Espanha, ao serviço do imperialismo dos EUA

Lidia Falcón    07.May.19    Outros autores

A derrota da mais recente tentativa de golpe por parte do fantoche Guaidó não só não terá detido a ofensiva dos EUA como irá provavelmente irá fazê-la assumir contornos ainda mais agressivos. É isso que há a esperar de fascistas como Bolton, Pompeo ou Elliott Abrams. E os governos que alinham ao lado dos EUA na criminosa ofensiva contra a Venezuela bolivariana serão tão responsáveis pelo que venha ainda a acontecer como os delinquentes instalados na Casa Branca.

O nosso governo é o mais fiel servidor do Departamento de Estado dos EUA. Reconhecer o golpista venezuelano Guaidó como legítimo presidente da Venezuela, aceitar um enviado deste como seu representante diplomático e agora alojar Leopoldo López e sua família na embaixada espanhola em Caracas excede em muito aquilo de que eu acreditava serem capazes Pedro Sánchez e o seu governo para cumprirem as ordens de Donald Trump.
Nunca na história das nossas relações internacionais, especialmente com a América Latina, os governos espanhóis, nem sequer os da ditadura, mostraram um servilismo, uma entrega tão absoluta aos desejos e ordens do império norte-americano.
E Sanchez não só aceitou esse fantoche de Guaidó que se autoproclama presidente da Venezuela, cargo para que ninguém o escolheu nem existe legislação nacional ou internacional que o sustente, como a propaganda oficial, expressa em repetidas declarações do Primeiro-Ministro e do seu ilustre ministro dos Estrangeiros, Josep Borrell – o que nos explicou que os mísseis que enviamos para a Arábia Saudita são tão inteligentes que só matam quem têm que matar - se dedica a enganar o povo espanhol.
Nicolás Maduro foi eleito pelo povo venezuelano em eleições livres, absolutamente legais e legítimas. O governo bolivariano ganhou as eleições 19 vezes em 20! Os observadores internacionais que acompanharam as numerosas eleições realizadas no país, explicaram que o sistema de votação, distribuição dos círculos eleitorais e contagem de votos têm todas as garantias, com uma segurança bem acima da que existe nos EUA, cujas suspeitas de várias chapeladas se tornaram famosas.
A afirmação repetida de que o regime venezuelano é uma ditadura ficará escrita para a história como uma das grandes infâmias da propaganda política espanhola. Na Venezuela existem todos os tipos de partidos políticos, desde o Partido Comunista aos de extrema-direita como o que acolhe Guaidó e Leopoldo Lopez, que têm sedes abertas e fazem diariamente a sua propaganda, se apresentam a eleições que são convocadas cumprindo os prazos constitucionais, e realizam as campanhas sem qualquer obstáculo. No país publicam-se dezenas de jornais, revistas, panfletos e livros, são emitidos programas de rádio e televisão, celebram-se conferências, simpósios, debates, da oposição - fragmentada em vários partidos -, em que se critica acerbamente o regime bolivariano sem que ninguém o impeça. Quando hoje, 3 de Maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, as associações de jornalistas nos dizem que no México 100 profissionais foram mortos desde 2006, quatro neste ano, o último ontem. Que inclusivamente na isso sucede Europa: Eslováquia e Malta, dois foram vítimas de tiroteios, um homem e uma mulher, sem que esses crimes fossem esclarecidos; em Espanha os grandes meios de comunicação ao serviço do capital, apenas balbuciam que na Venezuela se persegue a livre informação, sem que nenhum ofereça dados ou números concretos de tal perseguição.
Para os espanhóis deveria ser insultuoso que se afirme que o regime Maduro é uma ditadura, quando todos os dias da Televisão Espanhola nos apresenta imagens de comícios, manifestações, conferências de imprensa, públicas e multitudinárias que a oposição monta nas ruas, oposição que se levantou em rebelião tentando usurpar a presidência a Maduro. Para um país como a Espanha que sofreu uma das mais cruéis ditaduras do mundo durante quarenta anos, deveria ser motivo de indignação ouvir seu primeiro-ministro, eleito democraticamente, e os seus ministros declarar, declararem que na Venezuela se vive uma ditadura.
O governo venezuelano manifesta uma permissividade impensável em França ou na Alemanha ante as proclamações de políticos da oposição que incitam a população civil a sublevar-se e, o mais perigoso de tudo, o Exército. Nesses países, como em tantos outros democráticos, tais apelos seriam imediatamente reprimidos e aprisionados aqueles que o fizessem.
Leopoldo López foi condenado a quinze anos de prisão por incitar, ordenar e organizar, com outros sequazes dos partidos de direita, as “guarimbas”, distúrbios desencadeados por turbas de delinquentes e mercenários em 2014, durante vários meses, e que causaram dezenas de mortos, destruição de mobiliário público, incêndios de escolas e hospitais, assaltos e ferimentos à população civil e forças da ordem.
A oligarquia venezuelana, com a cumplicidade da burguesia e da classe média reaccionárias, vem sabotando o regime socialista bolivariano desde que este se implantou. Nenhuma delas quer abandonar os privilégios de serem os lacaios dos EUA e deixar de granjear os benefícios dos subornos e comissões que recebem pela entrega de petróleo às grandes empresas norte-americanas, enquanto o povo venezuelano vivia em barracas de papelão nas colinas, sem água, descalço, faminto e infestado de parasitas.
O governo bolivariano montou a saúde e a educação públicas, que não existiam; criou uma dúzia de universidades populares; construiu milhares de casas, com serviços de electricidade e água corrente, para os trabalhadores, e facilitou às mulheres a possibilidade de organizar um Movimento Feminista que se estende por todo o país. E tudo isso não pode ser tolerado pela burguesia que reinou na Venezuela durante duzentos anos, apropriando-se dos recursos naturais do país e afundando o povo na miséria.
Para cúmulo da tolerância que o presidente Maduro e seus ministros, o procurador-geral do Estado e a polícia responsável pela supressão dos motins estão mostrando, o criminoso Leopoldo Lopez, que rompeu a prisão domiciliar em que confortavelmente cumpria a sua sentença, apresenta-se ante a imprensa na entrada da embaixada espanhola e dedica-se durante mais de meia hora a fazer declarações subversivas que pretendem exaltar o ânimo da população e conseguir que o exército se subleve contra o presidente legítimo, sem que seja imediatamente detido. Seria bom recordar a reclusão que Julian Assange suportou durante sete anos por não poder sair nem à porta da embaixada equatoriana em Londres, e como foi detido e preso recentemente por actos muitíssimo menos perigosos do que aqueles que os políticos da direita venezuelana vêm há anos cometendo.
O embargo dos recursos financeiros e dos produtos de primeira necessidade, bem como a queda dos preços do petróleo, organizados pelos os EUA, levaram o país à situação de escassez econômica que agora denunciam Guaidó e seus comparsas, quando são eles os principais instigadores e cúmplices de semelhante situação. Porque a direita venezuelana, como a do mundo inteiro, antes mergulhará seu povo na miséria e o levará a um confronto armado em que será massacrado, do que aceitará que no seu país se construa o socialismo.
E não só a conduta dos EUA na Venezuela deveria ser motivo de condenação internacional, em vez das miseráveis ​​genuflexões que os governos europeus fazem a fim de servir o império, como a acção do governo daquele país durante quase duzentos anos teria de ser objecto de repúdio para qualquer político decente.
Desde 1846, o Exército dos EUA invadiu quase todos os países a sul do Rio Grande, começando com uma infame guerra em que arrebatou ao México o norte do seu território, incluindo os estados da Califórnia e do Texas. Em 1898, o governo dos EUA provocou a guerra contra a Espanha em Cuba e, com a sua derrota, o nosso país teve que ceder Porto Rico, Havaí, Guam e Filipinas. A partir desse momento o Panamá, República Dominicana, Honduras, Granada, El Salvador, Cuba, Guatemala, Brasil, Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia, Venezuela, foram ocupadas militarmente, bombardeadas, saqueadas, economicamente intervencionadas, impostos os seus governantes e falsificadas as sua eleições pelo Departamento de Estado dos EUA e pela CIA.
Esses acontecimentos fazem parte da história da América Latina, e não será o nosso governo quem possa fingir ignorância. Os recursos naturais das nações a sul do Rio Grande foram e são vítimas da ânsia predatória e imperialista do seu vizinho do norte, que todos temem. Apenas alguns lacaios ao serviço da indústria militar dos EUA e do Capital podem posicionar-se de acordo com os ditames de Trump, como fazem os governos europeus e o nosso, que estão a obedecer às ordens recebidas de Washington.
Certamente as genuflexões que o governo espanhol realiza diante de Marrocos e Arábia Saudita, aliados fervorosos dos EUA, para apoiar os seus desmandos, não permitiram esperar deste PSOE, tão socialista, uma posição de dignidade e independência contra o império norte-americano, mas o que está a fazer com a Venezuela excede em muito o que o povo espanhol merece e deve suportar. Porque o regime bolivariano há vinte anos tenta construir uma sociedade mais justa e solidária em paz, sem que as forças da oligarquia o tenham consentido. Para isso têm o enorme apoio do governo dos EUA.
Se esta operação derivar para uma intervenção militar dos EUA na Venezuela, que o golpista Guaidó reclama todos os dias e que Trump parece encantado em realizar, e acontecem milhares de vítimas e a derrota do povo, o governo de Pedro Sánchez será tão culpado como Trump, e a Espanha escreverá uma das mais vergonhosas páginas da sua história.

Fonte: https://blogs.publico.es/lidia-falcon/2019/05/04/espana-al-servicio-del-imperialismo-estadounidense/

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