Entrevista com Mari Alkatiri

João Vaz de Almada    03.Dic.06    Colaboradores

Em Timor Leste como no resto deste mundo globalizado, “as conspirações são sempre bem encapotadas, quem as executa não dá a cara. Prefiro não avançar com nomes. Há conspirações que ao fim de 20 anos ainda estão a ser investigadas. Para mim está claro que o Presidente Xanana não estava envolvido nela desde o início, mas posteriormente viu-se envolvido”

De passagem por Maputo para rever velhos amigos, Mari Alkatiri, ex-Primeiro-Ministro de Timor, fala, entre outras coisas, do Governo de Ramos-Horta, da recente crise política-militar, dos desentendimentos com Xanana e da mão australiana no golpe de estado constitucional”.

Em relação a uma possível candidatura à chefia do Governo nas próximas eleições Alkatiri é peremptório: “Se depender de mim não serei candidato.”

Savana: Que balanço faz dos 100 dias de Governo Ramos-Horta?

Alkatiri: É a governação possível no momento de crise em que vivemos. Tem faltado capacidade para definir claramente as dificuldades e atacá-las de frente. Ramos-Horta herdou um programa anual, reflectido no orçamento de Estado, bastante ambicioso, contudo tem-se preocupado mais com a execução do plano e não tanto com o restabelecimento da lei e da ordem, com a autoridade do Estado e com o problema dos deslocados. Isso deveria ter sido prioritário e não foi.

Savana: Mas o senhor disse que este Governo era tutelado pela FRETILIN.

Alkatiri: É um Governo ao qual a FRETILIN deu o seu aval. Ramos-Horta está a tentar executar esse programa extremamente ambicioso. Se não tivesse havido a crise era intenção nossa fazer o grande arranque para o desenvolvimento do país, investindo nas zonas rurais, nas comunidades e também nas infra-estruturas, uma vez que nestes primeiros quatro anos a nossa prioridade foi construir e consolidar as instituições do Estado.

Savavana: Fala regularmente com Ramos Horta?

Alkatiri: Em Timor encontramo-nos uma vez por semana. Quando estou no estrangeiro falamos regularmente ao telefone.

Savana: Atendendo que está em regime de termo de identidade e residência informou o Procurador-Geral da República da sua saída do país?

Alkatiri: A minha obrigação é colaborar com a Justiça. Não quero alimentar especulações como aquelas que já ouvi que dizem que estou a fugir do país. Informei o Procurador e dei-lhe os meus contactos.

Savana: Correu essa versão de fuga.

Alkatiri: Boatos há sempre e Timor é multimilionário em boatos.

Savana: O senhor afirmou recentemente que o golpe de estado constitucional ficou por concluir, acrescentado depois que havia um plano B que ficou por executar. A que é que se referia concretamenta?

Alkatiri: Penso que esse plano B já está em marcha. Veja-se o esforço enorme que está a ser feito para manchar a imagem da FRETILIN e da sua liderança, tentando desacreditá-la, até por parte do Presidente Xanana Gusmão. As pessoas que executaram o golpe não previam que houvesse um reforço de unidade na FRETILIN. Saiu-lhes o tiro pela culatra.

Savana: Quem são essas pessoas?

AlKatiri: As conspirações são sempre bem encapotadas, quem as executa não dá a cara. Prefiro não avançar com nomes. Há conspirações que ao fim de 20 anos ainda estão a ser investigadas. Para mim está claro que o Presidente Xanana não estava envolvido nela desde o início, mas posteriormente viu-se envolvido.

Savana: Voluntária ou involuntariamente»?

Alkatiri: Penso que entrou de forma inconsciente. Mas agora tem negado sistematicamente o seu envolvimento, talvez por dignidade e orgulho. Isso só mostra o ódio injustificável que tem pela FRETILIN.

Savana: Quais são as raízes desse ódio?

Alkatiri: Xanana foi a pessoa que, depois das grandes crises da resistência, em 1979/80, subsequentes à morte do líder Nicolau Lobato, agarrou a liderança e por conseguinte a própria FRETILIN, isto é um facto inegável. O mérito dele ficará registado na História. Por força das circunstâncias, introduziu um novo tipo de liderança, muito unipessoal, muito individualista, e a verdade é que deu resultado. Ele para fora sempre deu uma imagem de abertura e tolerância mas internamente concentrou sempre tudo nas suas mãos. E, de certa forma, quando se retirou formalmente da FRETILIN, continuou a chefiá-la. A grande dor do Presidente Xanana neste momento é que perdeu de facto a liderança da FRETILIN. Estando fora das estruturas de um partido não se pode ter a pretensão de querer liderá-lo. Só pode liderar a FRETILIN quem está disposto a subordinar-se aos órgãos da FRETILIN. O que ele quer é, no mínimo, irracional. Esta é a sua grande contradição. Foi aí que começaram as desavenças.

Savana: Acha que houve uma mão externa?

Alkatiri: Vou reportar-me novamente a factos. Neste último ano e meio, a comunicação social australiana iniciou uma campanha deliberada para denegrir a imagem do Governo e da FRETILIN em geral, e a minha em particular. No auge da crise o Primeiro-Ministro australiano foi o único dirigente político que se pronunciou a favor da minha demissão, num acto claro de ingerência nos assuntos internos de Timor.
Savana: Pensa que “dossier petróleo” poderá estar na base desse desejo australiano, uma vez que o senhor entrou em colisão com os interesses australianos durante todo o processo negocial?

Alkatiri: É evidente que isso tem peso. As negociações foram duras e eu defendi fortemente, como é óbvio, os interesses timorenses. Ficámos com 90% da exploração numa área, onde inicialmente só nos estava destinado 50%, e 50% noutra, quando a oferta inicial era de 18%.

Savana: Sabe-se também que a Igreja Católica, sendo o senhor muçulmano, não via com bons olhos o facto de ter um “não crente” na chefia do Governo?

Alkatiri: Não gosto muito de falar da Igreja como instituição, mas é um facto que uma parte da hierarquia da Igreja Católica era militantemente contra o Governo. De tal forma que não tenho dúvidas em afirmar que a Igreja Católica fez o papel da oposição, promovendo manifestações que duraram duas e três semanas. Admito que o facto de ser muçulmano, num país esmagadoramente católico, seja difícil de digerir para alguns sectores católicos.

Savana: No passado dia 17 de Outubro, a comissão de investigação da ONU concluiu não haver provas do seu envolvimento na distribuição de armas a civis. Todavia recomendou uma investigação adicional para determinar se o senhor deve ser responsabilizado criminalmente sobre a questão. Quer comentar?

Alkatiri: Acho que isso foi uma solução de equilíbrio para não deixar mal outras pessoas. A forma como o relatório foi apresentado mostra bem que não querem atingir aqueles que estão no poder. Se dissesse claramente que não havia qualquer fundamento como é que ficaria a posição do Presidente da República que exigiu a minha demissão justamente por causa disso? Houve a tentativa de deixar pairar no ar alguma coisa, deixando que os órgãos de soberania timorense resolvam o assunto. Não quiseram arrumar o caso.

Savana: Há quem diga que o conflito é, fundamentalmente, étnico entre loromonos e lorosaes.

Alkatiri: Recuso totalmente essa tese.

Savana: Mas uma das causas do conflito foi a discriminação de que eram alvo os loromonos no seio das Forças Armadas.

Alkatiri: É preciso esclarecer bem esta questão. A partir de 1980 e até 1984, o último reduto da resistência estava localizado na zona leste, integrando maioritariamente guerrilheiros lorosae.

Savana: Por isso hoje a maior parte dos comandantes são da zona leste. Isto é uma herança! Não se pode negar. Ignorar essa realidade para dizer que há discriminação não é admissível. Houve até um esforço do Chefe de Estado-Maior, Brigadeiro Taur Matan Ruak, para equilibrar isso. Como é que Alfredo Reinado, um loromono, chegou a major? Não esteve na guerra, viveu na Indonésia e depois na Austrália! O próprio Nicolau Lobato não era lorosae. Nos últimos anos houve um esforço no sentido de recrutar mais loromonos. Alguém andou a tentar explorar essa divisão ?

Alkatiri: Até no seio da própria FRETILIN tentaram fazer isso, mas não conseguiram. Nas FA é mais fácil conseguir promover essas divisões.

Savana: Vai ser o candidato oficial da FRETILIN nas próximas eleições legislativas?

Alkatiri: Vou bater-me até ao limite das minhas forças para não ser. Não me restam muitos anos pela frente, embora as pessoas digam que ainda sou jovem, por isso acho que devo dedicar-me ao partido. Quero trabalhar para o partido. A FRETILIN suportou grandes sacrifícios com a política de Unidade Nacional de tal forma que as estruturas do partido foram emprestadas às chamadas estruturas de Unidade Nacional, ao CNRM (Conselho Nacional de Resistência Maubere), mais tarde transformado em CNRT (Conselho Nacional de Resistência Timorense). Depois disto tudo a FRETILIN ainda foi chamada a governar. Há por isso um grande trabalho de reorganização a fazer.

Savana: Falando de Moçambique, onde viveu 24 anos, a sua ausência no congresso de Quelimane pode ser interpretada como um afastamento em relação à Frelimo?

Alkatiri: Não, de forma alguma. Fiz tudo para estar presente, mas na semana antes de embarcar tive um problema de saúde e, como os médicos não sabiam se era grave, recomendaram-me que fosse primeiro efectuar exames a Portugal, onde já tinha sido operado em Janeiro. Tive de seguir o conselho dos médicos. Felizmente não me foi diagnosticado nada. Por um lado fiquei contente por não ter nada, mas por outro fiquei zangado porque afinal poderia ter vindo ao congresso.

Savana: A FRETILIN ainda se sente próxima da Frelimo?

Alkatiri: Isso é indubitável. Não é só porque nos acusam de sermos a máfia de Maputo (risos), como também pelos laços históricos que sempre nos uniram.

Savana: O que é que admira na Frelimo?

Alkatiri: A sua invejável capacidade organizativa e também a facilidade de se adaptar às novas conjunturas. A Frelimo nasceu da luta contra o colonialismo, ganhou sozinha a independência e depois conseguiu acompanhar a evolução mundial dos últimos anos, introduzindo no país o multipartidarismo e a democracia.

Savana: No mês passado, por ocasião da passagem do 20º aniversário da morte de Samora Machel, não se esqueceu de o elogiar publicamente. Que recordações guarda do primeiro presidente de Moçambique?

Alkatiri: Samora era um homem profundamente ligado ao povo, muito generoso para com os mais desfavorecidos. Foi um grande defensor da luta de libertação dos povos. Para um país jovem e pobre como Moçambique, não era fácil assumir abertamente as causas do Zimbabwe e da África do Sul como ele assumiu, muitas vezes com consequências extremamente negativas para Moçambique. Se tivesse vivido mais tempo estou certo que teria capacidade para se adaptar às novas realidades.

Savana: Actualmente muitas das suas políticas seriam de impossível implementação…

Alkatiri: Sim, estariam absolutamente fora do contexto.

Savana: Como é que vê hoje Moçambique?

Alkatiri: Moçambique é hoje um país em franco desenvolvimento e isso é reconhecido por toda a comunidade internacional. O que admiro no povo moçambicano é a sua capacidade de esperar, de ter paciência e de acreditar nos seus líderes.

Savana: Relatórios de organizações internacionais referem que se está a assistir neste momento a uma “partidarização” do Estado como nunca antes tinha acontecido em Moçambique. A promiscuidade entre o Estado e a Frelimo é cada vez maior. Quer comentar?

Alkatir: Nos nossos países, quando um partido vence uma série de eleições consecutivas, há logo uma tendência para se dizer que o regime está de novo a caminhar para o monopartidarismo. Nós, em Timor, também somos acusados do mesmo e só estamos há 4 anos no poder! Penso que hoje há aqui uma imprensa livre, uma oposição agressiva, as pessoas dizem o que pensam sem serem molestadas. Provavelmente, no dia em que a oposição estiver no Governo, irá comportar-se da mesma forma.

Publicado em SAVANA (Moçambique) 24 Novembro 2006

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