido outras coisas: a guerra terminara e tinha expirado o acordo político chamado FMLN. A FMLN foi um instrumento político e, como todas as organizações políticas, funcionou num determinado momento histórico. Quando esse momento é ultrapassado surgem outros. O partido FMLN não e a FMLN, o que é fácil de compreender, é apenas o instrumento partidário eleitoral que surge, já por vontade do Estado, uma vez terminada a guerra.

E em que momento que se verifica a transição que o leva a dizer que a cúpula é de direita?

Esse instrumento partidário não era um instrumento das esquerdas, era um aparelho especializado em eleições, que pôs de lado a luta política e a substituiu pela luta eleitoral, mas que deixou também de lado o pós-guerra como um período histórico inevitável e substituiu-o pela paz. Pôs de lado a luta pelo poder e substituiu-a pela luta pelo governo. E é nisso que estamos.

*Dagoberto Gutiérrez ingressou em 1962 na Faculdade de Direito da Universidade de El Salvador. A partir dessa altura integrou-se na esquerda estudantil, que o conduziu às fileiras do Partido Comunista Salvadorenho (PCS), à guerra de guerrilha nos montes Guazapa [foi Comandante], à mesa de negociações para a conclusão da guerra e agora ao ensino universitário em que exerce as funções de vice-reitor académico na Universidade Luterana.

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