Fidel é universal

Volodia Teitelboim*    24.Dic.06    Colaboradores

Volodia
“Fidel é a grande figura histórica durante um longo período. No largo horizonte a sua presença parecia solitária. No fundo, sempre esteve acompanhado pela adesão dos povos do continente, do cubano em primeiro lugar. Abriu o caminho da independência plena, integrada pelo seu hábito incansável de grande educador. Cabe-lhe o papel de “pioneiro” na emancipação do continente latino-americano”

A História não apenas o absolveu, como o tem na conta de grande figura de dois séculos, que deixou gravada, não na efémera argila, mas no perdurável mármore do tempo, a plena vigência da possibilidade da mudança radical revolucionária da sociedade. Encabeçou por quase meio século, contra ventos e marés, um processo de renovação transcendental, não só para o seu país, mas também para a América Latina, para uma Humanidade descontente. Digamos que de suprema humanidade e de grandeza é feito este homem, que trabalha para alcançar um sonho milenar do homem, ainda adiado, e a sua obra. A sua divisa é humanizar a vida. Sua é a causa da justiça e da igualdade, sobretudo para os “pobres do mundo”, do homem esquecido, da mulher discriminada, para melhorar a condição humana e superar o subdesenvolvimento da “Nossa América”.

Conviver com os “grandes grandes” é privilégio apenas de algumas gerações. Colaborar na gesta, acompanhar o gigante, não um super-homem, é um privilégio, diríamos uma honrosa sorte, uma responsabilidade contemporânea.

Aqueles a quem coube viver e compartilhar a luta no “tempo de Fidel” e mesmo que a participação do cidadão comum e corrente seja diminuta, limitada, é indispensável a concorrência de uma multitude de vontades populares. Podem elas ser modestas, mas fazem parte silenciosa ou explícita da epopeia. Elevam-se sobre si mesmas face ao incessante ataque do inimigo. Com Fidel Castro aprende-se também a dignidade nas palavras e nos actos. O dirigente previdente e sensato praticou sempre a ética como cimento do edifício.

A face do servidor público inscreve-se sem alarde numa das maiores empresas criadoras do nosso tempo, à prova de mísseis. O seu labor não é fruto de inspirações repentinas, que às vezes também contam, mas de uma razão de existir, derivada de uma atitude que não vacila, de uma filosofia de vida, de uma posição revolucionária perante o mundo.

A sua conduta e proceder obedecem a princípios arreigados e são de hoje e foram a seu modo os de ontem e com a lição orientadora do seu mestre José Martí, estão em permanente processo de comprovação.

Sem acreditar em magia, uma sucessiva “operação milagre” é realizada por milhões de laicos e crentes. Fazem milagres de carne e osso, surgidos da sementeira de cada dia, do cultivo sistemático da consciência individual e colectiva, que trabalha para o advento de um futuro justo e o faz à luz do conhecimento, que não pode ser sectário.

Fidel, como ser humano, é um produto espontâneo bem dotado. Mas é também o resultado da mais resoluta vontade formativa e descobridora. É intérprete rápido das situações delineadas.

Não aceita os dogmas quase sempre fósseis. Fazedor de um magno labor sacrificado, que não partiu do nada, prossegue os esforços de sonhadores e de renovadores práticos, de homens de acção. Fidel afirma-se na história de Cuba. Trouxe para a contemporaneidade todos os combates do seu povo, é um perseguidor e realizador da utopia, da esperança herdada que se converte em maciça realidade, da tarefa pendente deixada por Martí. Em suma, o traçado da história sugere não só a mão do lutador, mas também o pulso do artista, porque é autor de uma obra completa, em vários actos.

Os sucessivos capítulos parecem às vezes parte de uma novela fantástica, que é também novela realista, com todos os seus sonhos, fantasias e factos palpáveis. Aprende dela. Após o duro e épico passo do Quartel Moncada, depressa vem a repressão, o cárcere na Ilha de Pinos [1] e o entreacto do México, onde se preparam para o desembarque guerrilheiro. Quando põem de novo o pé em território cubano, ao desembarcar do legendário Granma, terão de pagar um elevado preço.

Perante uns quantos sobreviventes, Fidel anuncia então a vitória inevitável da Revolução. Não se rendia diante das supostas fatalidades, porque estava plenamente convencido que a acção do homem as podia modificar. Viriam depois os anos de combate na serra e o embate com um exército armado até aos dentes. A história imposta pelo cobiçoso vizinho do norte e pelos crioulos às suas ordens tinham de terminar. O êxito não é o produto de uma operação militar, seja ela simples ou complexa. É também o resultado da inteligência, do talento estratégico e táctico, do uso da cabeça, do método de buscar inspiração nas raízes, de ir dos pés à cabeça ou melhor dizendo, da cabeça aos pés, porque a vitória acompanha os que trabalham com a consciência e fazem da cultura uma arma fundamental.

Não viu nunca Cuba como uma ilha perdida no oceano, mas sim como terra firme para realizar o sonho da liberdade que, já há dois séculos, iluminava o caminho dos Grandes Libertadores do século XIX. Vê Bolívar incitando ao amadurecimento da semente da unidade em vastos espaços de América Latina. Fidel é a grande figura histórica durante um longo período. No largo horizonte a sua presença parecia solitária. No fundo, sempre esteve acompanhado pela adesão dos povos do continente, do cubano em primeiro lugar. Abriu o caminho da independência plena, integrada pelo seu hábito incansável de grande educador. Cabe-lhe o papel de “pioneiro” na emancipação do continente latino-americano.

Volodia e Fidel

A voz de Fidel foi diariamente o grande despertador, o transmissor da cultura, do conhecimento, de um governo que sabe o que deve fazer e mantém inabalável a confiança em si mesmo.

Bolívar despertou de novo. Outros países se vão juntando à tarefa conjunta. Metade do território da América do Sul, o Brasil, disse sim à mudança, com o Presidente operário metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva. A Bolívia com Evo Morales na Casa do Governo do Palácio Queimado e em todas as regiões, é o exemplo demonstrativo de que os povos originários já não continuam a bater a uma porta fechada a sete chaves. Estão a reclamar os seus direitos e elegeram democraticamente nas urnas o indígena mandatado para proceder à refundação de um país, que é um continente, um continente para todos.

A Venezuela estende com Hugo Chávez e a revolução bolivariana, uma ajuda generosa, fraternal, gratuita, concreta às massas necessitadas das nossas terras. Há muito tempo que Cuba deu início a campanhas tão nobres e efectivas como devem ser entre irmãos, tanto nas esferas da medicina, do ensino, da assistência social a gente eternamente esquecida, fazendo desses laços, no fundo familiares, uma agenda para derrotar a enfermidade e a pobreza. A resposta daquela minoria opulenta, para quem a América Latina significa uma propriedade privada, é feroz.

Anuncia as penas do inferno para os povos que levantam cabeça, reclamando a sua plena libertação da fome e da indigência, o respeito pela sua cidadania, o direito a avançar conforme o seu próprio porvir, a sua idiossincrasia nacional, com respeito pela sua orgulhosa identidade, pelo seu estilo de vida, abrindo caminho às suas aspirações na linguagem “cantadita” de cada povo que fala a unificadora língua castelhana e usa também as suas línguas originárias.

Todos, incluindo o povo equatoriano, o país de Guayasamín, que mudou enormemente nestes últimos dias, anseiam construir o futuro conjunto com que sonharam os Libertadores, condenados à morte ou ao desterro pela sua imprescindível ânsia de reconhecer na América Latina esse “pequeno género humano” de que falava Bolívar. Ela precisa de todos, dos de diversos tempos, e mais ainda agora que estamos breve a cumprir dois séculos sobre a emancipação do antigo jugo colonial.

Lautaro, Tupac Amaro, Simón Bolívar, José de San Martín, Antonio José de Sucre, Bernardo O’Higgins, Salvador Allende, Augusto Sandino, José Martí, o Che Guevara, Fidel Castro, formam nas fileiras dos “grandes grandes”. Não semearam no deserto nem araram no mar e estão de novo, como sempre, em marcha, na ordem do dia, chamando os povos da Nossa América a tomar nas suas mãos a tarefa de completar o trabalho iniciado.

Estimado Fidel: Nos teus 80 anos, junto com a Fundación Guayasamín, com milhões de seres humanos por toda a Terra, te damos graças, desejando-te de todo o coração o melhor para ti e para Cuba “la bella”.

La Jiribilla. La Habana. 2006

(1) A Isla de los Pinos, desolado presídio político da ditadura pró-americana de Fulgencio Baptista, foi depois da Revolução rebaptizada com o nome de Isla de la Juventud (NT).

*Colaborador especial de odiario.info, escritor, Prémio Nacional de Literatura do Chile e ex-secretário geral do PC do Chile

Tradução de Carlos Coutinho

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