FARC forçam Uribe a recuar

Farc
Alvaro Uribe afirmou sempre que nunca negociaria com as FARC-EP.Mas no final de setembro recuou e ,dirigindo-se ao país, informou estar disponível para desmilitarizar dois Departamentos a fim de criar condições adequadas para negociar com as FARC as condições de um intercambio humanitário de prisioneiros,mediado pela França,Suiça e Espanha.

FARC forçam Uribe a recuar

TROCA DE PRISIONEIROS NO HORIZONTE

Desde que assumiu a Presidência, Álvaro Uribe afirmou que nunca negociaria com as FARC. A sua estratégia dita de «segurança democrática» tinha como meta principal o aniquilamento da organização revolucionária. Pôs a premio a cabeça de Manuel Marulanda Velez e dos mais destacados comandantes da guerrilha. Sequestrou dois no estrangeiro em acções terroristas e entregou um deles aos EUA.

O secretariado das FARC-EP, indiferente ao discurso arrogante e belicista de Uribe, insistiu sempre pela necessidade de uma troca humanitária de prisioneiros.

No final de Setembro, finalmente, o presidente da Colômbia recuou e, dirigindo-se ao país, declarou estar disponível para desmilitarizar dois municípios a fim de criar uma zona adequada para negociar com as FARC as condições de um intercambio humanitário mediado por representantes da França, da Suiça e da Espanha.

O comunicado oficial foi redigido numa linguagem propositadamente ambígua. Uribe não ignorava que a iniciativa seria interpretada como confissão da falência da sua estratégia, baseada na procura da solução militar para o conflito.

Mas para o mundo e especialmente para o povo colombiano ficou transparente que as FARC alcançaram uma vitória importante qualquer que seja o desenvolvimento da situação criada.

Por que decidiu Uribe negociar com a organização revolucionária que pretende destruir e qualifica de «terrorista»?

Em primeiro lugar porque após dois anos de combates é impossível ocultar o fracasso do ambicioso Plano Patriota, a mega operação militar cujo objectivo era o cerco e aniquilamento das FARC nos Departamentos do Caquetá e do Meta. Sucessivas derrotas, e grandes perdas, provocaram tamanho mal-estar no exército que o comandante-chefe, o general Ospina se demitiu acompanhado por alguns generais.

A pressão internacional também pesou. Os apelos à negociação vindos do exterior multiplicavam-se. O governo de Uribe não podia ocultar a sua incapacidade de libertar os militares e políticos em poder das FARC. Entre os 58 , alem dos militares aprisionados, figuram governadores, parlamentares, autarcas e a ex-candidata à Presidência Ingrid Betancourt (franco-colombiana).

A imagem de Uribe sofria um desgaste permanente em consequência da sua recusa de negociar com as FARC a troca de prisioneiros. As famílias destes, independentemente da posição politica, qualificavam de desumana a intransigência do presidente. Os apelos ao diálogo com as FARC estavam a assumir a dimensão de clamor nacional.

A sinuosidade da oratória do presidente ilumina nestas semanas a dificuldade que encontra para controlar os falcões do próprio governo.

Uribe conseguiu durante anos unir a sua gente em torno da «solução militar». Hoje choca-se com a oposição de gente que sempre lhe foi fiel. Ministros influentes não aceitam o processo de negociação e defendem mesmo a intensificação da escalada militar.

O presidente já informou que os municípios previstos para o «encontro» são os de Florida e Pradera, no Vale do Cauca. Para suavizar a capitulação afirmou que as FARC não poderiam utilizar a área desmilitarizada como território seu e proceder como em El Caguan durante o governo de Pastrana. Uribe pretende que a segurança seja garantida por uma força internacional,o que é na aparência impossível.
Guerrilheiras FARC
Mas essas habilidades do presidente não enganam ninguém.As FARC já esclareceram que serão elas a assegurar a segurança dos seus negociadores se o processo for adiante. E exigem que todas as forças militares ou militarizadas seja retiradas durante um mínimo de 45 dias da zona das conversações.

A posição assumida pelo Secretariado do Estado-maior Central das FARC, através do comandante Raul Reys, é muito clara.

Identificam no intercâmbio humanitário apenas um passo no sentido da paz, da solução politica do conflito existente.

Propõem concretamente que o governo, após a troca de prisioneiros:

1.Desmilitarize os Departamentos do Caquetá e do Putumayo para efeito de conversações de paz.

2.Suspenda as ordens de captura que visam os membros do Estado-maior Central das FARC.

3. Solicite à Comunidade Internacional a anulação da qualificação das FARC como organização terrorista.

4.Reconheça a existência de um conflito social armado.

5.Suspenda as operações militares em escala nacional.

6. Garanta as deslocações de membros do Estado-maior Central.

7.Os Encontros Governo-FARC serão de «cara ao país», isto é divulgados amplamente pelo sistema mediático.

8.Aceites estas condições, as FARC, de acordo com o governo, iniciariam o caminho rumo a um cessar-fogo bilateral e à solução politica para o conflito social e armado.

Na mesdas negociações os materiais a discutir seriam:

a)A Agenda Comum do Caguan e a Plataforma para um Goverrno de Reconciliação e Reconstrução Nacional.

b)O Paramilitarismo de Estado.

c)A depuração dos elementos das Forças Armadas ligados ao paramilitarismo.

d)A liberdade da população civil acusada de nexos com a guerrilha.

f) O Tratado de Livre comercio com os EUA.

g) A Reforma Agrária imediata.

h)O regresso dos deslocados às suas áreas de residência.

i)A Reforma Urbana imediata

j) Politica de drogas.

k) Tratado de extradição.

l)Assembleia Constituinte.

h) Politica Energética.

Obviamente o Memorando das FARC, tornado publico a 6 de Outubro pp., coloca condições que Álvaro Uribe já informou que não está em situação de aceitar. As FARC exigem a libertação dos comandantes Simon Trinidad e Sónia ,mas ambos ,extraditados, encontram-se em presídios dos EUA.

A posição do presidente é, porem, muito incómoda. Bater com a porta e cessar os contactos com as FARC depois de ter proposto a abertura de conversações faria do governo alvo de criticas devastadoras.

O povo colombiano exige o intercâmbio humanitário.

Mas, independentemente de um acordo sobre o prosseguimento do diálogo após a troca de prisioneiros, não parece fácil um entendimento sobre a libertação de dois prisioneiros que são membros do secretariado do Estado Maior Central, os comandantes Simon Trinidad e Rodrigo Granda, sequestrados em Quito e Caracas, com a ajuda da CIA.

A complexidade da situação é transparente e desaconselha previsões sobre o desenvolvimento das conversações prévias em curso.

Uma certeza: a iniciativa está com as FARC.

Washington acompanha com muita apreensão os contactos estabelecidos.

Afinal o seu melhor aliado na América Latina, Álvaro Uribe Velez, figura com o número 82 na lista dos narcotraficantes do Departamento de Estado. Exibe - se hoje como campeão latino americano na luta contra o terrorismo, mas no seu pais todos sabem que foi ele, quando governador do Departamento de Antioquia, que fundou a Cooperativa «Convivir», para legalizar os paramilitares, braço afirmado do terrorismo de estado.

Acredito que o actual presidente da Colômbia, vocacionalmente fascista, teria inspirado a Shakespeare uma personagem inesquecível.

Serpa, 17 de Outubro de 2006

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