«Fake News» e manipulação

Fernando Correia    14.May.19    Outros autores

«A História mostra (e o caso de Portugal, antes e depois do 25 de Abril, é bem esclarecedor) que os media, o jornalismo e aquilo a que poderemos chamar a fabricação mediática, em tudo o que ela envolve, não só não existem à margem da sociedade e das suas contradições internas, mas também de uma forma ou doutra, explícita ou implicitamente, sempre a sua intervenção exprimiu ou reflectiu os interesses em jogo e participou na sua luta.»

As Fake News (FN) estão na moda. É um bom tema para discutir e, principalmente, aprofundar. Mas, em si próprias, as notícias falsas estão longe de constituir o elemento mais importante para nos guiar no combate por uma informação verdadeiramente comprometida no aprofundamento da democracia em todas as suas vertentes. O conceito recentemente vulgarizado pela União Europeia de desinformação não se afigura suficientemente operacional para nos ajudar neste combate, que para alguns parece ser coisa nova, contra uma outra realidade: a manipulação da informação. Uma realidade indissociável de contextos económicos, políticos, sociais e ideológicos que não podem ser ignorados, sob pena de o combate ser apenas de faz de conta.

Neste século e na sociedade capitalista em que nos inserimos, falar do panorama mediático, e particularmente das FN, leva-nos a ter como referência os Estados Unidos. País onde não são apenas, só por si, os grandes monopólios da informação que dominam os media e condicionam e influenciam a opinião pública nacional e também a dos países ocidentais e de grande parte do chamado Terceiro Mundo. E a situação não é de agora. Nos anos 80 do século passado funcionavam mais de duas dezenas de organismos estatais vocacionados para essa tarefa.

A USIA (Agência de Informação dos Estados Unidos), criada em 1953 pelo presidente Eisenhower, possuía então 200 delegações, mais ou menos discretas, em 126 países, editava 12 revistas em 22 línguas, dirigia a de rádio “Voz da Liberdade”, com mais de 800 horas de emissão em 39 línguas e empregava um total de 8 mil pessoas. Sob a responsabilidade da USIA produziam-se para o estrangeiro cerca de 1700 programas de televisão, dobrados em 52 idiomas e transmitidos e retransmitidos em 2 mil canais estrangeiros.

Diz-se, e com razão, que notícias falsas sempre as houve. Não é esse plano longo na História que nos interessa aqui. O que se poderá é situar nesse período, e graças à sistemática utilização das novas tecnologias então em desenvolvimento, que as fake news começaram a adquirir um impacto político e ideológico organizado e sistemático nunca antes alcançado.

Da USIA fala-se hoje pouco, mas vem também desse tempo a fama, e o proveito, da CIA, criada em 1947 pelo presidente Truman, que além de outras actividades, digamos, para não dizer pior, mais espectaculares, sempre se dedicou também à utilização dos media para as operações de expansão e domínio imperialistas no mundo. As notícias falsas fabricadas pelos especialistas em comunicação da CIA foram desde então veiculadas por agências noticiosas, estações de televisão e de rádio, jornais e revistas e mais tarde outras plataformas em todo o mundo ocidental e Terceiro Mundo. No início dos anos 80 o Chicago Daily News noticiava que colaboravam com a CIA centenas de jornalistas, ou disso disfarçados, nos EUA e em outros países, e as suas notícias falsas (e as campanhas em que estavam integradas) eram difundidas por duas centenas de jornais, 30 agências, 20 estações de rádio, 25 editoras e outros meios. Entretanto, no Pentágono trabalhavam então mais de mil especialistas na promoção e propaganda do militarismo e suas virtualidades salvívicas.

Dir-se-á que isso eram outros tempos. Eram, com efeito. Mas seria ingenuidade pensar que as realidade de fundo mudaram e o imperialismo deixou de ser o que era. Ainda por cima com as novas e sofisticadas tecnologias disponíveis. Se disserem a Trump que ele não tem nada ver com Reagan ou Bush ele ficará ofendidíssimo.

Notícias e noticiários

Tem sido dito e escrito, e com razão, que a expressão FN é uma contradição nos termos: se é falsa, não é notícia. Mas esta distinção é uma subtileza que não pode iludir uma realidade evidente: a recorrente existência de notícias cujo conteúdo reflecte uma intenção não de informar mas de mentir e manipular. E até pode (poderia…) haver noticiários integrados apenas por notícias verdadeiras, impecavelmente feitas, isentas de falsidades, mas que, ao privilegiar umas notícias e ignorar outras, construiria um noticiário que, feito de comprovadas verdades, resultaria numa sólida Fake New.

A verdade é que pouco se avançou nos métodos clássicos de manipulação da informação, como o silenciamento de determinadas opiniões e acontecimentos considerados incómodos ou inconvenientes; a focagem do secundário em detrimento do essencial; a descontextualização dos factos noticiados, retirando-lhes o verdadeiro significado ou emprestando-lhe mesmo um significado diferente; a apresentação de previsões e «cenários» ou a realização de «sondagens» manipuladas com o objectivo de condicionar decisões ou atitudes relativamente a acontecimentos futuros; a fabricação de factos (nomeadamente políticos) destinados a criar uma falsa realidade, que depois é apresentada, citada ou comentada como a verdadeira realidade.

Por outro lado, existe uma dimensão da intervenção e da influência da comunicação social que não tem directamente a ver com o tratamento pontual dos factos e com as manipulações de que estes podem ser alvo, mas sim com aspectos como a filosofia implícita na concepção global dos noticiários e das edições, o tipo de temáticas seleccionadas e modos de abordagem, os critérios adoptados na escolha tanto dos protagonistas das notícias como dos comentadores e colaboradores, etc. Trata-se de uma dimensão dos media bastante estudada na sociologia da opinião pública mas que não cabe aqui aprofundar.

A questão, pois, não são apenas a censura (nas suas diversas modalidades), a autocensura ou a manipulação encaradas isoladamente, mas sim o sistema global da comunicação social no contexto da sociedade capitalista enquanto condicionante da vontade, do esclarecimento e das consciências ao serviço de determinados objectivos, com o recurso à divulgação e promoção de determinados valores, gostos, modas, estilos de vida, formas de pensar e de agir.

No caso concreto do nosso país, se tivermos em conta a TV, enquanto meio de maior impacte e influência, e fizermos o balanço às mensagens explícitas e implícitas contidas nas séries, jogos e concursos, nos comentários, entrevistas e talk-shows, nos serviços informativos e reportagens de actualidade, verificaremos (falando em termos médios e, naturalmente, não considerando por igual todos e cada um dos programas) a existência de tendências diversificadas, tais como a apologia do individualismo e do sucesso individual a qualquer preço; a apresentação implícita dos valores culturais, morais e outros da burguesia como modelo e como ideal de felicidade; o encoberto estímulo à abstenção cívica e à passividade social; a inculcação de uma sensação de impotência perante uma realidade exterior vertiginosa, ilógica e incontrolável (o papel aqui das chamadas notícias negativas é notório); o culto do divertimentismo, da irresponsabilidade, da superficialidade e do desinteresse pela busca das causas e das razões profundas; a valorização do insólito e do inexplicável; a defesa da caducidade da luta organizada e consequente, assim como do carácter ilusório e utópico dos esforços para alterar em profundidade o que existe; a identificação do protesto social com a revolta anárquica, barulhenta e ineficaz; a mal disfarçada complacência com a revolta individual, desligada dos movimentos colectivos, «heróica» mas inconsequente e sem perspectivas; a apresentação de determinadas políticas (favoráveis às classes, camadas e grupos dominantes) não como a expressão de interesses concretos mas como uma inevitabilidade pretensamente imposta pela «realidade» e pela «modernização»; a transformação das opções políticas numa escolha entre pessoas e não entre programas, estratégias e interesses de grupos e de classes; o elogio de uma solidariedade emocional e «caritativa» e de uma liberdade formal indiferentes aos meios de as concretizar em profundidade; a defesa de uma consensualidade aparente, erigida em valor absoluto ao serviço de quem tem a força para ditar os consensos.

Na sociedade capitalista, o conjunto dos grandes media (e, sob a sua influência, grande parte do sistema mediático) funcionam, através dos seus efeitos a curto, médio e longo prazos, como um instrumento de controlo social e de manutenção, legitimação e reprodução da ordem económica e social estabelecida.

O aviso de Marx… e «Lénine no telhado»

No final da 1.ª metade do séc. XIX as inovações tecnológicas na produção e difusão da imprensa davam um enorme salto qualitativo, que iriam proporcionar ao poder da burguesia novas e poderosas armas no exercício da sua hegemonia no campo da informação e da ideologia.

Em 1835 Charles-Louis Havas cria a primeira agência de recolha e venda de informações aos jornais, que depois se transformaria na Agência France-Presse; em 1844 Samuel Morse inventa o telégrafo; em 1847, nos EUA, começa a funcionar a primeira impressora rotativa; em 1848 surge nos EUA a Associated Press e três anos depois a Reuters. Novos aperfeiçoamentos e novos inventos permitem um salto qualitativo na comunicação, ao serviço da classe dominante.

Em 27 de Julho de 1871, no centro da revolução tecnológica em curso, Marx escreve ao seu amigo Ludwig Kugelmann uma carta em que diz: «Até hoje pensava-se que a formação de mitos cristãos durante o Império Romano só tinha sido possível porque a imprensa ainda não tinha sido inventada. É exactamente o contrário. A imprensa diária e o telégrafo, que num abrir e fechar de olhos, difundem as suas invenções em todo o mundo, fabricam num só dia (…) mais mitos do que aqueles que se criavam antes num século.»

Poucas décadas volvidas Lénine, cujo interesse pela imprensa e sua importância na luta de classes não foi menor do que o de Marx, escreveria: «Os capitalistas (e, com eles, por estupidez ou por inércia, muitos socialistas-revolucionários e mencheviques) chamam “liberdade de imprensa” à supressão da censura e à possibilidade para todos os partidos de poderem editar a sua imprensa. Na realidade, isto não é a liberdade de imprensa, mas a liberdade de os ricos, da burguesia, enganarem as massas populares oprimidas e exploradas».

A desproporção existente entre a enorme tiragem global dos jornais pertencentes à burguesia em comparação com a dos jornais democráticos, não obstante os apoiantes destes constituírem a maioria esmagadora do povo, Lénine pergunta e responde: «Porque é que isto sucede? “Todos o sabemos perfeitamente. A edição de um jornal é um grande e lucrativo empreendimento capitalista, no qual os ricos investem milhões e milhões de rublos. Na sociedade burguesa, a “liberdade de imprensa” consiste na liberdade, para os ricos, de enganar, corromper, mistificar sistematicamente, sem cessar, quotidianamente, por intermédio de milhões de exemplares, os pobres e as massas exploradas e oprimidas do povo».

À concepção de «liberdade de imprensa» defendida pela burguesia estavam associados, naturalmente, determinados métodos de praticar o jornalismo, os quais constituíam uma esclarecedora concretização daquela concepção.

«A imprensa burguesa recorre sempre e em todos os países ao seu processo mais usual e “infalível”: mente, faz barulho, grita, repete a mentira pois «dela ficará sempre alguma coisa”», escreve ele no Pravda em Abril de 1917.

Depois de citar notícias da imprensa segundo as quais numa reunião na sede do partido em Petersburgo ele tinha «vociferado desalmadamente» e num comício no Cinema Moderno discursara no telhado (!), Lénine esclarece ser tudo completamente falso: no comício no cinema nem sequer estivera presente, e na outra reunião, em vez de ter «vociferado», limitara-se a apresentar um relatório (tratava-se das famosas teses de Abril). E contra-ataca: «Quem “vocifera desalmadamente” são os capitalistas e a sua imprensa; esforçam-se por afogar a verdade, por impedir que ela seja ouvida, por tudo submergir sob uma torrente de injúrias e vociferações, impedindo um esclarecimento concreto».

Ao reler estas palavras de Lénine não podemos deixar de verificar (permita-se-nos o parêntesis) até que ponto, aqui e agora, elas se aplicam a certos programas que se reivindicam do jornalismo – desde logo na TVI – mas não passam de meras campanhas de mentiras e calúnias contra o PCP.

Media e luta de classes

Nos estudos e investigações, comentários e opiniões sobre o jornalismo (e os media em geral) subestimam-se ou mesmo ignoram-se frequentemente as suas estreitas relações com a sociedade e tudo o que isso implica, como se a comunicação e a informação se desenvolvessem num terreno social plano e neutro, pairando acima dos movimentos, dos interesses e dos conflitos próprios da sociedade em que vivemos.

A História mostra (e o caso de Portugal, antes e depois do 25 de Abril, é bem esclarecedor) que os media, o jornalismo e aquilo a que poderemos chamar a fabricação mediática, em tudo o que ela envolve, não só não existem à margem da sociedade e das suas contradições internas, mas também de uma forma ou doutra, explícita ou implicitamente, sempre a sua intervenção exprimiu ou reflectiu os interesses em jogo e participou na sua luta.

É necessário combater a tendência, que mais não é do que uma ratoeira mal armadilhada, para nos fazer esquecer algo que é essencial nas sociedades capitalistas: a existência de classes sociais com interesses diferentes, em alguns casos antagónicos.
Uma coisa são as novas tecnologias e as suas extraordinárias potencialidades para o bem dos homens, outra coisa é o manto dissimulador e anestesiante de uma «era da informação» encarada como uma espécie de «desígnio global da humanidade», perante o qual todos os homens teriam a mesma situação e os mesmos interesses, mas que mal dissimula motivações e objectivos de natureza diversa – económica, política e ideológica.

As novas tecnologias aplicadas aos media proporcionaram-lhes meios extraordinários não só para o alargamento e aprofundamento da informação e da formação mas também para o apoio ao ensino, à educação e à investigação, ao desenvolvimento, à cultura, ao aprofundamento da democracia, ao melhor conhecimento entre os povos. Mas o que acontece, no quadro das contradições próprias do capitalismo, é esses meios serem utilizados em estratégias de conquista de mercados, operações financeiras especulativas, luta desenfreada pelas audiências, mais ou menos sofisticadas formas de interferência neste e naquele país, alargamento de hegemonia política e ideológica, defesa ostensiva ou disfarçada dos interesses económicos e ideológicos da classe dominante.
A ligação entre o jornalismo e a sociedade capitalista assume um carácter de natureza estrutural, assente no tipo de propriedade dos media de maior influência e na sua natureza de classe. No nosso país, meia dúzia de grupos económicos dominam, directa ou indirectamente, mais de uma centena dos principais órgãos de comunicação na imprensa, na rádio, na televisão e no digital, assim com em outras empresas ligadas ao sector. São os donos da informação.
A autonomia e a qualidade do jornalismo e dos jornalistas, enquanto mediadores entre os acontecimentos e o público estão cada vez mais frontalmente postas em causa. Existe uma crescente subalternização dos jornalistas e do jornalismo em favor de sectores como a gestão, o marketing, as relações públicas, a publicidade. Refiro-me à grande maioria dos jornalistas, e não a uma pequena elite que, em geral, funciona dentro das redacções como correia de transmissão entre os interesses patronais e a grande massa redactorial proletarizada.

Temos pela frente uma luta difícil, uma luta que é de todos os que reconhecem na comunicação social um instrumento de informação e entretenimento, mas também de educação, cultura e civismo.

Uma luta dos que compreendem que o empenho na transformação da comunicação social está estreitamente ligado ao combate pela transformação da sociedade.

Fonte: http://www.omilitante.pcp.pt/pt/360/Tema/1341

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