Esquecida para o Nobel: Lise Meitner

Margaret Harris    12.Oct.20    Outros autores

Na altura do ano em que vêm sendo reveladas as atribuições de prémios Nobel, a oportuna evocação de uma grande cientista, codescobridora da fissão nuclear, a quem nunca foi atribuído. Permanecem muito longamente preconceitos – de vária ordem - na atribuição dos prémios.

A descoberta da fissão nuclear em 1938 está entre os mais importantes acontecimentos da física do século XX. Em sete anos, esse avanço experimental e teórico - realizado em conjunto por Otto Hahn e Fritz Strassmann, que obtiveram os dados, e por Lise Meitner e Otto Frisch, que os interpretaram - levou às primeiras armas atómicas. Menos de uma década mais tarde, levou às primeiras geradoras nucleares. Se alguma vez houve uma descoberta que deveria ter dado aos seus instigadores o Prémio Nobel de Física, é certamente a fissão nuclear.

Mas não foi isso que aconteceu. Embora os termos do legado de Alfred Nobel tivessem permitido que três de entre Hahn, Frisch, Meitner e Strassmann compartilhassem um prémio, apenas Hahn recebeu a aprovação, tornando-se o único destinatário do Prémio Nobel de Química de 1944 “pela sua descoberta da fissão de núcleos pesados”. As contribuições de Frisch, Meitner e Strassmann foram relegadas para poucas linhas no discurso oficial de apresentação do Nobel, que ocorreu em Dezembro de 1945. Esse mesmo discurso, aliás, afirma que Hahn “nunca sonhou em dar ao Homem o controlo sobre a energia atómica” – o que é um pouco exagerado, uma vez que Hahn trabalhou no programa nazi de armas atómicas e na verdade ainda estava na altura encarcerado pelas autoridades britânicas.

O Prêmio Nobel de Química de 1944 representa um forte desafio para qualquer pessoa que afirme que os Nobel são justos ou que reflectem como funciona a ciência colaborativa. Strassmann, a quem o discurso de apresentação designou paternalisticamente como “um dos jovens colegas [de Hahn]”, fora de facto seu assistente durante quase uma década. Em grande parte desse período, Strassmann trabalhou por meio ou nenhum salário; a sua oposição ao regime nazi significou ser colocado na lista negra para outros empregos, deixando-o dependente de Hahn e incapaz de desenvolver uma carreira a solo. Meitner saiu um pouco melhor no discurso, já que este pelo menos a reconheceu como colaboradora de Hahn durante mais de 30 anos. Não mencionada, porém, é a razão pela qual ela esteve ausente durante as cruciais experiências de 1938: Meitner, tal como o seu sobrinho Frisch, era uma judia étnica, e a sua conversão ao protestantismo 30 anos antes não a protegeu da predação nazi. No verão de 1938, tanto Meitner como Frisch foram forçados a fugir da Alemanha. Fizeram as suas contribuições seminais para a fissão no exílio, comunicando por carta e telefone com Hahn e Strassmann, instalados em Berlim.

De entre os três investigadores que ficaram de fora do Prêmio Nobel de Química de 1944, a injustiça feita a Meitner é a mais severa. Ao contrário dos outros físicos “esquecidos” desta série, os registos das suas nomeações ao Nobel são agora públicos. Mostram que colegas homens de Meitner (os cientistas nas listas de nomeação ao Nobel eram todos homens na época, apesar da existência de luminárias contemporâneos como Ida Noddack e Iréne Joliot-Curie) nomearam-na 29 vezes para o Nobel de física, e 19 vezes para o Nobel de química. A sua primeira nomeação proveio do químico norueguês Heinrich Goldschmidt em 1924. A última foi em 1965, três anos antes da sua morte, quando Max Born a fez a sua quarta escolha depois de Pyotr Kapitsa (que venceu em 1978), Cornelis Gorter (que nunca ganhou) e Walter Heitler (idem).

Os registos não explicam inteiramente porque não foi bem-sucedida nenhuma dessas nomeações. No entanto, sugerem que Meitner tem alguma coisa para além do género em comum com duas outras entradas nesta série. O comité do Nobel de química em 1944 estava tão dividido sobre a importância relativa da teoria e da experiência como o comitê de física estava em 1957, quando foi negada a Chien-Shiung Wu uma parte do prémio de violação de paridade que foi para Chen Ning Yang e Tsung-Dao Lee. O comité de 1944 falhou também em avaliar o destacado papel que Meitner, Frisch e Strassmann desempenharam na colaboração sobre a fissão, tal como um comité posterior falhou em entender que Jocelyn Bell Burnell não era apenas assistente de Antony Hewish na descoberta dos pulsares. Além disso, todo um conjunto de preconceitos - raciais, sexuais, políticos e disciplinares - parece ter tornado impossível aos paroquiais químicos da neutra Suécia descortinar acertadamente as contribuições de uma física judia refugiada.

No início de sua carreira, Meitner enfrentou e superou um grau considerável de preconceito pessoal. Num exemplo risível, o laureado com o Prémio Nobel Emil Fischer recusou-se a deixá-la trabalhar no seu laboratório porque pensava que o cabelo comprido de uma mulher era um perigo de incêndio (aparentemente, a enorme barba de Fischer não tinha qualquer problema). As realizações subsequentes de Meitner - tal como a fissão nuclear, descobriu também o elemento protactínio – granjearam-lhe legiões de admiradores, 26 dos quais a indicaram pelo menos uma vez para o Prémio Nobel. No final, porém, nem os seus esforços nem os deles foram suficientes para contrabalançar as subtis forças estruturais que ajudaram (e ainda ajudam) a manter os prémios Nobel esmagadoramente brancos e masculinos, 82 anos após a arrebatadora descoberta de Lise Meitner.

Fonte: https://physicsworld.com/a/overlooked-for-the-nobel-lise-meitner/?utm_medium=email&utm_source=iop&utm_term=&utm_campaign=14290-47558&utm_content=Title%3A%20Overlooked%20for%20the%20Nobel%3A%20Lise%20Meitner%20%20-%20explore%20more&Campaign+Owner=

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos