Existe uma esquerda na Nicarágua?

François Houtart *    02.Nov.06    Colaboradores

“A luta contra o neoliberalismo é o imperativo moral mais importante. Trata-se do nível ético que tem que orientar todos os outros e que constitui a base de qualquer esquerda”.

Na véspera das eleições na Nicarágua não se pode perguntar se existe uma esquerda. No entanto, esta interrogação ultrapassa a fronteira centro-americana e coloca o problema do conjunto dos países latino-americanos.

Na campanha eleitoral nicaraguense apresentam-se quatro partidos predominantes: dois liberais e outros dois que têm como referência o sandinismo. Os dois partidos liberais são claramente de direita. É a Aliança Liberal Nicaraguense, que tem como candidato Eduardo Montealegre, e o Partido Liberal Constitucionalista, de que é candidato José Rizo. O primeiro está ligado ao actual Presidente da República, Enrique Bolaños, um “terrateniente” e empresário de origem conservadora, enquanto o outro se situa como o herdeiro Arnoldo Alemán, de sinistra reputação. A divisão entre estes dois partidos é mais natural que ideológica. O de Montealegre tem uma base tradicional de tipo clientelista, muito maior que o outro partido liberal.

Apesar dos esforços dos Estados Unidos para chegar à unidade dos dois partidos liberais, o que poderia levar à vitória da tendência politicamente próxima deles e economicamente de acordo com a lógica neoliberal, as duas organizações, até ao momento, não conseguiram unir-se. Face à divisão da oposição sandinista, tal unidade poderia garantir a consolidação do actual processo.

As correntes sandinistas são representadas pela Frente Sandinista e pelo Movimento de Renovação Sandinista (MRS). A este último, as sondagens atribuem-lhe mais ou menos 15% dos votos. O MRS apresenta-se como uma força de esquerda, inspirada pela grande tradição de luta de Augusto César Sandino. De facto, as declarações dos seus dirigentes e os documentos do partido não permitem que se fique muito seguro do seu carácter de esquerda. O candidato à presidência é um antigo alto funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento e, tanto na política externa como nas posições perante a conjuntura latino-americana de hoje não oferecem muitas garantias.

As principais críticas à Frente Sandinista são o autoritarismo que prevalece no interior do partido (danielismo), a falta de ética de vários dirigentes, a aliança duvidosa que fez com o partido do ex presidente Alemán (o Pacto), e a sua reconciliação, num único sentido, com a hierarquia eclesiástica, não reconhecendo erro algum. Em boa verdade, não há dúvida que estas críticas são pertinentes. Não obstante, elas teriam mais credibilidade se o MRS apresentasse uma real perspectiva de esquerda, como é o caso do Partido do Socialismo e da Liberdade no Brasil. Não se pode acusar o movimento, como já se fez, de ser um lacaio dos Estados Unidos. No entanto, o facto de dividir a oposição só pode favorecer o projecto imperial para a região. E isso ficou claro, em Setembro, com a visita do senador Burton (tristemente famoso pela Lei Helmes-Burton que reforçou o embargo contra Cuba), onde manifestou claramente o desejo de só se encontrar com o partido Liberal de Montealegre e com o MRS.

Mas, analisar esta situação em termos de esquerda não permite abandonar uma análise de classe. De facto, o MRS é, antes de tudo, uma iniciativa da classe média e média alta, com personagens de alto nível intelectual e moral, onde a dimensão ética imediata predomina sobre o político.

Pelo seu lado, a Frente Sandinista foi prejudicada por factores diversos. O primeiro foi a falta de ética de vários dos seus dirigentes presentes e passados. A segunda razão foi a lógica das alianças políticas constituintes da democracia parlamentar, com o fim de garantir parte do poder, o que levou a contradições insuperáveis, política e eticamente. Contudo, a Frente Sandinista conta com um real apoio popular. Também tem um programa de governo claramente mais de esquerda, que inclui uma aproximação com o eixo progressista latino-americano. Na actual situação da América Central, tal aspecto político é fundamental face à dominação neoliberal promovida por interesses estadunidenses, aliados com as classes com poder de compra da América Central.

À laia de conclusão podemos propor algumas considerações. De facto, não existem partidos realmente de esquerda na Nicarágua, mas o que se aproxima mais desta perspectiva é a Frente Sandinista. Deixar a via aberta ao triunfo do neoliberalismo político no país e da linha neoliberal dos Estados Unidos na região seria suicida para os que querem construir uma sociedade sobre outras bases, isto é, uma alternativa de esquerda.

A problemática nicaraguense coloca, além disso, um problema de base: qual é a lógica da democracia parlamentar, se no seu funcionamento liquida os seus fins (transformar a sociedade) para privilegiar os meios (ascender ao poder), transformando-se este último num fim? É a lógica eleitoral que se impõe, os partidos (mesmo os que se chamam de esquerda) actuam em função das eleições e esquecem tanto a reflexão de fundo sobre o que é um projecto de esquerda como a formação dos seus quadros.

As eleições nicaraguenses permitem também reflectir sobre a importância central da ética na política, o que se pode colocar a três níveis.

Em primeiro lugar, a ética da vida, isto é, como disse Enrique Dussel, a produção, reprodução e o desenvolvimento da vida humana. O actual sistema é um factor de morte. Na Nicarágua os seus efeitos são dramáticos. Face a um desenvolvimento espectacular de 15 a 20 por cento da população, criou-se uma forte vulnerabilidade da classe média e uma extensão da miséria e da pobreza no campesinato e nas populações urbanas do sector informal. É o conjunto do sistema neoliberal que constrói este modelo, não apenas o seu sistema económico, mas também o político e o cultural. A luta contra o neoliberalismo é o imperativo moral mais importante. Trata-se do nível ético que tem que orientar todos os outros e que constitui a base de qualquer esquerda.

A ética interna aos sistemas políticos (partidos) é um segundo nível que tem também a sua importância. A opinião popular é severa neste sentido. A falta de ética política teve um preço, tanto no Brasil como para a Frente Sandinista na Nicarágua. Trata-se, tanto da organização democrática interna como da recusa de todas as práticas de corrupção ou de alianças que contradigam os princípios. O terceiro nível é a ética pessoal dos actores políticos. Em muitos casos, temos visto, particularmente na Nicarágua, que esta ética também é importante e, na sua ausência, o preço político a pagar pode ser muito elevado.

Não há qualquer dúvida que para uma posição de esquerda contam os três níveis. No entanto, é o primeiro nível o que deve ser a base fundamental de todo o juízo político. Os outros dois níveis têm de ser reivindicados de modo permanente, mas em subordinação ao primeiro. Isso tem consequências nas eleições da Nicarágua, onde o MRS pôs a tónica sobre os dois últimos níveis da ética, o que poderia acabar com o primeiro, isto é, uma vitória da direita.

* Professor emérito de Sociologia, fundador e presidente do Centro Tricontinental (CETRI), Lovaina a Nova.

Tradução de José Paulo Gascão

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