“Filantropia cultural”*

Filipe Diniz    28.Abr.15    Colaboradores

Um livro recentemente publicado fala de um dos mecanismos de lavagem de imagem a que recorrem as grandes empresas petroleiras do capitalismo: patrocinam as artes, financiando, por exemplo, museus e teatros de ópera. As mãos que querem assim lavar estão tanto manchadas de crude como estão manchadas de sangue.

Merece referência um livro agora publicado: “Artwash” (“ArteLavagem”, Mel Evans, Pluto Press, 2015). Fala da lavagem de imagem que as grandes multinacionais petrolíferas (Exxon, Shell, BP) operam através da “filantropia cultural”.

A publicação assinala o 5º aniversário da explosão da plataforma de exploração offshore da BP no Golfo do México, Deepwater Horizon. Alguns dados numéricos de uma longa lista publicada na altura (Independent, 14.09.2010): a BP previu um volume diário de derramamento de 1000 barris. O volume real foi de 53 000 por dia. Entre 50 e 60% do petróleo derramado permaneceu no mar, 35% poderá ter-se evaporado, apenas foi possível retirar 3%. São milhares as espécies marinhas afectadas. São milhões e milhares de milhões os danos, indemnizações, os gastos em processos judiciais, operações de relações públicas, etc. Má imagem e mãos sujas de crude.

Documentos revelados em 2011 informam que, meses antes da invasão do Iraque, a BP reuniu com o governo de Blair: “O Iraque é uma grande perspectiva petrolífera. A BP está desesperada para entrar ali e ansiosa relativamente a que acordos políticos não lhe venham a negar essa oportunidade”. Em reunião anterior, um responsável governamental esclarecia: “A Shell e a BP não poderiam dar-se ao luxo de não obter uma posição no Iraque […]. Estamos determinados em conseguir para as empresas do Reino Unido uma boa fatia da actividade num Iraque pós-Saddam”. É claro que na altura tanto Blair como a BP e a Shell mentiram sobre a questão. Má imagem e mãos sujas de sangue.

Então, que fazem estes gigantes capitalistas para lavar o sangue e o crude derramado? Entre outras coisas, fazem “filantropia cultural”. A BP, com sede na Grã-Bretanha, patrocina aí grandes museus e companhias de ópera. Poderia talvez dizer-se que isso nada terá de condenável na sociedade em que vivemos. Mas tem. O livro demonstra que estes patrocínios vêm em regra acompanhados de uma actuação censória: estabelecem condições para o que apoiam. Nada que não se soubesse já acerca do famoso “mecenato”.

Porque uma coisa é patrocinar “as artes”. Outra coisa é lidar com a dimensão de liberdade que qualquer expressão artística necessariamente contém. E essa as multinacionais não toleram.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2160, 23.04.2015

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