Fase crucial da Revolução Bolivariana

Luis Bilbao    24.Jul.14    Outros autores

Derrotada até agora nas tentativas de desencadear um pronunciamento militar e de provocar o caos nas ruas, a reacção venezuelana tem tido sucesso na guerra económica, em particular através do desabastecimento e da carestia de vida, cujas consequências afectam o moral e a confiança de franjas importantes da população. O combate nessa frente hoje decisiva parece não ser assumido até às últimas consequências por quadros de valor da Revolução Bolivariana. Nuns casos, porque se impôs a ideia de que é possível construir o socialismo sem enfrentar inimigos poderosíssimos. Noutros casos, porque perante a duríssima e eventualmente cruenta perspectiva de levar para a frente a transição optam por travar.

Consumada a vitória frente ao plano golpista desencadeado em Fevereiro, o governo de Nicolás Maduro enfrenta a necessidade de levar até ao fim o combate contra a “guerra económica”. Nesse ponto de extrema tensão, tem que lidar também com não poucos nomes associados ao processo iniciado e levado muito longe por Hugo Chávez, que dão um passo atrás ou ao lado no ponto crucial do combate.

Desde fins de Maio, tornou-se evidente que a “guarimba” (acções de desobediência civil – N.T) estava esgotada. Ficou igualmente à luz o fracasso da tentativa de lançamento de uma espécie de “foquismo” (modalidade de luta guerrilheira – N. T.) terrorista de extrema-direita baseado em comandos mercenários.
É o coroamento de uma cadeia de desastres políticos da oposição. Leopoldo López, opositor de proclamada filiação fascista e iniciador do plano golpista, entregou-se para preservar a vida perante a ameaça de outros partidos da coligação burguesa, depois do fracasso do delirante objectivo secessionista que tornaria Mérida independente da Venezuela. Como bravo combatente, López subiu por sua própria vontade para um carro onde o esperava o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, para o levar são e salvo para a prisão.

A outra cabeça falante da história, a deputada Maria Corina Machado amiga de George Bush foi expulsa da Assembleia Nacional depois de cometer um erro imperdoável: por indicação da CIA, aceitou o cargo de embaixadora do Panamá (!) para acusar a Venezuela perante a OEA (!!). Além disso, está agora formalmente processada pelos seus apelos públicos ao derrube violento do presidente Nicolás Maduro.

Como corolário, a denominada Mesa de Unidad Democrática, frente única contra-revolucionária promovida por Washington, desencadeou uma feroz luta interna e perdeu conjunturalmente qualquer possibilidade de ser e aparecer como direcção da oposição.

Numa tentativa desesperada para se recomporem, as fileiras dizimadas da contra-revolução foram instadas a mobilizar-se novamente em guarimbas na última semana de Junho. Pelo menos no seu primeiro ensaio, terça-feira 24, só conseguiram mostrar a sua extrema debilidade.
À luz destes acontecimentos, pôde o vice-presidente Jorge Arreaza afirmar: “A guarimba foi totalmente neutralizada. Os sectores golpistas da ultradireita nada conseguiram contra o governo e o Estado venezuelano”.

Raio inesperado

Um aspecto da furiosa ofensiva golpista ordenada pelo Departamento de Estado teve êxito no entanto: a guerra económica. Carestia e desabastecimento foram induzidos na própria altura em que Maduro ganhou as eleições a 14 de Abril de 2013 e não deixaram um momento de trégua desde então. Paralelamente, não poucos funcionários integrantes da parte moderada que existe em qualquer revolução, convencidos de que Maduro não resistiria, agravaram condutas corruptas em todos os campos. Um deles foi a da alocação de divisas, que deu lugar a uma fuga significativa de dólares, que ao fim de pouco tempo agravaria os efeitos da guerra económica.

O governo reagiu com um plano global para enfrentar essa ameaça, gravíssima por três razões fundamentais: contribuiu para o aumento dos preços e o desabastecimento; travou a projectada aceleração na transição pacífica e, sobretudo, afectou o moral e a confiança de importantes franjas da população que apoiam a Revolução.

Em plena marcha da contra-ofensiva programada pela direcção revolucionária político-militar para vencer a guerra económica que inclui a realização do III Congresso do PSUV, caiu sobre o agitado quadro político venezuelano um raio imprevisto: horas depois de substituído no seu cargo com todas as honras, o ministro da Planificação Jorge Giordani tornou pública uma carta com elevadíssimo tom crítico, na qual condena a política económica a cujo leme estava ele próprio e desqualifica de maneira injuriosa o presidente Maduro.

Dias mais tarde, outro ministro Héctor Navarro que mais ainda que Giordani acompanhou Hugo Chávez desde o início da Revolução solidarizou-se com o seu ex-colega de gabinete, ainda que o tenha feito sem atacar Maduro, a quem pediu em troca uma revisão das críticas.
Nem é preciso dizer que foi esta a pólvora com a qual a oposição interna e o imperialismo carregaram as suas armas sem munições. A partir daí, foi relançada com vigor a fogosa campanha de imprensa continental contra a Revolução Bolivariana e o seu presidente.

Aparte o facto de Giordani no seu texto omitir qualquer responsabilidade própria, o ex-ministro revela um ódio pessoal alheio por definição a um dirigente revolucionário. E, como fica provado, além de demorar 10 anos a criticar o que condena depois de perder o seu cargo, fá-lo sem a menor consideração pelo efeito político conjuntural da sua conduta.

Na catadupa de textos acerca desta atitude, destaca-se o do deputado do PSUV Jesús Faria que qualifica a carta de Giordani como “desconsiderada e infame”. Faria acrescentou que “ as suas críticas à política económica do governo são uma mistura de verdades, meias mentiras, meias verdades e muitíssimas mentiras”.

Não é aqui o lugar para analisar à lupa as ideias económicas de Giordani. Baste dizer que se em alguma coisa o ex-presidente Chávez não teve uma colaboração assente em sólida teoria marxista e eficiente capacidade prática foi na planificação económica. É fácil compreendê-lo ao ler o livro que o ex-ministro publicou no ano passado sobre o assunto, que eventualmente analisaremos nestas páginas. O tema agora é outro.
O breve texto de Navarro, um homem nobre e laborioso, não pode ser qualificado da mesma maneira. Contudo, também ele incorre numa espécie de reacção no estilo franco-atirador, desde logo alheia e incompatível com a acção num partido revolucionário que, para cúmulo, está debaixo de fogo inimigo.

A transição continua

“A igualdade entre os venezuelanos tem um único sentido e a contribuição de Hugo Chávez para o séc. XXI chama-se hoje socialismo bolivariano”, disse Maduro no final do desfile em comemoração dos 193 anos da batalha de Carabobo. “Estamos unidos firmemente em torno do Plano da Pátria, que é a obra mais completa e acabada para o presente e para o futuro do país, feito pela pena de Chávez” sublinhou, para completar o conteúdo essencial da sua mensagem de esperança em que “as forças dissolutas que se impuseram no séc. XIX não se venham impor agora”. Concluiu a seguir “exijo a máxima lealdade e disciplina a todos os líderes revolucionários”.

É a expressão política, completa, da contra-ofensiva económica e a preparação do país para a ameaça bélica constante que, embora com assento nas fronteiras da Colômbia, provém inequivocamente da Casa Branca.

Esse perigo parece não ser assumido até às últimas consequências por quadros de valor da Revolução Bolivariana. Nuns casos, porque se impôs a ideia de que é possível construir o socialismo sem enfrentar inimigos poderosíssimos. Noutros casos, porque perante a duríssima e eventualmente cruenta perspectiva de levar para a frente a transição optam por travar. Estes últimos estão por sua vez divididos entre os que têm por base um pensamento reformista e aqueles que por diferentes razões recuam perante a grandeza do desafio.

Só para seitas esquerdistas – no sentido que Lenine dava à palavra – o actual curso do governo venezuelano pode justificar condenações desqualificadoras, ainda que haja lugar para considerações críticas, inclusivamente severas. Aparte os casos individuais, trata-se de que também neste terreno o bolivarianismo revolucionário no seu conjunto é vítima de um momento histórico de extraordinária degradação na teoria, na organização e na estratégia socialistas. Sem essa perspectiva, são incompreensíveis as deficiências, as sinuosidades, os erros por vezes torpes em matéria económica – particularmente em relação com a planificação – ou noutras áreas. Contudo, o que surpreende não são estes falhanços, mas antes o facto de a Venezuela ter logrado avançar na revolução social, política e económica até ao ponto em que hoje está, nesse quadro de retrocesso mundial das lutas e da consciência do proletariado, tanto mais que para o fazer teve que combater milímetro a milímetro contra o pensamento reformista predominante no cenário político e intelectual em todo o mundo, infiltrado na Revolução através de milhares de ranhuras.

Como se isso fosse pouco, trata-se de um processo singular, visto que não parte da derrota violenta do Estado burguês e apresenta reptos políticos e teóricos nos quais os dirigentes são obrigados a “inventar ou errar”, como propunha Simón Rodriguez. Claro que nem todas as invenções saem bem. Os sábios professores que no seu gabinete condenam esse esforço revelam não servirem para conduzir uma Revolução viva e real.

Vale a pena recordar que, não só na Venezuela, o mundo não se divide em traidores e traídos, como parecem acreditar as seitas e os sectários, erro em que os militantes não deviam incorrer, mas divide-se em revolucionários e reformistas, sobretudo no turbilhão da luta de classes.
Até ao momento, a condução político-militar da Revolução Bolivariana tem dado sucessivas provas de que mantém alto o legado de Chávez e avança, nas circunstâncias dadas, pelo caminho da transição para o socialismo. Enquanto isso não puder ser negado por factos, a obrigação de todo o revolucionário é apoiar o governo bolivariano. Com direito à crítica, evidentemente, mas tendo em conta que criticar a Revolução não é tarefa a realizar através de um artigo na internet. Um revolucionário é por definição crítico e rebelde e igualmente militante, esforçado e leal, disciplinado, contrário a toda a mesquinhez e individualismo.

CALPU

Tradução: Jorge Vasconcelos

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