“Estamos dispostos a buscar a Paz”

Carlos Lozano    27.Sep.12    Outros autores

Timoleón JiménezTimoleón Jiménez, comandante-em-chefe do Estado Maior Central das FARC-EP, é a cabeça visível do lendário movimento guerrilheiro, hoje comprometido na busca da paz democrática, mediante um novo diálogo com o Governo Nacional. É a continuidade de uma orientação da guerrilha das FARC-EP. Já o havia dito Manuel Marulanda ao VOZ, durante os diálogos de Caguán: “A paz é uma bandeira dos revolucionários”.

Primeira entrevista exclusiva com o Comandante Timoleón Jiménez (FARC-EP), realizada por Carlos Lozano, Director do semanário VOZ.
Esta entrevista ocorre em um momento histórico, à porta de um novo esforço para conseguir a paz na Colômbia. Aqui estão as respostas de Timoleón Jiménez, concretas, precisas. Poder-se-ia dizer, sem falso otimismo, que a paz está mais perto do que antes, porém, todavia, há muito pela frente a percorrer. Todo o país espera que não seja uma nova frustração.
“O Presidente repete que não pensa em cometer os erros do passado e confiamos que seja assim. Você sabe que o principal erro de todos os processos anteriores foi o de chegar à mesa e exigir a rendição”, disse o comandante Timoleón Jiménez ao director do VOZ.

Começa um novo processo de diálogo com um Governo de alguma maneira herdeiro
da “segurança democrática” uribista. Como abordam isso as FARC?

Santos e Uribe
- Nós sempre estivemos dispostos a buscar soluções diferentes da guerra. Com Uribe não foi possível, pelo seu aberto desconhecimento da nossa condição política. Santos não é somente herdeiro da segurança democrática, mas também uma das suas estrelas protagonistas. De facto, com maquilhagens de vocabulário, tem continuado com isso. Porém como ele mesmo disse decidiu assumir os riscos de dialogar e deu passos positivos neste sentido. Qualquer colombiano diria que o verdadeiro risco é a guerra e não o diálogo, por isso não vacilámos em aceitar as conversações para procurar a paz. Quanto ao modo de abordar o novo processo, diria que o fazemos com grandes expectativas de alcançar o fim do conflito. O Presidente repete que não pensa em cometer os erros do passado e confiamos que assim seja. Você sabe que o principal erro de todos os processos anteriores foi o de chegar à mesa e exigir a rendição, sem vontade real de atender à solução das causas que deram origem e continuam alimentando a confrontação.

A agenda contempla o tema do “abandono das armas”, que seria o ponto de chegada do acordo de paz. Que expectativas têm as FARC a esse respeito?

- Não faria sentido iniciar um processo que caminhasse para o termo definitivo do conflito sem contemplar o abandono de armas como ponto de chegada. Largar as armas consiste na abolição do emprego da força, do apelo a qualquer tipo de violência, para a obtenção de fins económicos ou políticos. É um verdadeiro adeus às armas. Se conseguirmos que na Colômbia isso seja uma realidade, o nosso país daria um salto enorme adiante. Confiamos novamente que a administração Santos, e todos os sectores empenhados na violência como método de acção económica e política, coincidam connosco neste critério.

Os “erros do passado”

O Presidente Santos tem dito que o seu Governo requer que este processo de diálogo “não repita os erros do passado”; que existe a garantia de que se vai conduzir ao fim do conflito; e que o Governo manterá as operações militares e a pressão militar sobre as FARC. Quais são os pressupostos da insurgência para que o processo termine com êxito?

- A oligarquia dominante na Colômbia, solidamente apoiada pelos Governos dos Estados Unidos, leva já quase 50 anos apostando no extermínio das guerrilhas. Doze presidentes, um com mandato repetido, prometeram invariavelmente o nosso fim e deram carta-branca ao aparato militar para cumpri-lo. Quando Santos ordena incrementar as operações, não está dando satisfações ao sectores de extrema-direita, fá-lo porque acredita, como eles, como fizeram todos os governos anteriores, que na verdade poderão fazer-nos render pelo emprego da força. É este precisamente o círculo vicioso que precisa ser rompido. Se você observa o resultado das sondagens que indicam grande aprovação das negociações de paz, dar-se-á conta de que a imensa maioria dos colombianos não compartilha da saída militar, entre outras coisas porque, com maior bom-senso do que os seus governantes, sabe que não será possível. Nós partimos da ideia de que este processo terá êxito, na medida em que essas grandes maiorias que se inclinam pela solução política tenham oportunidade de falar, de se mobilizarem, de influir, de decidir a esse respeito.
E as estamos convidando a fazê-lo.

Em vários sectores que apoiam o diálogo está-se planeando a proposta de trégua, de cessar-fogo e de interrupção das hostilidades. Como opinam as FARC-EP?

- Estamos completamente de acordo. Sempre foi uma de nossas primeiras considerações ao produzirem-se aproximações com os diferentes governos. Desafortunadamente, a oligarquia colombiana tem pendido para que os diálogos se produzam no meio da confrontação. Se os processos passados tivessem sido acompanhados por um mecanismo dessa natureza, haveriam de ter outro tipo de desfecho.

- Na Colômbia, as classes dominantes, a sua classe política e os seus meios de comunicação sofrem da mania de olhar somente um dos lados. Informar da matança de 30 guerrilheiros num bombardeio aéreo desperta os seus aplausos, enquanto baixas oficiais em combate são repudiadas como assassinatos.
Com tal manipulação busca-se também pressionar-nos grosseiramente nas mesas de diálogos.

O papel do VOZ
- Vocês, como meio alternativo de heroica resistência, são talvez quem de maneira mais honrada informaram ao país, desde há décadas, da infame perseguição criminal praticada na Colômbia contra este tipo de organizações.
Dos arquivos do VOZ poderia elaborar-se a mais fidedigna história dos crimes de Estado contra o povo do país. O número de vítimas na Colômbia equipara-se ao espantoso holocausto judeu na Europa ocupada pelos nazis. Então adquire singular importância o papel dos diferentes movimentos sociais, sindicais, agrários, populares, que o Estado colombiano pretende ignorar ao abordar com migalhas, de maneira individual, um ou outro caso emblemático.
Essa Colômbia ignorada e vitimizada é a que tem que colocar-se de pé agora para reclamar por seus mortos e desaparecidos, para exigir o fim definitivo da guerra, para impedir que se consagre a impunidade, para exigir a satisfação dos velhos clamores pelo que foi violentada de modo tão generalizado e atroz.

O que pensa a respeito dos 6 a 8 meses imaginados pelo Presidente Santos?

- Trata-se de uma expectativa que ele está a criar por sua conta, na contramão do pactuado na letra e espírito do Encontro Exploratório. Ali combinou-se não estabelecer datas limite, nem sequer pelo uso da palavra “meses”, de modo que o que expressa o Presidente indica-nos a dificuldade que teremos neste caminho que empreendemos. Também evidencia de maneira clara a estratégia que vão implementar: quando não obtiverem êxito na mesa, tentarão impor as suas posições pelos media. Para chegar a Havana e realizar o Encontro Exploratório custou dois anos, quando inicialmente se acreditou que seria questão de semanas. E não foi precisamente por causa da insurgência, tema acerca do qual não quero dar pormenores por respeito ao compromisso de manter por agora em reserva os detalhes a esse respeito, ainda que, pelas crónicas que têm saído nos media, a contraparte pareça ter-se esquecido disso.

Um assunto dos colombianos

Que proposta política fazem as FARC-EP aos colombianos ao começar o diálogo?

- Mobilizar-se em torno do fim definitivo do conflito. A guerra ou a paz são assuntos que dizem respeito a todos nós colombianos e estamos obrigados a pronunciar-nos. O governo pretende que os diálogos se realizem exclusivamente entre os seus porta-vozes e os nossos, de modo discretíssimo, sem confusão, como repete insistentemente. Como quando Laureano Gómez e Lleras Camargo assinaram na Europa os acordos de Sitges e Benidorm. Além disso, o governo pretende que as FARC deem ali um endosso aos seus planos de governo, como sendo o mais conveniente para o país.
- Ou seja, que se desconheça outra vez a população colombiana, que se pactue nas suas costas, o que na verdade só interessa e convém às transnacionais, banqueiros, empresários e latifundiários. Isso não pode acontecer mais neste país. As grandes maiorias devem ser escutadas e atendidas. A nossa proposta aponta para isso.

Por que decidiram as FARC assumir esta nova tentativa de paz? Debilidade? Estratégia? Realismo?

- Os que afirmam que a pressão militar foi determinante para nos trazer a uma negociação política esquecem que esta década de guerra foi deflagrada quando Pastrana pôs fim de maneira unilateral ao processo de paz que se celebrava em Caguán. É o Estado que regressa à Mesa de Diálogos com as FARC, para o que deve ter feito as suas avaliações internas. Uma delas, não tornada pública, foi relacionada com o reconhecimento de que o enorme esforço realizado para nos vencer resultou inútil. As FARC ainda estão aqui, combatendo, resistindo, avançando. Agora voltamos ao cenário natural da política, ao diálogo civilizado. É absurdo dizer que fomos obrigados a sentar à mesa, quando foi o Estado que a abandonou furioso. Dialogamos porque a solução política foi sempre uma bandeira nossa e do movimento popular.

Sérios golpes

Mas então as FARC não receberam golpes severos durante estes dez últimos anos?

- Não se pode negar que recebemos sérios golpes. E extremamente dolorosos. As mortes de quatro membros do Secretariado Nacional não podem ser minimizadas. São muito duras também as mortes de combatentes sob o fogo dos bombardeios. Todavia, temos assimilado com coragem todos esses casos. Nenhum dos actuais membros do Secretariado conta com menos de trinta e cinco anos de experiência guerrilheira, o que pode ser aplicado também a quase todo o Estado-maior Central. As promoções não se improvisam. 48 anos de luta contínua têm produzido uma formidável engrenagem. Seguimos adiante, com dor na alma, porém mais experientes e confiantes de nossas razões. Em toda guerra há mortos. A campanha mediática insiste em nos apresentar como uma organização derrotada e sem futuro. Igual como sempre foi. Se fosse o caso de fazer frente a uma força derrotada, não estariam a trabalhar para incrementar ainda mais os efectivos e o arsenal adquirido. São verdades que o Estado e os meios de comunicação ocultam deliberadamente.

Sendo assim, embora as FARC não executem ações do calibre das de catorze anos atrás, pode afirmar-se que a confrontação continua sendo de grandes proporções? O Ministro da Defesa minimiza-a por completo e alega que a confrontação persiste apenas na área rural de dez municípios isolados do país…

- As FARC-EP operamos e movemo-nos nos mesmos territórios que eles ocupam. O suposto controlo exercido pelos comandos conjuntos, task-forces, brigadas e batalhões, é posto em xeque com frequência pela actividade das guerrilhas móveis. O número de baixas das forças armadas vem aumentando há algum tempo. Claro, também nós recebemos golpes, muito mais publicitados pelos meios de comunicação. É que este é o conflito. Uma guerra é travada segundo as circunstâncias, não há modos de operação válidos para todas as situações. É óbvio que as condições de hoje não são as mesmas de uma década atrás, sobretudo pelo uso maciço da aviação militar, mas a batalha é diária.
Em todos os blocos das FARC se trabalha em função da mudança desta situação a qualquer momento. Seja como for, a permanência do conflito implicará mais morte e destruição, mais luto e lágrimas, mais pobreza e miséria para alguns e maior riqueza para outros. Imagine-se as vidas que teriam sido salvas nestes dez anos. Por isso, procuramos os diálogos, a solução sem sangue, o entendimento por vias políticas. Com esse propósito vamos a Havana.
Confiamos que o Governo Nacional também entenda a necessidade de pôr fim a tão longa violência praticada contra o povo colombiano.

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Publicado por ANNCOL para FARC-EP 18/09/2012

Tradução: PCB (Partido Comunista Brasileiro)

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