Equador e Venezuela - Cresce a onda de mudanças

Narciso Isa Conde    03.Dic.06    Colaboradores

“Ninguém deve admirar-se pelas dúvidas e desconfiança num país onde Lúcio Gutierrez fez o que fez, atrasando a possibilidade de um projecto alternativo, claramente abraçado por uma grande parte da sociedade. De qualquer forma foram palavras muito melhor articuladas e mais comprometedoras, geradoras de uma consciência transformadora mais extensa e mais profunda que as proferidas em campanha anteriores”

Se a vitória de Rafael Correia e da Aliança País parecia difícil ma primeira volta, foi porque o voto antidireita, antioligraquia, antiBush… estava parcialmente dividido.
Na segunda volta prevaleceu o sadio temor à conversão do Equador numa herdade ou empresa sob o controlo privado e a tutela absoluta dos falcões de Washington. A herdade de mister Noboa e mister Bush ou a maquia deles e dos seus associados nessa perversa sociedade.
Valeu o interesse pela mudança, independentemente de quem o encabeçava. E certamente Rafael Correia tinha formulado compromissos muito sérios para transformações muito sérias: justa distribuição do rendimento petrolífero, nada de neoliberalismos, não ao TLC, não à base militar estadunidense em Manta, não ao FMI, não ao Banco Mundial, programa de desenvolvimento agro-pecuário e industrial, distância em relação ao Plano Colômbia, defesa dos emigrantes, resgate da soberania, amizade com Chávez e Cuba, discurso anticapitalista e defesa do projecto socialista do século XXI.
Poderia dizer-se que são só palavras, mas certamente ninguém deve admirar-se pelas dúvidas e desconfiança num país onde Lúcio Gutierrez fez o que fez, atrasando a possibilidade de um projecto alternativo, claramente abraçado por uma grande parte da sociedade.
De qualquer forma foram palavras muito melhor articuladas e mais comprometedoras, geradoras de uma consciência transformadora mais extensa e mais profunda que as proferidas em campanha anteriores.
Palavras que a não serem cumpridas pulverizam em pouco tempo qualquer liderança, sobretudo nas actuais condições do Equador.
Por isso não duvidamos de que essa vitória foi altamente positiva, evidenciando, uma vez mais, a força da onda transformadora continental.
Uma onda em ascensão e expansão, cujos ritmos e obstáculos variam. Tal como a sua profundidade. Mas seja uma vez em cilindros [rodillos], outras em tractores, em autocarros ou de automóvel de alta velocidade não se detém. Avança, cresce, multiplica-se.
Um grande alento para a Venezuela bolivariana.
Um estímulo para as forças da mudança na Colômbia, reforçado pelo compromisso expresso do presidente eleito Rafael Correa de não aceitar o qualificativo de “terroristas” para as FARC e de não favorecer o Plano Colômbia de Bush e Uribe, sob qualquer ponto de vista dirigido contra a soberania da região amazónica.
No Equador há um sentimento profundo de amizade para com o povo colombiano e um grande respeito e admiração pela insurreição armada e com todas as forças políticas e sociais da mudança.
Essa realidade – e convicções firmes – explicam esse passo audacioso de distanciação em relação aos promotores do estigma e do descrédito das heróicas FARC.
Uma contribuição de inestimável valor. Um gesto de vanguarda que deve expandir-se por toda a América, fortalecer-se na Venezuela, no Brasil, no Uruguai, em Cuba…; assumir-se a partir de todas as forças progressistas e revolucionárias do continente e do mundo.

O persistente movimento revolucionário colombiano, agressiva e tenazmente acossado pelo novo imperialismo, necessita de mais oxigénio, maiores espaços, maior solidariedade. E a atitude de Rafael Correa e da Aliança País apontam nessa correcta direcção. Imitá-la é uma questão de honra e justiça.

Se antes não havia dúvida sobre a iminente reeleição de Chávez, depois do sucedido no Equador, fortalece-se a tendência não apenas para ganhar mas também para envolver.

A nossa América, ao fim de contas é uma e o destino de um influi sobre os restantes, principalmente com tanta proximidade.

O processo para a revolução na Venezuela fortaleceu as correntes pela mudança no Equador e a mudança no Equador tem um impacto positivo na campanha eleitoral bolivariana e todos os processos de acumulação de forças transformadoras da nossa América.

A Cuba ninguém pode pedir mais que a enorme contribuição da sua resistência digna e heróica. E certamente deu muito mais do que isso, como parte do “eixo do mal”.

O Equador tem todas as condições para entrar num processo de acompanhamento da Venezuela, Cuba e Bolívia, como parte da parte mais avançada dos governos montados nesta nova onda transformadora regional.

O ALBA tende a crescer, tal como o Bloco Regional de Poder Popular.

A Coordenadora Continental Bolivariana (CCB), que com tanta persistência defendeu a necessidade de expandir o vagalhão e articular as suas forças de vanguarda, tem agora mais razões e possibilidades para avançar nessa direcção.

A vitória do passado domingo no Equador terá de ser reforçada pela de domingo 3 de Dezembro na Venezuela, chamada a desbravar o caminho do trânsito à sociedade pós-neoliberal, de essência profundamente antiimperialista e anticapitalista; o trânsito pós-neoliberal para o socialismo do século XXI, para o novo socialismo que temos o dever de recriar com pensamento e acções.

Mas não se pode dormir à sombra dos louros. O império decadente, pentagonizado e ferido tratará de lançar sucessivas contra-ofensivas que haverá que derrotar. Uma por uma, TODAS!

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