Estados Unidos e a NATO expandem a guerra do Afeganistão para o Corno de África e o Oceano Índico

Rick Rozoff*    27.Ene.10    Outros autores

Rick Rozoff
Por muito que custe a tantos milhões que no mundo confiaram, honesta e sinceramente, numa mudança, é cada vez mais evidente que a política externa de Obama é hoje mais agressiva que algum dia o foi a de George W Bush.
Agora, “de uma forma paralela à escalada da guerra no sul da Ásia (operações contra a insurgência no Afeganistão e ataques com mísseis lançados por [aviões telecomandados] drones no Paquistão, os EUA e os seus aliados na NATO têm preparado o trabalho preliminar para operações navais, aéreas e terrestres cada vez maiores no Corno de África e no Golfo de Áden”.

Durante o mês passado, os EUA levaram a cabo ataques militares mortais no Iémen: bombardeamentos aéreos no norte e ataques com mísseis de cruzeiro no sul do país. Washington foi acusado de matar uma grande quantidade de civis nestes ataques, efectuados em ambas as partes do país, antes do incidente de 25 de Dezembro nas Northwest Airlines, utilizado para justificar posteriormente estas acções anteriores dos EUA. E de forma preocupante, o incidente explodiu com um retumbar de som constante de tambores de guerra, pedindo que se expanda a intervenção militar e que ela seja ainda mais directa.

O programa militar e de segurança do Pentágono para o Iémen, revelado publicamente, aumentou de 4,6 milhões de dólares em 2006 para 67 milhões o ano passado. “Este número não inclui a ajuda encoberta e confidencial concedida pelos EUA” [1].

Além disso, “segundo um novo acordo de cooperação confidencial, os EUA podiam fazer voar mísseis de cruzeiro, aviões de combate ou aviões armados drone não tripulados contra objectivos no país, mas permaneceria calado publicamente acerca do seu papel nos ataques aéreos” [2].

No dia 1 de Janeiro, o general David Petraeus, chefe do Comando Central do Pentágono, que se ocupa tanto das guerras do Afeganistão e Iraque como das operações no Iémen e Paquistão, encontrava-se na capital iraquiana, Bagdade, e falou da profundidade da implicação militar no Iémen: “No ano passado tivemos, facto bem conhecido, uns 70 milhões de dólares de apoio à segurança. No próximo ano, este apoio será mais do que duplicado.” [3]

No dia seguinte, Petraeus estava na capital do Iémen onde se reuniu com o presidente do país, Ali Abdullah Saleh, para discutir “o contínuo apoio americano para extirpar as células terroristas” [4]

O assessor de antiterrorismo da Casa Branca (assistente do presidente para a segurança nacional e antiterrorismo), John Brennan, informou o presidente Barack Obama sobre a visita de Petraeus ao novo cenário de guerra de Washington e depois declarou:” Convertemos o Iémen numa prioridade para este ano e isto é o último deste esforço”[5].

Os EUA e os governos ocidentais identificaram as supostas células terroristas em questão como células filiadas na Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP, nas siglas em inglês). No entanto, em 4 de Janeiro, a CNN informou que “um alto responsável norte-americano se referiu a uma rebelião das tribos huti no norte, e de actividade secessionista nas zonas tribais do sul”, como factos que preocupavam Washington [6]

A origem confessional dos hutis é o Islão chiita e não sunita, e as forças de oposição no sul estão dirigidas pelo Partido Socialista iémenita e, portanto, a intenção de relacionar qualquer dos dois com a Al-Qaeda são erróneos, interessados e desonestos.

Tanto no norte como no sul [do Iémen], os EUA e os seus aliados na NATO (Grã Bretanha e França encerraram as suas embaixadas no Iémen no princípio desta semana, de forma conjunta com os EUA) e a Arábia Saudita, estão a trabalhar em conjunto para apoiar o governo de Saleh, que ao longo do mês passado se converteu num estado de guerra contra as forças de oposição no país. A Arábia Saudita empreendeu bombardeamentos aéreos regulares e ataques com infantaria e veículos armados no norte do país, e, de acordo com fontes rebeldes huti, têm sido apoiados por aviões de combate norte- americanos que desferem ataques mortíferos contra as populações. Os porta-vozes huti acusaram Riade de lançar mais de mil mísseis no Iémen e, em fins de Dezembro, o ministro de Defesa saudita reconheceu que as suas baixas militares no mês anterior incluíam 73 mortos, 26 desaparecidos e 470 feridos. Em resumo, é uma guerra entre dois países fronteiriços na Península Arábica.

Entretanto, o Ocidente tem uns planos ainda mais amplos para o Iémen, uns planos que incluem integrar operações militares desde o noroeste de África até à fronteira chinesa. Típico das recentes declarações de altos responsáveis norte-americanos e dos seus aliados ocidentais, na semana passada o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, afirmou, falazmente, que “a debilidade da Al-Qaeda no Paquistão a obrigou a sair de lá e a ir para o Iémen e a Somália” [7]

Brown declarou no dia 3 de Janeiro à BBC: “Reconheceu-se que Iémen, como a Somália, são zonas em que não só temos que estar pendentes mas também de fazer algo mais. Isto significa, fortalecer a cooperação antiterrorista, significa trabalhar mais duramente nos esforços de espionagem” [8]. Brown deverá explicar porque se a Al-Qaeda “foi obrigada a sair” do Paquistão, está a aumentar soldados à vaga de tropas dos EUA e da NATO, que em breve a soma de soldados ocidentais chegue a 150.000 no Afeganistão, enquanto se intensificam os ataques mortíferos no próprio Paquistão.

O primeiro-ministro britânico também pediu que se efectue um encontro internacional sobre o Iémen no fim deste mês e anunciou que a “Grã-Bretanha e os EUA acordaram em financiar uma unidade de polícia antiterrorista no Iémen…”[9]

Nas notícias ocidentais, ou mais propriamente em rumores, acusam-se os rebeldes iemenitas de fornecer armas a membros da oposição somali e diz-se que estes ofereceram combatentes aos primeiros.

Em resumo, a oficialmente descartada, todavia reanimada e expandida de facto, “guerra global contra o terrorismo”, está a acontecer hoje num único teatro de guerra que se estende do Mar Vermelho ao Paquistão. Um esforço conjunto, por parte dos Comandos Central de África do Pentágono e da Organização do Tratado do Atlântico Norte de forjar a consolidação de quase todo o continente europeu sob o controlo da NATO e do Pentágono, e de ceder o controlo do continente africano ao Comando de África americano (AFRICOM) (excepto para Egipto, activo individual do Pentágono e sócio do Diálogo Mediterrâneo da NATO).

De facto, a administração Reagan inaugurou o Comando Central em 1983 sobre os alicerces da Força Conjunta de Desenvolvimento Rápido (RDJTF, nas suas siglas em inglês), que o seu predecessor, Jimmy Carter, havia activado três anos antes [10]. O desenvolvimento posterior das Forças de Desenvolvimento Rápido (RDF, nas suas siglas em inglês) foi lançado directamente para enfrentar os acontecimentos no Afeganistão e Somália em 1979 (uma componente integral da doutrina Carter) e foi concebido deliberadamente para estabelecer o controlo militar no Corno de África, no mar de Oman e no oeste do Oceano Índico.

As administrações podem sair (George W.Bush e Tony Blair deixaram os seus cargos) e os nomes podem mudar (a guerra global contra o terrorismo foi rebaptizada de operações de contingência no exterior) mas as ambições geopolíticas globais de Washington, ilimitadas desde o colapso do Pacto de Varsóvia e da União Soviética em 1991, não têm feito senão aumentar e universalizar-se, e os meios utilizados para levá-las a cabo também se tornaram mais agressivos.

Nos últimos tempos, a Casa branca e os seus aliados europeus ressuscitaram e exageraram o espectro da Al-Qaeda, para um grau nunca visto desde os dias imediatamente posteriores ao 11 de Setembro de 2001.

Com a desculpa de proteger o território dos EUA desta vaga e ubíqua entidade, o Pentágono está implicado em operações militares que vão desde o oeste da África até ao leste da Ásia contra, entre outros, grupos de esquerda decididamente não vinculados a Osama bin Laden na Colômbia, Filipinas e Iémen; milícias chitas no Líbano e no Iémen; rebeldes étnicos no Mali e no Niger; e uma rebelião cristã extremista no Uganda.

Como os tristemente célebres ladrões de túmulos do século XIX, William Burke e William Hare, que eram muito bem pagos para fornecer cadáveres à faculdade de medicina de Edimburgo e que quando não tinham cadáveres para vender os fabricavam, a Al-Qaeda é um vilão digno de confiança a quem se pode chamar quando for necessário.

Pode-se confundir os combatentes al-Shabaab na Somália com piratas no Golfo de Áden para proporcionar um pretexto para uma presença naval permanente da NATO e seus aliados da União Europeia, numa rede que inclui o Mar Vermelho, o Mar de Oman, que liga ao Golfo Pérsico, e a maior parte da costa leste de África.

A componente norte-americana da guerra mais ampla afegã é a Operação Liberdade Duradoira, que abarca: Afeganistão, Cuba (a base naval da baía de Guantánamo), Djibuti, Eritreia, Etiópia, Jordânia, Quénia, Kirguizistão, Paquistão, Filipinas, as Seychelles, Sudão, Tajiquistão, Turquia, Uzbequistão e Iémen.

Djibuti, que alberga aproximadamente 2.500 membros de pessoal militar norte- americano na primeira base permanente do Pentágono em África, é também o quartel-general da Força de Tarefa Conjunta Combinada-Corno de África (CJTF-HOA, nas suas siglas em inglês), estabelecida em 2001, vários meses antes da Operação Liberdade Duradoira e, que em muitos aspectos, se sobrepõe a esta. O Comando Central do Pentágono, transferiu a CJTF-HOA, com base na base militar francesa de Camp Lemonier, para o seu Comando de África (AFRICOM) no dia 1 de Outubro de 2008, quando se activou formalmente AFRICOM.

A sua zona de responsabilidade inclui Djibuti, Etiópia, Quénia, as Seychelles, Somália, Sudão, Tanzânia, Uganda e Iémen. As suas zonas de interesse são as Comores, as Maurícias e Madagáscar. Estas três últimas são, como as Seychelles, ilhas-nações no Oceano Índico. Os EUA ampliaram Camp Lemonier cinco vezes o seu tamanho original em 2006 e os soldados de todos os ramos dos serviços armados norte-americanos “utilizam a base quando não trabalham ‘repartidos’ por países como Quénia, Etiópia e Iémen” [11].

Ao anunciar recentemente, que “Iémen recebera equipamento militar dos EUA para ajudar o governo a lutar contra a rede da Al-Qaeda no sul do país”, uma agência noticiosa alemã acrescentava estes antecedentes:”Na década de 1990, Iémen deu as boas-vindas aos combatentes árabes que tinham deixado o Afeganistão depois da queda da União Soviética”[12].

Como com o próprio Afeganistão e outros lugares, em que o exército norte-americano luta contra grupos insurgentes (Filipinas, Somália e Iémen), com frequência o Pentágono enfrenta combatentes financiados, armados e treinados pelo seu próprio governo no Paquistão desde 1978-1992, sob a Operação Ciclone, a melhor operação encoberta jamais empreendida pela CIA.

Uma edição de 2008 do US News & World Report, uma revista de que não se pode acusar de ser pouco amistosa para com a Casa Branca e o Pentágono, escreveu acerca da guerra no Afeganistão que “dois dos actores mais perigosos são dois violentos islamistas afegãos, chamados Gulbuddin Hekmatyar e Jalaluddin Haqqani, segundo informação de altos responsáveis norte-americanos. [13].

Foi uma avaliação repetida na Avaliação Inicial de 30 de Agosto de 2009 do general Stanley McChrystal, comandante de todas as forças dos EUA e da Nato no Afeganistão. A informação, que foi a base para que a Casa Branca incrementasse as forças no teatro de guerra até chegar a mais de 100.000 soldados, afirmava que ” os principais grupos insurgentes em função da sua ameaça para a missão são o Quetta Shura Talliban (05T), a Rede Haqqani (HQN) e o Hezb-e Islami Gulbuddin (HIG)”.

A revista US News & World Report proporcionou estes elementos.

” Estes dois senhores da guerra (que encabeçam actualmente a lista norte-americana dos homens mais procurados no Afeganistão) foram uma vez dos mais valiosos aliados dos EUA. Na década de 1980, a CIA canalizou centenas de milhões de dólares de armas e munições para ajudá-los a lutar contra o exército soviético. Hekmatyar, aquele que Washington considerava como um rebelde anti-soviético em quem se podia confiar, até viajou aos EUA convidado pela CIA em 1985.

Os altos responsáveis norte-americanos tinham, inclusivamente, uma elevada opinião de Haqqani, que consideravam o senhor da guerra rebelde mais eficaz. Haqqani foi também um dos principais defensores dos chamados afegãos árabes e organizou habilmente os combatentes voluntários árabes que foram os empreendedores da jihad contra a União Soviética e ajudaram a proteger o futuro dirigente da Al-Qaeda, Osama bin Laden [14].

Em nome de lutar contra este mesmo bin Laden e a Al-Qaeda, os EUA e os seus aliados na NATO , para além de aumentar as forças militares combinadas que lutam no Afeganistão, agora no seu nono ano com mais de 150.000 homens, mais homens do que jamais a União Soviética colocou neste país, estão intensificando as missões mortíferas dos mísseis drone, dos helicópteros de combate e dos ataques de comandos no vizinho Paquistão. Um recente comunicado do governo deste país informava que tinham morrido708 pessoas só à custa de ataques com drones da CIA. Apenas cinco destas pessoas foram identificadas como suspeitas de pertencerem à Al-Qaeda e aos talibans. [14]. No dia 6 de Janeiro, pelo menos 13 pessoas mais morreram num ataque com um míssil no departamento tribal paquistanês de Waziristão do Norte.

No mês passado, um jornal militar norte-americano informou que “uma equipa de fuzileiros de operações de combate, formado por 1.000 homens, capazes de se deslocarem rapidamente a lugares de conflitos, podia estar imediatamente à disposição do Comando de África norte-americano”, uma informação que chegou “uns poucos meses depois das forças especiais norte-americanas perpetrarem um ataque à luz do dia no interior do sul da Somália” e depois de que outra força de fuzileiros “já se ter deslocado para apoiar missões de treino no Uganda e Mali” [15].

Em finais de Outubro do mês passado, o Secretário Geral da NATO, general Anders Fogh Rasmussen, esteve nos Emiratos Árabes Unidos [UAE, nas siglas em inglês] para organizar os membros da Iniciativa de Cooperação de Istambul da NATO para uma futura confrontação com o Irão. Numa conferência sobre as Relações NATO-UAE e Futuras Perspectivas da Iniciativa de Cooperação de Istambul, ampliou a sua missão ao recrutar as monarquias do Golfo Persa para a Guerra do Grande Afeganistão. “Temos um interesse comum em ajudar países como Afeganistão e Iraque a levantarem-se, em fomentar a estabilidade no Médio Oriente…e em impedir que países como a Somália e o Sudão escorreguem cada vez mais para o caos” [16].

Dois meses antes foi informado de que “uns 75 membros do exército norte-americano e civis se dirigirão às ilhas Seychelles nas próximas semanas para organizar… operações [com aviões] Reaper, que se iniciariam em Outubro ou Novembro. O Comando de África norte-americano chama à missão, dirigida pela Marinha, Ocean Look. Os EUA instalarão a base dos [aviões] Reapers que se utilizarão para serviços de espionagem, vigilância e reconhecimento no aeroporto regional de Mahe nas Seychelles…” [17]. O [avião] Reaper é o mais moderno veículo aéreo (drone) não-tripulado, “caçador-assassino”, do Pentágono, equipado com quinze vezes mais potência de fogo e que a sua velocidade de voo é três vezes superior à do seu precursor “Predador”, utilizado com efeitos devastadores no Paquistão e na Somália. No passado mês de Outubro, rebeldes somalis afirmaram ter abatido um drone norte-americano, e “residentes locais informam rotineiramente de aviões suspeitos de serem drones norte-americanos a sobrevoar [sua cidade]. Supõe-se que os drones saiam de barcos de guerra fundeados no Oceano Índico” [18]

O estacionamento permanente de forças dos EUA nas ilhas Seychelles faz parte de um modelo dos últimos anos, de estabelecer tropas norte-americanas para comandar baterias de mísseis, radares para interceptar mísseis, bases aéreas, bases de contra-insurreição e outras instalações em países nos quais a sua presença teria sido inconcebível há uns anos atrás: Afeganistão, Colômbia, Bulgária, Djibuti, Iraque, Israel, Kirguizstão, Mali, Polónia e Roménia. Um comunicado de 7 de Janeiro informa que os EUA planeiam estabelecer uma base aérea no Iémen, no arquipélago Socotra, no Oceano Índico [19].

Revelou-se posteriormente que, “apesar dos aviões não tripulados, o exército norte-americano está a considerar estabelecer a base da patrulha de aviões Navy P-3 Orion nas Seychelles, por um espaço de tempo limitado. Como o Reaper, o Orion pode vigiar uma vasta região…” [20].

Uma fonte noticiosa do Médio Oriente informou da seguinte maneira estes factos. ” Os EUA estão a levar esta empresa militar em África a novos níveis, com as suspeitas de que Washington poderia, contudo, estar promovendo outra agenda oculta.

Supõe-se que os militares norte-americanos lancem aviões de vigilância não-tripulados sobre o território das Seychelles a partir de barcos norte-americanos situados nas suas costas, no que Washington afirma serem [acções] com o objectivo de espiar os piratas somalis…Pretextos semelhantes foram utilizados para justificar a invasão norte-americana do Afeganistão, os ataques com mísseis no Paquistão e as suas cada vez menores operações militares no Iraque… Washington começou também a equipar o Mali com veículos militares e equipamento de comunicação no valor de 4,5 milhões de dólares norte-americanos, naquilo que se diz ser uma implicação crescente dos EUA em África [21]

EUA não levou muito tempo a pôr os Reapers operacionais. Em finais de Outubro, a Associated Press informava que “aviões militares drone norte-americanos patrulhavam as costas da Somália pela primeira vez..Oficiais do exército dos EUA afirmam que aviões teledirigidos drones, chamados Reapers, estacionados na ilha-nação de Seychelles, patrulham o Oceano Índico” [22]

“Isto acontece, enquanto a Casa Branca procura lugares para estabelecer uma importante presença militar em África. O exército norte-americano afirma que lançou os seus drones [do tamanho de uma avião de combate], capazes de levar mísseis, para patrulhar as águas de Somália…” [23]

A intenção de Washington, de estabelecer uma conexão Afeganistão-Paquistão-Somália-Iémen, está intimamente ligada aos seus planos para a África no seu conjunto [24]

No dia 4 de Janeiro, uma página web militar norte-americana publicava a seguinte actualização: ” O Comando de África norte-americano, reforçou as suas forças anti-piratas com a recente aquisição de um avião de patrulhamento marítimo e com mais pessoal nas ilhas Seychelles. No mês passado, a Marinha enviou três aviões P-3 Trident VP-26 desde [navios], com base em Maine, conjuntamente com 112 marinheiros para as Seychelles, para patrulhar as águas da África oriental…A insígnia do Esquadrão Patrol 26, uma caveira sobre uma bússola e duas bombas ou torpedos em forma de X, faz lembrar a bandeira Jolly Roger que simboliza a pirataria” [25].

No passado mês de Setembro, provou-se que tipo de piratas são utilizados pelo Pentágono como pretexto para a sua concentração militar no Corno de África e no conjunto da África oriental, quando “soldados estrangeiros em helicópteros bombardearam um automóvel…numa cidade somali… mataram dois homens e capturaram outros dois que estavam feridos; as testemunhas afirmaram que oficiais do exército norte-americano asseguraram que tinham sido forças norte-americanas as implicadas no ataque.”

“Dois oficiais do exército norte-americano afirmaram que estavam implicadas forças do Comando de Operações Conjuntas Especiais norte-americanas” [26]. Stanley McChrystal dirigiu o Comando de operações Conjuntas Especiais desde 2003 até 2008. Foi durante estes anos que se transferiu da vigilância das operações de contra-insurgência no Iraque, para assumir o controlo das operações dos EUA e da NATO no Afeganistão.

Uma testemunha informou também que “os helicópteros partiram de um barco de guerra que levava a bandeira francesa” [27] e uma fonte rebelde afirmou: “Estamos reunindo informações de que um navio francês atacou um automóvel, o destruiu completamente, e que prenderam alguns dos passageiros” [28].

As forças militares francesas permanecem na sua antiga colónia de Djibuti onde se treinam para operações, não só no Afeganistão, mas também em várias das suas antigas possessões africanas. Tropas, aviões de guerra e veículos blindados das nações da NATO (sob as bandeiras da própria NATO, da União Europeia, da França e dos Estados Unidos) têm intervindo em conflitos civis e entre países fronteiriços ao longo de toda a África nos últimos anos; Somália, Djibuti/Eritreia, Chade, República Centro-Africana, região do Darfur, no Sudão e na Costa do Marfim; desde o Corno de África até ao Golfo de Guiné, rico em petróleo.

Uma reportagem do mês passado dá-nos algumas indicações sobre o papel da França no continente. Radio France Internationale descrevia “soldados franceses em Djibuti treinando-se para o Afeganistão e lançando um olho a África” com os seguintes detalhes:

“Doze comandos das forças especiais chegaram primeiro” e “o exército…tomou de assalto a praia”…O exercício, considerado crucial para a preparação de batalhas numa região tristemente célebre pelas suas políticas rebeldes, incluiu todos os sectores militares do país, terra, mar e ar.

Na altura que tanques do deserto saíam disparados para a praia, aviões Mirage cruzavam o céu aberto. Entretanto, veículos blindados para transporte de pessoal despachavam as tropas de terra e os helicópteros transportavam as armas para terra.

‘É uma demonstração de força. Demonstra que a França é capaz de actuar militarmente’ afirmou um oficial da marinha.

Nos últimos anos, as tropas francesas em Djibuti têm estado implicadas em várias… missões militares em África. Ajudaram a reforçar uma brigada das Nações Unidas que patrulhava na Costa de Marfim e no ano passado proporcionaram ajuda logística e táctica a soldados de Djibuti que repeliram um ataque da vizinha Eritreia.

De momento, o primeiro cenário de combate que verão estas tropas será no Afeganistão, onde a França toma parte no contingente da NATO. A sua paisagem montanhosa e árida parece-se muito à paisagem ondulada e lunar de Djibuti.

Estas tropas formam um contingente de 2.500 soldados com base em Djibuti”[29].

Para além de encontros armados intermitentes entre tropas de Djibuti e Eritreia, nas últimas semanas têm vindo à luz notícias de combates mortais dentro da Eritreia e entre este país e a sua vizinha Etiópia. Djibuti e Etiópia são regimes sob a protecção do Ocidente e poderes militares no Corno de África e como já foi demonstrado acima, a integração das frentes de guerra do sul da Ásia e do noroeste da África estão avançando rapidamente.

A Nato, desde o Outono de 2008, começou aquilo que denomina operações contra a pirataria nas costas da Somália e, mais longe, no interior do golfo de Áden, frequentemente em associação com movimentações semelhantes por parte da União Europeia com a qual compartilha navios de guerra, comandantes e “interesses estratégicos comuns”, segundo o acordo Berlin Plus e outros [30].

A operação de vigilância naval e de destruição feita pela NATO no Corno de África e próximo deste, é uma extensão da sua efectiva tomada de poder de todo o Mar Mediterrâneo, como a Operação Esforço Activo [31] iniciada em 2001, segundo a cláusula de assistência militar mútua do Artigo 5 da Aliança e incrementada com o bloqueio da costa mediterrânica do Líbano por parte de navios de guerra de nações da NATO, sob os auspícios da Força Provisória das Nações Unidas no Líbano (INIFIL, nas suas siglas em inglês) que se iniciou depois do ataque israelita ao Líbano em 2006. A Força Conjunta Marítima (MTF, nas sua siglas em inglês) “saudou com boa viagem a uns 27.000 navios e remeteu a quase 400 suspeitos às autoridades libanesas para inspecções aprofundadas. Treze países (Bélgica, Bulgária, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Indonésia, Itália, Países Baixos, Noruega, Espanha, Suécia e Turquia) já contribuíram com unidades navais para a MTF” [32]

As movimentações da NATO e da UE no Golfo de Áden são as primeiras operações navais na região na história de ambas organizações e as primeiras da UE em águas da costa de África.

A expansão da presença militar no Golfo de Áden e no Mar de Oman,
dá aos países da NATO o controlo das vias navegáveis que vão desde o estreito de Gibraltar ao estreito de Ormuz.

M.K. Bhadrakumar, veterano diplomata e analista indiano, descreveu-o em 2008: “Actuando como um raio e sem publicidade, a NATO já criou, seguramente, um fait accompli (feito consumado).

A movimentação naval da NATO na região do Oceano Índico é um passo histórico e um marco na transformação da Aliança. Nem sequer, no momento mais crucial da Guerra Fria, a Aliança teve presença no Oceano Índico. Estes tipos de movimentações quase sempre tendem a ser de duração indefinida.

Em 2007, uma força naval da NATO visitou as Seychelles no Oceano Índico e a Somália, efectuou exercícios no Oceano Índico, e voltou a entrar no Mar Mediterrâneo, via Mar Vermelho, em finais de Setembro”[33].

E acrescentou: “Altos responsáveis norte-americanos declararam publicamente que AFRICOM e a NATO prevêem uma ligação institucional a jusante. A estratégia global dos EUA é levar paulatinamente a NATO a África, de maneira que venha a ser excelente o seu futuro papel na região do Oceano Índico (e no Médio Oriente), como instrumento da agenda de segurança global norte-americana” [34].

No passado mês de Agosto, o director de AFRICOM, o general William Ward, afirmou que a Somália “era um lugar central do exército norte-americano no continente.”

Para indicar o alcance dos planos do Pentágono , não só na Somália mas também na região, “o general William Ward prometeu um apoio contínuo ao governo federal de transição da Somália…Fez estas declarações durante uma visita a Nairobi, no Quénia, que é um aliado fundamental dos EUA na região. Quando lhe perguntaram pelas advertências norte-americanas à Eritreia pela sua suposta ajuda a al-Shabab, o general norte-americano condenou todo e qualquer apoio exterior aos rebeldes somalis” [35]

Altos responsáveis norte-americanos, britânicos e de outros países ocidentais, têm estado a fazer um grande esforço para estabelecer a (muito) frágil relação entre a chamada frente de guerra AfPak e a necessidade de uma intervenção militar directa no leste de África e na Península Arábica, como se viu anteriormente com a ridícula afirmação do primeiro ministro britânico de que a NATO tem tido tanto êxito em expulsar supostos membros da Al-Qaeda do Paquistão e que depois vão procurar refúgio na Somália e no Iémen. Mais lógico seria [procurá-los] em sítios como Caxemira, Tajiquistão e Uzbequistão.

De modo semelhante, os governos ocidentais não estão a poupar esforços para fabricar ou exagerar vínculos entre os numerosos conflitos armados no Corno de África. Acusam-se os rebeldes somalis de apoiar o governo da Eritreia no seu conflito fronteiriço com Djibuti , mas também são acusados de oferecer combatentes para o conflito interno no sul do Iémen.

Por sua vez, acusam-se os rebeldes iemenitas de fornecerem armas aos combatentes al-Shabaab de Somália e, ameaçando por cima de tudo, está a implicação de que o Irão está a patrocinar as forças chitas do norte de Iémen.

No entanto, há grande quantidade de provas que documentam uma genuína intervenção estrangeira na região: ataques norte-americanos com mísseis, bombas, helicópteros e forças especiais na Somália e no Iémen, e coordenação com os exércitos de Djibuti, Etiópia (em conflitos no interior da Somália), e Eritreia. Ataques sauditas por ar e terra no Iémen, com o resultado da morte de centenas de pessoas e a deslocação de milhares de civis. Operações de comandos franceses na Somália e treinos de combate em Djibuti para a guerra local e para mais longe.

No Ocidente, ignoram-se as verdadeiras forças exteriores implicadas em acções militares, por afirmações não fundamentais de que a região está a ser inflamada pelos mesmos adversários dos EUA e da NATO que estão em guerra no subcontinente indiano, e de que os vilãos no Corno de África e perto dele, apesar de ser a guarida da Al-Qaeda, estão inextricavelmente unidos e, de certo modo, vinculados às operações dos piratas. Esta é a retorcida lógica e os rocambolescos subterfúgios utilizados para preparar as opiniões públicas do Ocidente para uma escalada de intervenção militar ao longo de mais de 3.000 quilómetros, por todo o Oceano Índico, desde o teatro de guerra Afeganistão-Paquistão

Os navios de guerra da NATO fazem de ponte entre ambos os extremos. No passado mês de Agosto, o bloco militar lançou a sua segunda operação naval nas costas da Somália, em que o nome desta, Escudo do Oceano, indica por si mesmo o alcance dos objectivos da Aliança no triângulo África-Ásia-Médio Oriente. A missão inclui navios militares da Grã-Bretanha, Grécia, Itália, Turquia e Estados Unidos, e, segundo a NATO, “outros países estão a pensar reforçar a operação, que podia evoluir a qualquer momento”. Um porta-voz da NATO disse entretanto: ” Não se estabeleceu um marco temporal para esta operação a longo prazo, que irá durar o tempo que se considere ser necessário” [36].

A União Europeia está a conduzir uma missão complementar, a Operação Atalanta, “que tem seis fragatas e trabalha com as marinhas da NATO e a coligação dirigida pelos EUA”, e “opera no Golfo de Áden e no Oceano Índico…desde o leste das águas territoriais somalis a 60 graus de longitude, que vai até ao sul desde a ponta leste de Oman e 250 milhas a leste das Seychelles” [37]. O contra-almirante Peter Hudson, do centro de comando da frota na Grã-Bretanha, anunciou o mês passado, que a operação podia aumentar ainda mais o seu alcance até chegar à maior parte do oeste do Oceano Índico.

No passado mês de Setembro, o comandante do Grupo Marítimo 2 da NATO no Golfo de Áden, reuniu-se com altos responsáveis da região autónoma de Puntland, na Somália, para planificar operações.

Em mediados de Dezembro, a NATO estabeleceu uma ligação directa entre a sua guerra no sul da Ásia e a sua expansão no Oceano Índico, ao anunciar que estava a considerar lançar aviões de vigilância AWACS sempre que preciso. “Os comandantes estão a tratar de apoiar um destacamento especial contra a pirataria, formado por cinco navios, com um dos aviões de vigilância com sistema de alarme e controlo, possivelmente a comparticipar com a força de Assistência e Segurança aliada que combate no Afeganistão” [38].

No primeiro dia deste ano, numa notícia com o título de “Canadá ajudará a defender Iémen dos reforços da Al-Qaeda”, uma agência noticiosa canadiana revelava que “um porta-voz da NATO afirmou que navios de guerra que patrulham as vias de navegação no Golfo de Áden, que separa a Somália do Iémen, tinham conhecimento de que al-Shabab, um grupo armado inspirado na Al-Qaeda e com base na Somália, havia anunciado os seus planos de enviar combatentes para o Iémen” e, em consequência disso, “um navio de guerra canadiano implicado em operações dirigidas pela NATO contra a pirataria nas costas da Somália tinha agora uma tarefa adicional…” [39].

Somália e Iémen estão um em frente do outro no extremo do Golfo de Áden, onde o Mar Vermelho se encontra com o Mar de Oman e o Mediterrâneo se liga ao Oceano Índico. Um arco que efectua a junção de três dos mais importantes continentes do mundo. Um território demasiado importante para os EUA, cujo chefe de Estado no passado mês se proclamou comandante-chefe da única superpotência militar do mundo e que durante a década passada se declarou com talento para expedições militares conjuntas e da NATO.

Notas
1) Reuters, 1 de Janeiro de 2010
2)Agência Novosti, informação russa, 30 de Dezembro de 2009
3)Reuters, 1 de Janeiro de 2010
4)CNN, 4 de Janeiro de 2010
5)CNN, 2 de Janeiro de 2010
6)CNN, 4 de Janeiro de 2010
7)Agência France Press, 4 de Janeiro de 2010
8) Xinhua News Agency, 4 de Janeiro de 2010
9) Press TV, 3 de Janeiro de 2010
10) Origens da Guerra Fria da Crise da Somália e Controlo do Oceano Índico Stop NATO, 3 de Maio de 2009
11) Força Conjunta de Tarefas Combinadas, Corno de África, 17 de Abril de 2009
12) Deutsch Presse-Agentur, 1 de Janeiro de 2010
13) US News & World Report, 11 de Julho de 2008
14) ibid
15) Stars and Stripes, 16 de Dezembro de 2009
16) Al Arabiya, 1 de Novembro de 2009
17) Stars and Stripes, 29 de Agosto de 2009
18) Press TV, 19 de Outubro de 2009
19) Press TV, 7 de Janeiro de 2010
20) Voice of America News, 2 de Setembro de 2009
21) Press TV, 21 de Outubro de 2009
22) Associated Press, 23 de Outubro de 2009
23) Press TV, 25 de Outubro de 2009
24) AFRICOM: Pentágono Prepara Intervenção Militar Directa em África Stop NATO, 24 de Agosto de 2009
http://rickrozoff.wordpress.com/2009/09/02/africom-pentagons-prepares-direct-military-intervention-in-africa AFRICOM Year Two: Seizibg The Helm of the Entire Wold Stop NATO, 22 de Outubro de 2009 http://rickrozoff. wordpress.com/2009/10/22/africom.year-two-taking-the-helm-of-the-entire-world
25) Stars and Stripes, 4 de Janeiro de 2010
26) Associated Press, 14 de Setembro de 2009
27) ibid
28) Agence France-Press, 14 de Setembro de 2009
29) Radio France Internationale, 11 de Dezembro de 2009
30) NATO http://www.nato.int/cps/en/natolive/topics_ 49217.htm
31) NATO http://www.nato.int/cps/en/natolive/topics_7932.htm
32) UN News Centre, 31 de Agosto de 2009
33) Asian Times, 20 de Outubro de 2008
34) ibid
35) Voice of America News, 21 de Agosto de 2009
36) Agence France-Press, 17 de Agosto de 2009
37) Bloomberg News, 11 de Dezembro de 2009
38) Bloomberg News, 21 de Dezembro de 2009
39) Canwest News Service, 1 de Janeiro de 2010
Fonte: http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=16854

* Jornalista residente em Chicago. Director de Stop NATO international.

Este texto foi publicado em http://rickrozoff.wordpress.com/

Tradução de João Manuel Pinheiro

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