Entrevista de John Catalinotto* ao Algeriepatriotique: O Tribunal Penal Internacional é uma ferramenta utilizada contra os países fracos  

Mohsen Abdelmoumen    01.May.14    Outros autores

John CatalinottoO Tribunal Penal Internacional, como quase todos os organismos das Nações Unidas, está controlado pelo imperialismo mundial. As versões precedentes do tribunal foram utilizadas contra países específicos; o Ruanda, a Jugoslávia, o Camboja. Mais tarde, o Tribunal Penal Internacional tornou-se essencialmente uma ferramenta política utilizada contra os líderes de países relativamente fracos concentrados na África.

Algeriepatriotique: Foi testemunha dos atentados do 11 de Setembro em Nova Iorque, acredita na versão oficial ou trata-se de «um trabalho interno» para usar um termo dos agentes secretos?
 
John Catalinotto: Trabalhava para uma empresa de seguros de saúde na torre n.o1 do World Trade Center. Felizmente tinha o hábito de chegar tarde ao trabalho. Nesse dia, estava ainda em casa quando o primeiro avião embateu. Liguei para o escritório e como ninguém respondeu, permaneci em casa. Alguns minutos mais tarde, soube que um segundo avião tinha embatido na torre n.o2. Vi imediatamente que a administração Bush ia utilizar esse acontecimento como pretexto para iniciar a guerra, fosse quem fosse o autor desses atentados. Nunca acreditei na versão oficial. Aqui, a classe dirigente mente a propósito de tudo o que é importante. Mas não creio que a administração tenha organizado e executado o ataque do 11 de Setembro. Uma conspiração dessa envergadura tão vasta requer unidade, lealdade, espírito de decisão e audácia tão completos, de dezenas até de centenas de pessoas, que era impossível. Mas se «trabalho interno» significar simplesmente que alguém dentro da CIA, deliberadamente omitiu um relatório do FBI anunciando que alguns terroristas poderiam ir sequestrar um avião, fica mais fácil de acreditar. Posso entender porque muitas pessoas estão convencidas de que se tratou de um «trabalho interno». O ataque do 11 de Setembro permitiu à administração Bush partir para a guerra no Afeganistão e no Iraque. É semelhante ao ataque de japonês de Pearl Harbour em 1941, que permitiu à administração Roosevelt entrar na Segunda Guerra mundial com um apoio total. O «síndrome do Vietname» tinha praticamente eliminado o patriotismo, o 11 de Setembro trouxe-o de volta.
 
A Administração Bush partiu para a guerra no Afeganistão e no Iraque, acha que já era um programa preparado com antecedência?
 
O Pentágono planifica todo o tipo de guerras em todo o mundo com antecedência. No que diz respeito ao Iraque, claro que houve uma conspiração. O imperialismo americano queria os recursos energéticos iraquianos. Muitas pessoas e empresas americanas esperavam enriquecer com a pilhagem do Iraque. Os neoconservadores da Administração Bush reuniram-se na semana do 11 de Setembro e combinaram a guerra contra o Iraque, embora sabendo que este nada tinha a ver com o atentado do 11 de Setembro. Os Estados Unidos já tinham empreendido uma guerra agressiva contra o Iraque em 1991. A administração Clinton quase começara uma guerra em Dezembro de 1998 com a «Raposa do Deserto». A guerra do Iraque esteve sempre na agenda de Bush, como revelou o secretário do Tesouro Paul O’Neil num livro de Ron Suskind, um antigo jornalista do Wall Street Journal. A administração Bush estava relativamente fraca antes do 11 de Setembro. Aproveitou a oportunidade criada pelos atentados e mobilizou-se para a guerra. Bush criou toda a espécie de leis no quadro do Patriot Act anulando qualquer oposição aos seus planos. Bush e o secretário de Estado Colin Powell e outros repetiram as mesmas mentiras 935 vezes no final de 2002 e em 2003 sobre as armas de «destruição em massa» iraquianas que não existiam. A «Grande Mentira» era destinada a convencer o Mundo de que os Estados Unidos tinham uma boa razão para atacar. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha procederam à invasão do Iraque sem o aval das Nações Unidas ou mesmo da OTAN em 20 de Março de 2003. Mas, tanto no Iraque como no Afeganistão, Washington subestimou a resistência popular. Após o colapso inicial, surgiu a resistência iraquiana e infligiu perdas aos ocupantes americanos. Só manipulando as diferenças entre os Iraquianos é que Washington impediu uma derrota humilhante. Os Estados Unidos causaram uma grande destruição e muitas vidas se perderam durante oito anos, com 2 milhões de mortos e 5 milhões de pessoas desalojadas. E a OTAN ocupa o Afeganistão há já doze anos.
 
Porque não são Bush e Blair julgados no Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, como é o caso dos presidentes africanos?
 
O Tribunal Penal Internacional, como quase todos os organismos das Nações Unidas, está controlado pelo imperialismo mundial. As versões precedentes do tribunal foram utilizadas contra países específicos; o Ruanda, a Jugoslávia, o Camboja. Mais tarde, o Tribunal Penal Internacional tornou-se essencialmente uma ferramenta política utilizada contra os líderes de países relativamente fracos concentrados na África. Nós, como organizações populares, «mantemos tribunais de crimes de guerra», aqueles que provaram a culpabilidade de Blair, Bush e os seus generais no Iraque. Infelizmente somos incapazes de fazer aplicar um único desses veredictos. Servem para expor a verdade sobre a guerra ao público. Não queremos que os imperialistas sejam os únicos a escrever a História.
 
O movimento antiguerra continua activo nos Estados Unidos?
 
O movimento contra a guerra estava extremamente activo nos anos 60 e no princípio dos anos 70, contra a guerra no Vietname. Tínhamos até organizado a resistência dentro do exército dos Estados Unidos. O movimento contra a guerra saiu também às ruas para tentar parar a invasão do Iraque desde 2003. A administração Bush simplesmente ignorou as centenas de milhares de opositores e continuou a guerra. Os meus companheiros de trabalho do Centro de Acção Internacional procuram sempre organizar-se e mobilizar contra as aventuras militares americanas. Em 2011, protestaram contra o ataque à Líbia. Em Setembro de 2013, saíram em 100 cidades contra a ameaça de Washington de intervir directamente na Síria. Só no mês de Março, saímos em 19 cidades para protestar contra o complot dos Estados Unidos com os elementos fascistas na Venezuela e Ucrânia. A maioria da população americana está na ignorância das verdadeiras razões de todos estes conflitos. O monopólio dos media da classe dirigente controla 99% da propaganda. Mas as pessoas são contra a guerra em larga maioria. Sobre a Síria as sondagens mostram que cerca de 90% da população se opunha à guerra. Mas seria um erro dizer que as pessoas são combativas. No passado, só se opuseram quando milhares de jovens americanos iam morrer numa aventura imperialista do outro lado do mundo. Quando há poucas perdas, só se levantam alguns por convicção moral ou anti-imperialista. Mas anima constatar que pessoas como Snowden ou Manning podem fazer grandes sacrifícios para se rebelarem contra as atrocidades cometidas pelos dirigentes.
 
Como explica a mudança radical da posição americana no dossier iraniano?
 
Não tenho a certeza de ter mudado assim tanto. Há ainda facções fortes na classe dirigente dos Estados Unidos que querem um ataque ao Irão, como o senador John McCain. É também o caso do governo de Israel. Outros esperam conseguir mudanças no governo iraniano, para que este aceite melhor o domínio americano da região, parece ser essa a posição actual da Administração. Desde o fim da URSS em 1991, o imperialismo americano não tolera qualquer concorrência, qualquer independência de outros Estados em qualquer região do globo. O Irão é suficientemente grande e soberano para desafiar os Estados Unidos, e Washington procura esmagar todos os que desafiam os Estados Unidos. Se os Estados Unidos recuaram, é apenas porque Washington está implicado em demasiados combates, indo da Ucrânia ao «pivot pela Ásia».
 
Podemos dizer que a CIA mudou os seus métodos quando vemos o que se passa na Ucrânia e na Venezuela?
 
A CIA tem como tarefa principal a colheita de informações. O governo americano utiliza essas informações para influenciar e pressionar governos para que eles ajam no interesse dos bancos, das indústrias americanas e do Pentágono. A CIA efectua assim acções: por exemplo, as guerras de drones. Por outro lado, conjuntamente com outras agências — a NED, as ONG, etc. —, intervém a todos os níveis para mobilizar a oposição a fim de que os governos sigam a via de Washington. Na Venezuela, todas essas agências americanas encontram meios para financiar a oposição venezuelana aos Bolivarianos, ao PSUV e a Nicolas Maduro. A CIA e outros têm mesmo encorajado elementos quase fascistas a sair à rua com barragens de fogo e a matar pessoas. Depois, os media pró-imperialistas mentem a propósito destes acontecimentos e acusam a «repressão de Maduro» como responsável por perdas humanas. É uma grande mentira. Na Ucrânia, os Estados Unidos e a União Europeia aproveitam-se das fraquezas do governo de Ianoukovytch. Os imperialistas levaram o seu apoio a oligarcas corruptos que queriam pôr a Ucrânia nas mãos do imperialismo ocidental e colocar a OTAN ao longo da fronteira sudoeste da Rússia. Ou seja, os Estados Unidos e a União Europeia apoiaram a entrada de partidos abertamente fascistas no governo de Kiev. Líderes fascistas tomaram o controle da polícia, do exército e do aparelho de segurança. Segundo as audições de 1975 do comité de senadores dirigido pelo senador Frank Church, a CIA renunciara a algumas das suas actividades, ou pelo menos foi o que nos afirmaram. Desde o 11 de Setembro, a CIA tornou-se cada vez mais agressiva, ela e outras agências americanas tentam sabotar os governos do mundo inteiro.
 
Que lhe inspira a Argélia e que pode dizer ao povo argelino, como militante anti-imperialista?
 
A Argélia tem uma história de resistência ao domínio colonial francês desde os primeiros ataques em 1830. As populações rurais, do deserto e das montanhas bateram-se duramente contra os militares franceses. Só as medidas mais cruéis — como aldeias inteiras queimadas — conseguiram vencer essa resistência. Quando começaram a última guerra de libertação em 1954, foram outros oito anos de resistência. Mais de um milhão dos seis milhões de argelinos morreram na guerra de libertação. Mas a resistência foi heróica e eficaz, esmagou o imperialismo até o governo de De Gaulle aceitar partir. Como as lutas na Coreia, na China, no Vietname, em Cuba, e outros lugares, a luta argelina pela independência foi uma inspiração para os revolucionários dos Estados Unidos. O papel das mulheres nesta luta foi fantástico. Nos primeiros anos, a Argélia livre teve um grande impacto, principalmente na luta de libertação dos negros nos Estados Unidos. Os Argelinos — árabes e berberes, laicos e religiosos — têm o direito de sentir orgulho na sua história de resistência ao imperialismo que é uma contribuição para toda a humanidade.
 
É membro do Tribunal BRussell’s que inclui personalidades como o Dr. Mahathir, antigo primeiro-ministro da Malásia, Noam Chomsky, Edward S. Herman, William Blum, David Swanson e muitos outros. Pode explicar-nos o que é o Tribunal BRussell’s?
 
O Tribunal BRussell’s  inspirou-se no Tribunal Bertrand Russell de 1967 que declarou que os Estados eram culpados de crimes de guerra contra o Vietname. Os companheiros da Bélgica iniciaram o Tribunal BRussel’s em 2003 após a invasão do Iraque. O TB manteve sessões sobre o processo de guerra de Bush e Blair na primavera de 2004. Participámos com o Centro de Acção Internacional. Depois, tivemos uma sessão nos Estados Unidos em Agosto de 2004 e demos o nosso apoio ao TB, como outras organizações semelhantes noutros países. Este ano, a 16 e 17 de Abril, o Tribunal BRussell’s teve uma reunião em Bruxelas no enquadramento da Associação Internacional dos juristas democratas para estudar as medidas legais que permitam processos judiciais contra os governos americano e britânico pela sua agressão ao Iraque. O BRussel’s procura meios de obter indemnizações para as vítimas. O BRussel’s manteve o trabalho solidário com a resistência iraquiana ao imperialismo. Alargou também a sua oposição ao imperialismo noutras partes do Médio Oriente e à agressão da OTAN. Tenho orgulho em ser membro do BRussell’s.
 
Na sua opinião, o mundo árabe-muçulmano está condenado a sofrer perpetuamente guerras imperialistas americanas e ocidentais?
 
A partir de 1945, a União Soviética era a força mais poderosa perante o imperialismo americano. Nos 23 anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, o mundo imperialista, liderado pelos Estados Unidos, tentou conquistar as nações que conseguiram a sua independência do imperialismo na época da guerra-fria. É o que aconteceu na Jugoslávia, no Iraque, no Afeganistão e na Líbia. A Venezuela, a Síria e a Ucrânia estão sob ataque. O mundo árabe-muçulmano está também na posse de enormes recursos petrolíferos, assim como a Venezuela e constitui um alvo particularmente atractivo para o imperialismo, mas não é o único alvo. A Coreia do Norte, a Venezuela, e até a China e a Rússia enfrentam ameaças. Toda a Africa está hoje ameaçada pelas expedições militares americanas e francesas, a América Latina enfrenta a subversão a todos os níveis. O mundo imperialista enfrenta uma crise económica profunda e insolúvel, e essa crise obriga-o a mais aventuras militares. Nessas circunstâncias seria absurdo da minha parte sugerir que possa existir um futuro tranquilo no mundo árabe-muçulmano ou em qualquer outro. O que nós, revolucionários, nos Estados Unidos esperamos é que a luta de classes aumente dentro dos Estados Unidos e que um número cada vez maior de trabalhadores adira a ela. A crise capitalista obriga-os a resistir. Se essa luta se desenvolver, então podemos manter os dirigentes suficientemente activos em casa para não se ocuparam de novas aventuras no exterior. Daríamos assim uma contribuição digna de interesse à humanidade.
 
Entrevista realizada por Mohsen Abdelmoumen
 
 
*John Catalinotto nasceu em Nova Iorque, onde ensina Matemáticas na City University. Anti-imperialista declarado desde a crise dos mísseis de Cuba em Outubro de 1962, militou de 1967 a 1971 como organizador civil contra a guerra e anti-racista dentro da União de Servidores Americanos contra a guerra do Vietname. Membro dos Centros da Acção Internacional (IAC) fundada em 1991 por Ramsey Clark, militante dos direitos humanos e antigo ministro da Justiça, é desde 1999 porta-voz do IAC em conferências internacionais. Colaborou de 2001 a 2004 na Coalition Answer fundada em 2001 para desmascarar a propaganda belicista depois dos atentados de 11 de Setembro. Foi militante do Comité de apoio para libertação do Médio Oriente, trouxe o seu apoio à coordenação internacional dos opositores da guerra do Iraque, e desde 1982 é redactor-chefe do jornal hebdomadário Workers World. Foi um dos organizadores principais do Centro de Acção internacional do tribunal da Jugoslávia (em Junho de 2000) e do Tribunal sobre o Iraque (Agosto de 2004). Colabora com o diário.info  (Portugal) e Terra e Tempo (Galiza), é membro dos tradutores Tlaxcala e do Tribunal BRussells’s. Publicou dois livros, Metal da Desonra sobre o urânio empobrecido (1997) e Agenda Oculta  – A Conquista da Jugoslávia pelos Estados Unidos-NATO  (2002).    

 

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