Esmiuçar o que nos contam

Correia da Fonseca*    24.Oct.09    Colaboradores

Correia da Fonseca Apesar de as TV se inserirem numa estratégia de adormecimento da consciencialização que nos permite compreender a essência das coisas, acontece que por vezes noticiam factos verdadeiramente importantes:
“Foi o que aconteceu há dias quando, perante uma medida legislativa que tendia a limitar abusos correntemente praticados pelos bancos sobre os seus clientes, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos veio, com uma espantosa insolência só explicável pela certeza da impunidade e também pela ausência de pudor, garantir que os bancos não ficariam a perder e que Sua Majestade, a Banca, iria de imediato encontrar outros caminhos que lhe garantissem o prosseguimento da espoliação. Como aliás era inevitável, a TV deu a notícia, mas dispensou-se de lhe dar o relevo que bem se justificava não apenas pela arrogância da atitude mas também e sobretudo pelo que ela revelava” – onde reside o poder numa democracia parlamentar de fachada democrática.

O programa com que o Gato Fedorento reapareceu marcou uma espécie de ressurreição do grupo que, na verdade, parecia ter resvalado para uma espécie de morte anunciada e nos seus piores momentos começava de facto a cheirar pouco bem. É certo que o êxito da sua reaparição se deve quase exclusivamente aos méritos de Ricardo Araújo Pereira e que, em boa verdade, as entrevistas que preenchem o programa pouco ou nada «esmiúçam os sufrágios», faltando assim à tarefa, aliás de difícil cumprimento, que o seu título promete.

Com mais acerto se diria serem os entrevistados os esmiuçados na sua capacidade para encararem com fair play efectivo ou aparente as alusões por vezes incómodas que Ricardo Araújo Pereira lhes lança. De qualquer modo, parece certo que «O Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios» foi uma aposta ganha, e que o humor inteligente e cuidadosamente medido do elemento que é indiscutivelmente o líder do grupo recoloca o humor na televisão no tom certo ou, pelo menos, no melhor dos tons possíveis.

Acontece, porém, que o título do programa tem a utilidade complementar de lembrar a conveniência, se não a indispensabilidade, de que todos nós, telespectadores, esmiucemos não apenas os sufrágios, tarefa de oportunidade apenas cíclica que só este ano invulgarmente eleitoral permitiu ser mais intensa, mas também e sobretudo toda a massa informativa que diariamente a TV nos fornece ao domicílio. É sabido, quando não esquecido, que a televisão como que nos pastoreia, com perdão do sentido depreciativo que a palavra implique, considerando-nos como uma espécie de rebanho por ela conduzido para onde mais lhe convém e aos que factualmente a comandam.

São lugares afinal conhecidos: a superficialidade, o consumismo, a aceitação de ideias falsas como se fossem pilares da sabedoria, a resignação perante uma sociedade iníqua mas supostamente sem alternativa. Dir-se-ia que, de perfil fútil, inescrupulosa, a televisão age sobre nós como, ao que consta, o próprio Deus terá agido, e nos quer à sua imagem e semelhança.

É para resistirmos a essa inoculação quotidiana que é preciso encarar com cuidado, porventura com alguma suspeição ainda que mínima, o que a TV nos vem contar, cuidado este que se acrescenta com a atenção possível para o que ela não nos conta ou conta mal. Mas tudo isto não implica que não a ouçamos, até porque entre muito excipiente supérfluo ou estrategicamente empolado surgem, não tão poucas vezes quanto poderia recear-se, notícias verdadeiramente importantes e/ou significativas.

Foi o que aconteceu há dias quando, perante uma medida legislativa que tendia a limitar abusos correntemente praticados pelos bancos sobre os seus clientes, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos veio, com uma espantosa insolência só explicável pela certeza da impunidade e também pela ausência de pudor, garantir que os bancos não ficariam a perder e que Sua Majestade, a Banca, iria de imediato encontrar outros caminhos que lhe garantissem o prosseguimento da espoliação. Como aliás era inevitável, a TV deu a notícia, mas dispensou-se de lhe dar o relevo que bem se justificava não apenas pela arrogância da atitude mas também e sobretudo pelo que ela revelava.

E o que ela revelava é simples: que quem manda no nosso País não é o governo resultante de «eleições livres e limpas» mas sim a banca, isto é o poder financeiro que se completa e aliás se confunde com o poder do grande empresariado. É esse poder que faz o que quer, que de facto desobedece quanto lhe apetece ao poder político que, de resto, condicionou desde a sua mais remota origem.

Depois de conhecermos episódios como este, relativamente minúsculos porque outros de maior dimensão não chegam a constituir-se como notícia, podemos, é claro, falar de «democracia consolidada», como tantas vezes ouvimos na TV. Mas somos subitamente alertados para a verdadeira natureza das coisas, isto é, do regime em que vivemos.

Uma notícia destas será afinal um pormenor, mas é um pormenor que tem o valor de um sinal. E é por isso que devemos aplicarmo-nos a «esmiuçar» as notícias que a televisão nos traz. É uma espécie de pesquisa de sinais interessantes, por vezes apenas vestígios, eventualmente eloquentes. Sucedendo que do conjunto deles pode emergir um esboço, ainda que débil e incompleto, da informação que deveríamos ter e não temos.

* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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