Entrevista com o jornalista chileno Manuel Cabieses *

Beny Extremera    25.Feb.07    Outros autores

Manuel Cabieses
“A ditadura militar [no Chile] não consistiu apenas em Pinochet e nas Forças Armadas; também é necessário falar da aliança entre as Forças Armadas e sectores empresariais nacionais e estrangeiros. O tema não deve ser totalmente reduzido a Pinochet, que, na realidade, não tem o triste mérito de representar na sua totalidade o conjunto de factores que compunham a ditadura”.

Na “Punto Final” apenas fomos abrindo caminho. Serão os próprios povos, através das suas lutas, que vão delinear o socialismo do século XXI.

Em 1965, Manuel Cabieses e Mario Díaz fundaram a revista “Punto Final”. As suas páginas, que muito rapidamente receberam a colaboração e o incentivo de importantes escritores e intelectuais chilenos, foram o reflexo de um jornalismo rebelde, analítico, exaustivo e, sobretudo, empenhado na verdade. Em 1973, o golpe de Estado forçou o encerramento da revista e os seus jornalistas sofreram a dura sorte do exílio, da prisão ou da morte. Passados muitos anos, Cabieses recorda aqueles dias e repete modestamente que, na chegada a Cuba do “Diário do Che na Bolívia”, a equipa da “Punto Final” desempenhou apenas um papel, quase casual, de intermediário.

Em 11 de Setembro de 1973, o número 192 da “Punto Final” chegava aos quiosques e era apreendido pelos militares. Constituía um alerta contra a conspiração que teve, precisamente nesse dia, o seu sangrento desenlace. Na primeira página podiam ler-se os títulos “O Sul sob Regime Militar” e “Soldado, a pátria é das classes trabalhadoras”. Numa comunicação radiofónica, o próprio Pinochet ordenava: “Precisamente todo o pessoal que trabalha na ‘Punto Final’ deve ser detido”.

Os locais da publicação foram assaltados. A colecção da revista e o arquivo, com centenas de fotografias e documentos, desapareceram nas chamas. Augusto Olivares morreu em La Moneda. Jaime Barrios foi torturado e fuzilado; os seus restos mortais terão sido lançados ao mar.

Foi igualmente assassinado o cineasta e poeta Máximo Gedda Ortiz após terríveis torturas. Numa emboscada da DINA, foi baleado, em 1977, Augusto Carmona Acevedo. José Carrasco, depois de ter passado por campos de concentração e pelo exílio na Venezuela e no México, foi assassinado em 1986…

Cabieses esteve preso durante dois anos, exilou-se e regressou clandestinamente ao Chile no final dos anos 70. Assim se manteve até 1989, quando a “Punto Final” renasceu após 16 anos de encerramento forçado que, tal como disse, contam para a história da revista porque “o tempo perdido é um tempo que também nos pertence”. Hoje, aos 73 anos, mantém-se à frente da revista, que continua a ser um olhar crítico, de esquerda, sobre os temas mais urgentes da América Latina.

Pergunta - Foi apanhado de surpresa pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 1973?

Resposta – Não, a surpresa não foi grande. Eu era militante do Movimento da Esquerda Revolucionária, MIR, e estávamos conscientes de que iria haver um golpe e alertados para a grande possibilidade de que poderia ocorrer… O que foi realmente uma surpresa para mim e para a maioria dos meus camaradas, assim como para o Chile em geral, foi a brutalidade, a bestialidade desse golpe. A violência, o ódio que os militares desencadearam, e não apenas eles, mas também os seus comparsas civis. Foi algo de impressionante, de surpreendente e de inexplicável para muitas pessoas.

Por exemplo, nas prisões em que estive, um dos temas de conversa dos presos era este: por que motivo tinha havido o golpe, por que motivo os militares e seus comparsas civis actuavam com tal ferocidade. Não encontrávamos resposta, porque o governo de Unidade Popular não tinha cometido nenhum excesso, nenhum atropelo aos direitos humanos dos seus opositores, nem nada desse género.

Numa ocasião, conversando com um dirigente camponês que se encontrava preso comigo no campo prisional de Chacabuco, no norte do país, este referiu algo que talvez seja a explicação do que aconteceu, ou seja, que nós, gente de esquerda, nunca tínhamos sentido o ódio de classe que os nossos inimigos sentiam por nós. Nem sequer tínhamos tido a sensibilidade ou a astúcia de nos darmos conta desse ódio.

Na realidade, nós, os partidários da UP, as pessoas de esquerda que defendiam o governo de Allende, vistos com os olhos de hoje e da experiência, éramos de uma ingenuidade atroz. Pensávamos que o caminho que estávamos a seguir ia ser respeitado de acordo com as regras da Constituição e as leis… Isto é pura ficção, nunca acontecerá; já vimos o que sucedeu na Venezuela, todos os esforços que foram feitos para derrubar o presidente Chávez e dificultar a sua governação. Não tenho quaisquer dúvidas de que vão continuar a fazer o mesmo, porque, além disso, o inimigo dispõe, como dispunha no Chile, de uma série de recursos com que contorna a legalidade, tais como a propriedade dos meios de comunicação, uma série de recursos para continuar a conspirar e a pensar na possibilidade de um golpe ou crime político.

Pergunta - Manuel, que tinha em mente naquele dia de 1965 quando saiu com Mario Díaz à rua para vender o primeiro número da “Punto Final”?

Resposta - Não me lembro exactamente porquê, mas não era por nada de transcendente. Era antes uma enorme alegria ao constatarmos que tínhamos alcançado um objectivo, pois quando o projecto nasceu, relativamente modesto, a intenção era que fosse um instrumento para que jornalistas que se viam limitados e censurados nos seus meios de comunicação, como nos acontecia ao Mario e a mim, tivessem um espaço para escrever com plena liberdade sobre diversos temas.

Gostaria de falsear a história e dizer isto de forma mais significativa, dizer que tínhamos um grande projecto político, jornalístico, histórico, mas não. Aconteceu como na maioria das vezes na vida real: fomos abrindo caminho e fomo-nos dando conta de que tínhamos tido um certo êxito após um esforço inicial. A revista arrancou financiada com os nossos salários noutros meios de comunicação. Teve um nível de vendas aceitável para poder continuar, e demo-nos conta de que podíamos pôr este instrumento ao serviço das ideias políticas que partilhávamos com outros camaradas, em especial jornalistas, mas também advogados e de outros sectores.

Juntamente com oito ou dez camaradas, demos o passo seguinte: transformar a publicação numa revista propriamente dita, pois no princípio era uma espécie de folheto sobre um único tema. Tínhamos como elemento de união a nossa militância de esquerda, embora fossemos de vertentes distintas.

Assim cresceu e continuou a sair a revista – com os incidentes e vicissitudes já conhecidos – até hoje.

O CHILE, A AMÉRICA LATINA E O SOCIALISMO DO SÉCULO XXI

A morte de Pinochet foi um dos acontecimentos que puseram recentemente em evidência as questões pendentes da sociedade chilena, e os seus partidários continuam a gabar-se de que deixou um país próspero, a economia mais sólida da América Latina.

Resposta - É lamentável que tenha morrido sem ser condenado em nenhum dos numerosos processos que foram iniciados. E foram processos de todos os tipos, desde violações dos direitos humanos até ao saque de património do Estado, que enriqueceu Pinochet, a sua família e o seu círculo de poder. A primeira coisa que nos ocorre ao falar disto é essa dívida que ficou pendente.

Agora, com respeito ao fundo do teu comentário, há um facto real: a ditadura militar não consistiu apenas em Pinochet e nas Forças Armadas; também é necessário falar da aliança entre as Forças Armadas e sectores empresariais nacionais e estrangeiros. O tema não deve ser totalmente reduzido a Pinochet, que, na realidade, não tem o triste mérito de representar na sua totalidade o conjunto de factores que compunham a ditadura.

O facto é que essa ditadura instaurou um modelo económico, social, cultural, político, que se manteve quase intacto até hoje, em especial no domínio da economia. O que se instaurou no Chile foi um modelo de economia de mercado, neoliberal, talvez o mais desenvolvido e ao mesmo tempo o mais ortodoxo instaurado na América Latina, que se mantém ainda hoje sem protestos substanciais.

Os governos civis eleitos pelo povo desde 1990 até à data, apesar de serem compostos por partidos que foram opositores à ditadura e muito críticos do modelo neoliberal, mantiveram intacto o modelo económico, e esse modelo económico tem aspectos que permitem, sobretudo à propaganda favorável ao modelo e aos partidários de Pinochet, vangloriar-se do seu êxito: refiro-me a um baixo nível de inflação, à entrada de capital estrangeiro em quantidade, ao desenvolvimento de sectores de produção, à abertura de novos mercados. Uma economia que se baseia, pois, na mercantilização das relações em todos os planos, e que permite a uma parte da população viver de créditos, ter um elevado nível de vida baseado no endividamento.

Os sectores pinochetistas, de direita, aproveitam isto e sustentam que se os governos de concertação conservaram o modelo económico é porque reconhecem a sua validade.

Pergunta - Qual é então o caminho do Chile, se as coisas continuarem como estão?

Resposta – No Chile, é cada vez mais evidente a necessidade de construir uma alternativa real ao modelo neoliberal, não só no plano da economia, mas também no político, na constituição política do Estado e no seu reflexo do modelo económico; nos planos cultural, da educação, da saúde. Uma alternativa que se baseie fundamentalmente nas ideias que predominam hoje neste movimento de transformações políticas, económicas e sociais que estão a acontecer na América Latina, inspiradas no que, de forma genérica, se costuma identificar como socialismo do século XXI.

Uma alternativa real, no Chile, não pode deixar de se inspirar nessas ideias, porque esta necessidade decorre da constatação de que os governos da concertação de partidos pela democracia, que já contam 17 anos no governo, quase tantos como os que a ditadura militar esteve no poder, não têm qualquer intenção de mudar esse modelo.

O problema, porém, é não constatar apenas essa necessidade, mas também que há uma dispersão de forças sociais e políticas, um enfraquecimento da esquerda em geral que torna esta tarefa difícil.

Cada nova oportunidade, cada esperança de mudança frustrada converte-se num golpe, num retrocesso ou num atraso, e a mudança não vem…

Nada mudou no essencial. Aquilo a que poderíamos chamar as forças da mudança, ou a esquerda, as forças políticas, ideológicas, sociais, partidárias da mudança no Chile, estão muito diminuídas e muito fragmentadas.

Nos processos eleitorais, mais de 90% dos que votam fazem-no quer pela direita quer pela concertação, e ambas encarnam a defesa do modelo neoliberal. Apenas 5% votam pela alternativa a que podemos chamar de esquerda.

E isto deve-se ao facto de termos passado pela experiência de 17 anos de uma ditadura militar que aplicou o terrorismo de Estado a fundo, que fracturou, debilitou e, em alguns casos, liquidou fisicamente organizações políticas e sociais, de forma que a esquerda chilena ainda não conseguiu reconstruir-se. Está muito atomizada, muito fracturada por visões distintas por vezes muito dogmáticas, muito sectárias em alguns casos, que impediram até agora configurar um projecto político alternativo.

Estava a falar do socialismo do século XXI e a “Punto Final” celebrou o seu 40°aniversário com um seminário sobre este tema. O termo está a ser utilizado, mas não há uma definição clara, suficiente.

Pergunta - Qual é ela, para si, em traços gerais?

Resposta – Na revista “Punto Final” estamos a tentar ocupar-nos bastante deste tema, partindo do que estás a dizer. A verdade é que não existe uma proposta coerente sobre o que é e o que quer o socialismo do século XXI, porque é uma proposta que fundamentalmente foi apresentada pelo governo venezuelano e para a qual começam hoje a contribuir vários intelectuais, políticos, dirigentes sociais. Creio que vai demorar ainda algum tempo até podermos articular um sistema de ideias, de propostas, que contenha uma visão representativa de milhões de opiniões do que deveria ser o socialismo do século XXI.

Inevitavelmente, é um processo difícil, porque não se trata de reunir num determinado lugar os representantes deste e daquele partido para que debatam uma proposta de socialismo do século XXI e que daí saia uma proposta dos povos.

Penso que vai ter de ser ao contrário: serão os próprios povos, as organizações sociais e de base; os camponeses, os indígenas, os jovens, os diferentes sectores sociais latino-americanos, através das suas lutas e das suas experiências, que vão delineando as características que o socialismo do século XXI irá assumir.

Naturalmente, cada um de nós, tu, eu, cada latino-americano, tem na cabeça a sua própria ideia do que deveria ser o socialismo do século XXI.

Eu, nesta etapa tão inicial de um debate que vai ser tão rico, creio que essencialmente o socialismo do século XXI vai agrupar a diversidade, algo que o socialismo do século XX não foi capaz de acolher no seu seio. Refiro-me a entender o ser humano em toda a sua complexidade e não pretender que se podem fazer políticas uniformes para massas uniformes. Trata-se de povos em que existem contradições, compostos por seres humanos que têm aspirações diferentes, formas de expressão diferentes, formas culturais locais e regionais que devem ser respeitadas.

Na minha opinião, um dos aspectos fundamentais desse socialismo do século XXI é uma concepção de liberdade muito forte, que resgate para o socialismo uma bandeira essencial como a da liberdade ou outras que foram usurpadas aos revolucionários, às forças que lutam pelo socialismo, como por exemplo o respeito dos direitos humanos. Vê o que sucedeu no mundo: subitamente, as forças mais reaccionárias, mais retrógradas, converteram-se nos paladinos dos direitos humanos, quando é evidente que o respeito pelo ser humano é uma bandeira nossa, um princípio nosso.

Sabemos indubitavelmente que, sejam quais forem os ingredientes que o socialismo do século XXI contenha, o essencial é a justiça social.

Depois de uma primeira oportunidade histórica do socialismo no século XX, chega agora esta nova oportunidade na América Latina se observarmos os períodos históricos. Tivemos a queda do socialismo, o fim da história e o auge e crise do neoliberalismo e hoje fala-se de socialismo na América Latina…

Pergunta - Que conclusão tirou a este respeito?

Resposta - Que a América Latina é um continente mágico. Repara no que aconteceu. Permite-nos sermos muito optimistas sobre esta questão. Quem imaginaria que um tenente-coronel que em 1992 lidera uma insurreição, fracassa e é preso, é eleito presidente da república 6 anos depois, e enfrentou até agora nove eleições e plebiscitos, acumulando um apoio de mais de 60%?

Este tenente-coronel, golpista para as esquerdas de 1992 na América Latina, era muito suspeito. Foi ao Chile em 1994, quando saiu da prisão, ninguém o recebeu, nenhum dos partidos ou grupos de esquerda; claro que estamos a falar de um Chile traumatizado pela experiência militar, mas passou-se o mesmo noutros locais, a sua imagem para muitos era a de um militar golpista.

Quem iria imaginar que seria eleito, fazendo um projecto popular com apoio popular, de índole socialista e com tanta influência no continente, num processo que ultrapassa fronteiras? Quem iria imaginar que um indígena seria eleito presidente na Bolívia e iria dar início a um processo de transformações tão radicais, talvez as mais profundas da América do Sul?

Do mesmo modo, estão a acontecer outras coisas nestes poucos últimos anos. Muda o panorama na Argentina. Agora há esperança de mudança no Equador. O Brasil, uma das maiores potências do mundo, embora com as suas limitações, traz a este movimento uma importante projecção internacional.

Há algumas décadas, quando a Revolução Cubana triunfou, foi uma surpresa que desconcertou uma boa parte da esquerda latino-americana, e que foi encarada com dúvidas, desconfianças, por determinados sectores da esquerda. Agora não aconteceu exactamente o mesmo, porque são períodos históricos distintos, mas no fundo há um pouco disso: um renascimento, uma retoma de iniciativa pelas forças revolucionarias na América Latina, e não estou a falar de forças orgânicas nem de partidos, nem sequer de ideologias específicas, mas do sentimento revolucionário mais amplo que procura igualdade, dignidade, soberania.

O DIÁRIO DO CHE: FOMOS SIMPLES INTERMEDIÁRIOS

“Punto Final”, projecto para dizer verdades, estava no início e foi um exercício de compromisso, de vontades. Os seus fundadores, prestigiosos jornalistas e escritores, não recebiam salário e viviam do trabalho noutros meios de comunicação. Os números actuais, impressos a duas cores, mostram que continua a ser uma publicação humilde quanto a recursos materiais, sem a ostentação multicolor e publicitária que é regra comum actualmente.

No entanto, continua a ter leitores, talvez porque o que se encontra nas suas páginas também não seja regra comum actualmente.

Pergunta - Continua a ser precária a economia da “Punto Final”?

Resposta – A principal dificuldade que temos hoje em dia é o financiamento. No Chile, não há nenhum órgão da imprensa escrita ou audiovisual que possa subsistir sem publicidade paga. O Estado movimenta em publicidade cerca de 300 milhões de dólares por ano, e temos constatado que só beneficia alguns órgãos. Estamos a travar uma batalha na qual conseguimos integrar o Colégio de Jornalistas e outras organizações, mas sem resultados até agora. Não podemos pedir nada às empresas privadas, muito menos uma revista como a nossa, mas ao Estado sim. Então, estamos a travar essa batalha, apelámos para que se faça uma investigação sobre a distribuição da publicidade do Estado.

Na prática, não temos pessoal remunerado, jornalistas contratados. Pagamos algumas colaborações, poucas, outras pessoas trabalham puramente por simpatia e ganha-se a vida noutra coisa. Temos muitas limitações.

Para nós já não é fácil mandar alguém fazer uma reportagem dentro do próprio país, quanto mais no exterior. Subsistimos em condições materiais mínimas. Não podemos ser mais pobres do que somos.

Pergunta - Mas têm leitores?

Resposta - Sim, temos leitores. Mas digo-te, em abono da verdade, que temos menos leitores do que em 1973. É um problema geral, de muitos. Estamos a vender em bancas ou quiosques nas principais cidades do país uns 8 mil exemplares. Em 73 vendíamos mais do dobro, e houve números especiais, como o do “Diário do Che na Bolívia”, com 65 mil exemplares ou mais vendidos.

Pergunta - Há muitos jovens entre os leitores?

Resposta – Imagina que essa é uma das grandes surpresas que temos tido. Foram feitas pesquisas de opinião, não por nós, mas pelas empresas que procuram com sondagens periódicas estudar o público dos meios de comunicação para saber onde devem investir em publicidade, e foram divulgados dados sobre os leitores da “Punto Final”. A grande surpresa para nós é que a maioria dos leitores da “Punto Final” são jovens dos 15 aos 29 anos, de estratos socioeconómicos médios a baixos. Isto faz com que os anunciantes não se interessem por nós, porque se trata de um público leitor de baixo poder de compra, mas revela a juventude da revista e uma reacção positiva dos jovens. Eu próprio pensava que escrevíamos para velhos nostálgicos do socialismo. A “Punto Final” fez 41 anos sempre atenta à realidade latino-americana, com o valor acrescentado da sua perspectiva analítica.

Pergunta - Apesar das vicissitudes, conseguiram constituir um arquivo da “Punto Final”?

Resposta - Sim, não é mérito nosso. Um grupo de jovens chilenos e alemães tomou há um par de anos a iniciativa de pôr na Internet aquilo a que chamaram a colecção histórica da “Punto Final”, ou seja, desde a sua fundação em 1965 até ao encerramento em 11 de Setembro de 1973. Já está na Internet, excepto um número que não foi possível encontrar. Assim se tornou acessível a muitos a possibilidade de ler os materiais daquela época. Neste momento, já dispomos de um sitio na Internet que reproduz digitalmente a versão impressa da revista. Modestamente, creio que é uma revista com um valor histórico enorme para jovens e futuros investigadores sobre factos e processos do continente nestas décadas.

Pergunta - Que parte da sua história pessoal e da história da “Punto Final” representa o ter participado no envio para Cuba do “Diário do Che na Bolívia”?

Resposta - Chegou por acaso às nossas mãos. Há quem nos atribua o mérito e imagine toda uma operação misteriosa e nós dentro dela. Na realidade, fomos simples intermediários de quem enviava o Diário, Antonio Arguedas (Ministro do Interior da Bolívia) e pessoas próximas dele. Em 1968 não havia no Chile embaixada nem consulado cubano. Por algum motivo, Arguedas ou a sua família pensaram, talvez pelos artigos que viam na revista, que nós tínhamos algum vínculo com Cuba, que podíamos ser o canal que permitia levar para Cuba o “Diário do Che na Bolívia”.

A realidade é que sucedeu de imprevisto: um senhor bate à porta, pede-nos para conversarmos, explica-nos do que se trata e entrega-nos o Diário, que vinha em películas de 35 mm, ocultas nas capas de uns discos de acetato, com frontispícios do lago Titicaca e outras coisas da Bolívia. Não conhecíamos a caligrafia do Che, mas nessa altura estava no Chile um amigo cubano que a conhecia. Era uma caligrafia difícil, de médico. Confirmou-nos que era a caligrafia dele e então Mario Díaz, meu colega fundador da revista, levou tudo para Cuba, oculto nas suas coisas, e entregou-o a Manuel Piñeiro.

O Diário… foi publicado em Cuba em Julho de 1968. A nós, essa participação permitiu-nos publicá-lo para o Cone Sul na “Punto Final”, com 65 mil exemplares. Tivemos essa grande satisfação. Mas repito que o mérito de salvar o Diário… cabe a outros, nós fomos apenas os intermediários.

* Manuel Cabieses é membro do Júri de Literatura de Testemunho do Prémio “Casa de las Américas”

Tradução de Helena Leonor

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