Formatação e desinformação
no «Mundo livre»

Jean Salem*    19.Oct.09    Colaboradores

Jean Salem
O texto que publicamos é a introdução que o professor Jean Salem, da Sorbonne, nosso colaborador e amigo, escreveu para a reedição de um livro – Cortina de Ferro sobre o Boul’Mich - Formatação e Desinformação no «mundo livre». Publicado há um quarto de século, esse trabalho de Jean Salem não perdeu actualidade. Nele se denuncia o funcionamento da engrenagem montada pelo capital para formar a opinião pública no Ocidente através de uma desinformação promovida por um sistema mediático perverso.

Porquê reeditar um livro que fala de batalhas já ultrapassadas, de um sistema social que é considerado obsoleto, de países que já não existem, e porquê continuar a falar de campanhas de propaganda, tanto tempo depois de elas terem cumprido a tarefa que delas se esperava? Porquê voltar, em 2009, ao anti-sovietismo e, mais genericamente, ao anticomunismo do fim do século passado? A “culpa”, se eu fosse obrigado a responder a estas perguntas, a culpa cabe: 1º - à conjuntura: 2º - às edições Delga; 3º - à katastroika de que Mikhail Gorbatchev foi o actor mais representativo; e 4º – à intensificação do delírio que tende a criminalizar qualquer sistema, e até mesmo qualquer movimento social, hostil ao culto do bezerro de ouro e dos valores do capital.

“O ditado diz: ‘Morreu o bicho acabou a peçonha’. Mas será que a peçonha acaba logo que o bicho morre? E, de resto, será que o bicho morreu mesmo?”, perguntava muito a sério o ensaísta Vladimir Volkoff, em 1992 [1]. O mesmo que lamentava, noutra página, que o governo da Quarta República, tivesse permitido “que certos homens vituperando pelos cafés de Saint-Germain-des-Près ou debitando impunemente o seu fel em panfletos que não teriam aparecido duas vezes no tempo de Clemenceau, pudessem insultar… desacreditar, ridicularizar, desmoralizar o exército que a República enviara para se bater na Indochina e na Argélia” [2], esse mesmo alertava, a partir desse momento, contra o “nascimento duma conspiração a céu aberto”: o “neo-comunismo”; ameaçador na Rússia, choramingas no ocidente, conforme teve o cuidado de esclarecer [3]. – Já lá chegámos. Ou quase.

Assim – um exemplo entre milhares de outros – a Universidade assistiu, durante os meses de Fevereiro a Março de 2009, ao maior movimento de contestação jamais visto desde Maio-Junho de 1968. Ouviram-se, durante esses belos momentos, slogans tipicamente “neo-comunistas”, tais como: “A Universidade não é uma empresa, o saber não é uma mercadoria”. Em frente da Sorbonne, guardada, fechada com correntes, encerrada, pelo sim pelo não, por um cordão de CRS (Companhias Republicanas de Segurança – N.T.), reforçado por esquadrões de segurança privada, ouviram-se os gritos dos estudantes: “Polícia por toda a parte, justiça em parte alguma!”; “Faculdade aberta aos filhos dos trabalhadores; faculdade fechada aos interesses privados”, etc. Nas assembleias que reuniram 500 e por vezes 1000 jovens, foram proferidas, com entusiasmo e quase com obstinação, palavras de ordem que pareciam ressuscitadas dos velhos tempos: “Viva a juventude e a classe operária!”; “O capitalismo é a causa de todos os males!”. A “cadeia humana” de 3000 pessoas que se formou em volta da Sorbonne, no dia 4 de Março de 2009, cadeia destinada a proteger simbolicamente a Universidade contra a clique neo-liberal; a ronda dos obstinados, na praça de Grève (praça do Hotel de Ville), eco longínquo da luta das Loucas da praça de Maio, em Buenos Aires; os 3 milhões de franceses que, no dia 19 de Março, desfilaram nas manifestações sindicais, tudo isso – entre milhares de outros movimentos sociais sempre balbuciantes, esporádicos, com uma terrível falta de organização e, sobretudo, de perspectivas – marcou o fim dos 25 anos de chumbo ou, se preferirem, assinalou em pleno dia a amplitude da crise do capitalismo e a necessidade vital de um projecto que ultrapasse o palavreado altermundialista, muito simpático, mas estéril.

No quadro de uma “greve activa” que, na ausência de um curso, propusemos aos nossos estudantes, fiz uma conferência no Instituto de Artes Plásticas da nossa Universidade a que dei o título: “A crise: a lógica deles e a nossa”. Foi em 16 de Março de 2009, por ocasião duma “Grande Festa dos condenados da Terra”. A seguir, cantou uma rapariga, acompanhando-se ao piano. Pelas 20 horas, depois de um aperitivo, foi finalmente proclamado o “fim oficial do capitalismo”! Numa outra ocasião, apresentei a estudantes do primeiro e segundo anos “Karl Marx, o regresso”, – uma outra conferência na qual falei do impressionante renascimento e do crescente êxito dos estudos marxistas em França e no mundo inteiro. Inevitavelmente, referi-me de passagem ao dinamismo e ao acolhimento mais que favorável feito no seminário que desde 2005 organizamos na Sorbonne, Stathis Kouvelakis, Isabelle Garo e eu próprio, com o apoio do colectivo “Marx no século XX”.

Em todas estas felizes circunstâncias, ou em quase todas, pude avaliar que a previsão que eu tinha feito no início dos anos 80 estava em vias de se realizar: nessa altura, pensava eu, feliz será (ao contrário de todos os que tenham escolhido freneticamente a “tangente” ou a traição pura e simples), bem-aventurado será aquele que, ao fim de cinquenta anos, estiver em consonância com a juventude. Porque é isso mesmo que está a acontecer: assistimos finalmente ao “regresso” das classes sociais, à ressurreição dos mortos, à exposição aberta das relações sociais em toda a sua selvajaria, desumanidade e cinismo. O capitalismo moderno, triunfante e desregulamentado, aproxima-se como nunca do seu conceito e dos seus princípios fundadores. E a juventude deste mundo já não acredita nele, para não dizer que se afasta dele em massa. – Mas pude constatar que há um ponto em que a corrente continua a não passar. No que se refere à questão dos países ditos “de leste” e à história do movimento comunista, a lavagem ao cérebro foi efectuada de forma duradoura. Alguns dos meus interlocutores mais mobilizados, mais empenhados, mais instruídos mesmo, tentaram convencer-me com uma convicção espantosa que o comunismo e o nazismo deviam ser considerados duas “atrocidades” comparáveis, quase como coisas equivalentes, e que não valia a pena protestar contra esse dado incontestável. É pois nesses jovens muito sinceros e muito justamente revoltados que eu penso, ao aceitar que sejam publicadas de novo linhas escritas já há muito tempo.

II

Vinte anos depois. Ou mesmo… vinte e cinco… Foi com efeito em 1985 que publiquei o panfleto que irão ler; e foi mais de vinte anos depois que os meus amigos Aymeric Monville e Edmond Janssen (ou seja, as edições Delga) me pressionaram amavelmente para o reeditar. Desde a data em que apareceu pela primeira vez, parti o tornozelo direito, depois recuperei totalmente a agilidade da perna, mas quantos países de que se fala na obra desapareceram de corpo e bens [4]. A começar pela União Soviética. E quantos outros apareceram, por vezes surgidos do nada.

Hoje exponho-me totalmente. Durante este lapso de tempo bastante considerável na escala da vida de um homem, terei ganho a possibilidade de não ter que voltar a recorrer ao uso de um nariz postiço ou de um pseudónimo, numa Universidade francesa que brilhou especialmente durante este quarto de século por aquilo que Eric Hobsbawm designava como o seu “antimarxismo quesilento” [5]. Não que não tenha sofrido algumas partidas bastante memoráveis, não que não tenha havido diversas lutas que me proporcionassem ocasião para tal, mas cruzei-me ali com colegas brilhantes, talentosos, corajosos e amáveis em todos os pontos. Mas também, de passagem, arranjei o máximo de “amigos” entre todos os que, freneticamente, viraram as costas aos seus compromissos da juventude e não têm rigorosamente nada a dizer àqueles ou àquelas que ocupam agora a sua vez de serem jovens: antigos de sessenta e oito, que agora são mais ou menos notáveis, ex-maoistas que estão constantemente a fazer votos pela próxima guerra projectada pelo Império, não perdem nenhum massacre, digerem gulosamente as torturas, os bombardeamentos, os massacres e – muito mais perto de casa – a destruição metódica das próprias bases da civilização.

A edição original deste livro (que no entanto não fala deles!) “atingiu” uma centena de “profissionais” dos meios de comunicação. Uma linha no L’Humanité, devida a Arnaud Spire, e uma crítica na revista France-URSS: foram os únicos ecos que se puderam ler no pequeno mundo dos meios de comunicação franceses. Mas, com o apoio de Daniel Billard (que redigiu o Prefácio do editor) e o de muitos militantes benévolos, lá conseguimos, melhor ou pior, esgotar os 3 000 exemplares imprimidos na altura pelas Editions de la Croix de Chavaux.

A segunda razão, pela qual acho útil reeditar este livro, é pois o encontro com jovens editores que decidiram revoltar-se contra a censura, contra a capa de silêncio e de conformismo que se instalou em França, de há vinte cinco ou trinta anos a esta parte, contra a simples expressão das ideias comunistas.

III

“Queda do muro”. Queda do muro de vergonha de Berlim, claro (todos os outros muros que têm sido construídos, neste mundo um pouco mais bunkerizado dia após dia, sem dúvida são tudo menos “vergonhosos”?) Queda do muro de Berlim de que em breve se irá festejar até à náusea o seu vigésimo aniversário, ao ponto de se falar mesmo de o “constitucionalizar” de algum modo: “nazificando” urgente e oficialmente o resultado final do “socialismo real” em qualquer moção oficial, num texto que será posto à votação em Estrasburgo ou noutro sítio qualquer, – a fim de evitar que os jovens continuem a considerar o comunismo vantajoso como alternativa à “democracia liberal”,

Importante desgaste colateral: rapidamente se veio a lamentar, entre os observadores menos prevenidos a favor dos antigos regimes ditos “de leste”, os bons tempos da guerra-fria. Se o século XX começou com a Primeira Guerra Mundial, veio a terminar em 1991 com o fim de um sonho, duma esperança, mas também com o fim da fractura de um mundo que foi declarado, desde logo e apressadamente, pacificado [6]. “O pólo duplo americano-soviético baseava-se numa relação de competição extremamente perigosa, mas estável” foi isto que escreveu Hervé Coutau-Bégarie, em 1995 [7]. Ora, “o optimismo gerado pelo fim inesperado […] da União Soviética”, acrescenta o autor mais à frente, “deu lugar a um pessimismo amplamente partilhado” [8]. Na verdade, à euforia de comando, à alegria telecomandada seguiu-se logo um desencanto geral. E a paz, desde então, tornou-se mais improvável do que nunca [9].

A eleição de Mikhaïl Gorbatchev, a 11 de Março de 1985, para o cargo de secretário-geral do PCUS, abriu assim a última fase do período soviético da história russa, um período de seis anos no decurso do qual, de reforma em reforma, de exagero em exagero, um projecto que pretendia tornar mais eficaz o sistema soviético existente acabou por estilhaçar e fazer desaparecer a URSS. No entanto, o ano de 1991 entrou na história como o fim de uma experiência iniciada em 1917, depois institucionalizada em 1922 pelo tratado que criou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Uma enorme “revolução” ideológica, política, diplomática, económica e social abalou não apenas o conjunto das estruturas estatais e económicas montadas a partir de 1917, mas também a ordem europeia e mundial. De modo que a paisagem internacional que se segue à divisão do mundo em dois “blocos”, e depois à hegemonia de uma única das duas antigas “superpotências”, tende para um sistema cada vez mais fraccionado, com grandes blocos regionais, separados por vastas zonas de instabilidade em que estas últimas vão continuar a querer dividir-se e proteger-se.

Alguns clichés, repetidos até à exaustão, funcionaram a “quente”, como análise ou, pelo menos, como aval do acontecimento. “Incapaz de se renovar”, decidia Anne de Tinguy, o sistema “auto-destruiu-se” [10]. A mesma ideia e o mesmo palavreado mediático, algumas páginas mais à frente: “o regime soviético, minado por dentro, incapaz de se reformar, auto-destruiu-se” [11]. Para não deixar dúvidas, acrescenta-se que “este fenómeno […] não foi consequência de pressões externas” [12]: quando muito admite-se que foi “acelerado pela evolução da relação da URSS com o mundo exterior” [13]. “A URSS auto-destruiu-se”: diz-se e rediz-se na pág. 76, para quem não tenha compreendido bem. “Ela [a URSS] desmoronou-se porque a ideologia que sustentava o sistema sócio-político que ela construiu não passava de um engodo. Este acontecimento teria que ocorrer mais cedo ou mais tarde. Sucedeu no dia em que foram feitas reformas que atingiram os fundamentos do sistema, reformas que falharam todas” [14] “Perante a estupefacção geral”, “em poucos meses, como um castelo de cartas”, o sistema “desmoronou-se sozinho” [15], etc. O colapso (ou por outras palavras a queda, a decomposição, ou ainda o estilhaçar da União soviética), escrevia mais perto de nós Nick Besley, ficaria a dever-se a quatro causas, todas elas internas em última análise: a ascensão dos nacionalismos, tornada possível pelo fim da Guerra-Fria; os maus resultados do sistema económico; o “desmembramento da elite”; e o fracasso das Instituições do Estado” [16]. Quanto a Moshe Lewin, normalmente muito mais circunspecto, afirmava em 1997 que “não foi a corrida ao armamento […] que provocou a morte da URSS, embora tenha tido alguma influência”. O “factor decisivo” teria que ser encontrado, segundo ele, “do lado dos ‘mecanismos’ próprios do sistema soviético” [17].

Já apontei tudo isto na introdução da minha obra intitulada: Lénine et la Révolution [18]. A Queda do Império Soviético [19], a Desintegração da União Soviética [20], as Causas do Colapso Soviético [21], o Enigma da desagregação comunista [22], etc. – a lista das expressões ou das declarações deste tipo relacionadas com o fim da União soviética em 1989-1991 podia dar lugar a uma interminável litania de apreciações todas elas convergentes: a URSS, como se fosse uma criança desastrada (ou um deficiente motor?) caiu sozinha…

No entanto, Albert Soboul gostava de repetir, nos seus cursos consagrados à Revolução francesa, que a 10 de Agosto de 1792 (o dia da insurreição popular que obrigou a Assembleia legislativa a declarar a suspensão da monarquia) não tinha havido nenhuma “queda” mas uma substituição da monarquia. Porque, acrescentava com um sorriso, ela não tinha caído sozinha! E a URSS também não, em 1991! Não é verdade que o início da “guerra-fria” e o fim do seu primeiro impacto, depois do entremez da “détente” nos anos 72-80, foram marcados por dois avisos militares dos mais explícitos? Foram duas ameaças, não de simples guerra, mas de guerra total ou de aniquilamento: a destruição atómica de Hiroshima e de Nagasaki decidida por Harry Truman e o programa de “guerra das estrelas” lançado por Ronald Reagan [23]. Ninguém ou quase ninguém, entre os que descreveram o recente fim da URSS, se recordou pois que um dos objectivos explícitos da iniciativa de defesa estratégica (SDI), lançada em 1983 pela equipa Reagan, era “pôr de joelhos o poderio soviético”, abalá-lo e arruiná-lo através da retoma desenfreada da corrida aos armamentos. – Parece-nos também absolutamente evidente o carácter mistificador de categorias que pretendem definir como um processo puramente espontâneo e interno, uma crise que não pode ser separada da formidável pressão exercida pelo campo adversário. E a categoria de “implosão” ou de “colapso”, tal como todos os seus sucedâneos atrás enumerados, podia muito bem fazer parte duma mitologia apologética do capitalismo e do imperialismo. Já não serve para mais nada, como escreveu Domenico Losurdo, senão para “coroar os vencedores” [24]

A bem dizer, a URSS estava empenhada, no início dos anos 80, numa competição militar não só com os Estados Unidos, mas com o conjunto do mundo exterior, incluindo a Europa, a China e o Japão. Os adversários dos soviéticos tinham, tácita ou expressamente, a possibilidade de partilhar o fardo dessa competição militar, coordenando as suas políticas e unindo mais ou menos os seus esforços. A situação era muito diferente do lado da URSS: os seus aliados e clientes da Europa, da América central, da Ásia de leste, do Médio Oriente e de África não estavam em condições de a ajudar. È pois fácil de ver que a decisão americana de elevar o nível tecnológico da corrida aos armamentos colocou a União soviética numa posição mais que difícil. Face à iniciativa de defesa estratégica lançada pela administração Reagan em 1983, das duas uma, ou a URSS perdia a competição pela sua incapacidade de ombrear com os Estados Unidos na área económica e técnica, ou tinha que promover reformas políticas e económicas radicais. E foi ao “complexo militar-industrial” soviético, que até aí tinha sido o principal obstáculo às reformas, que coube, de certa forma, a missão de avançar com as mudanças que custaram definitivamente a vida à URSS.

Parece pois fácil de ver, perante estas recordações, que, se a União soviética tivesse utilizado o seu potencial humano, intelectual e económico para fins civis em vez de ser forçada a desperdiçá-los fabricando sempre mais armamento, teria vivido mais tempo e teria podido, sem dúvida alguma, transformar-se num Estado mais próspero e mais estável – Falta dizer que “desmoronou-se” em 1991, em vez de em 1951 ou em 1971, apesar de o peso da corrida aos armamentos na economia soviética (em percentagem do PIB gasto com a defesa) ter sido muito mais pesado no início da guerra-fria do que no fim. E ainda que o comunismo esteve triunfante no início, depois estagnou e por fim decaiu. O imobilismo político que prevaleceu durante duas décadas, a extensão da corrupção, o cepticismo generalizado em questões de ideologia, a divisão do movimento comunista internacional, etc., terão obviamente favorecido o desmembramento de um sistema já enfraquecido pelo custo insuportável duma corrida ao super armamento que, mais expressamente do que nunca, lhe tinha sido imposto.

Aquando do plenum de Abril de 1985, Mikhaïl Gorbatchev construiu o seu primeiro grande discurso em torno duma crítica da situação da economia e da sociedade para apelar a uma “aceleração” [ouskorenié) do ritmo do desenvolvimento nacional, o qual registava uma inquietante estagnação já há vários anos. A perestroïka (a “reconstrução”) ainda não aparece com este nome, mas vai tornar-se a palavra de ordem nacional por ocasião do XXVII Congresso do Partido, em Março de 1986. Para M. Gorbatchev, a perestroika é a “política que tem por fim activar os progressos sociais e económicos do país e criar uma renovação em todas as esferas da vida”. – No plano económico, os resultados dos anos 1985-1991 foram todos muito catastróficos. O nível de vida dos soviéticos afundou-se, tornando menos credível, de dia para dia, aos olhos da população, o discurso sobre as reformas económicas. Os resultados agrícolas caíram e o abastecimento ressentiu-se de imediato. As taxas de crescimento industrial não pararam de baixar, até atingirem o zero (em 1989) e -8% em 1990. As tensões inflacionistas agravaram-se, em conjugação com um importantíssimo défice orçamental, que ultrapassou, em 1988-1989, 100 mil milhões de rublos (11% do PIB). O rublo mergulhou (10 rublos para 1 dólar americano no final de 1990, 120 rublos um ano depois), e a desorganização da produção forçou o governo a reintroduzir as senhas de racionamento para alguns produtos [25].

A perestroïka gorbatcheviana foi na sua origem uma revolução feita por cima: e assim se manteve, no essencial. Destruindo os mecanismos que mantinham a coesão da sociedade, foi, e todos mais ou menos estão de acordo com isso, uma “revolução patusca”, uma “revolução sem revolucionários”, uma “revolução de veludo”… [26] Serviu sobretudo os interesses da jovem geração de burocratas, a mais dinâmica, – em especial, a que, nas repúblicas, desejava ver-se livre dos sobreviventes do período bréjneviano. Esta parte da nomenklatura, que Gorbatchev cedo desiludiu, situou-se como um dos grupos que podiam formar por direito próprio o núcleo duma futura classe proprietária; depois passou para o lado de Boris Eltsine, e depois favoreceu, de facto, a concentração do poder nas mãos da oligarquia financeira. – Quanto à não menos célebre glasnost (“transparência”, “publicidade”), terá sobretudo conduzido ao extraordinário florescimento de meios de comunicação reaccionários ou sociais-democratas e ao apagamento acelerado das posições comunistas. Terá permitido, de passagem, uma revisão total, ou mesmo uma satanização descabelada do conjunto da história soviética. “Em dois anos” escreveu Martin Malia (que se regozijava com isso) “deitou abaixo setenta anos de trabalho ideológico” [28]. O partido permitiu que a direita impusesse pouco a pouco a sua própria interpretação das reformas. E assim se passou do reconhecimento da diversidade das formas de propriedade à condenação sem apelo do sector público e à exaltação desmedida do privado. Quanto ao respeito pelas identidades nacionais, chegou-se a pouco e pouco às piores derivas identitárias, chauvinistas, centrífugas, mortíferas [29].

O fracasso do golpe de 19 de Agosto de 1991 permitiu finalmente que Boris Eltsine, na altura presidente do Parlamento da Federação da Rússia, suspendesse o Partido comunista, e depois o interditasse [30]. O fracasso desse golpe muito mal cozinhado acelerou, além disso, a desagregação da União: oito repúblicas proclamaram a sua independência. As três repúblicas bálticas obtiveram de imediato o reconhecimento internacional. A 8 de Dezembro de 1991, os presidentes da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia, reunidos em Minsk, constatando que “a União soviética já não existia”, decidiram formar uma “Comunidade dos Estados independentes” aberta a “todos os Estados da ex-URSS”. M. Gorbatchev não podia fazer outra coisa senão pôr fim às suas funções de presidente duma entidade que tinha deixado de existir. – “Esforçando-se por esbater a luta dos dois sistemas, colocando a luta de classes em segundo plano e esquecendo a guerra ideológica que esmaltava a coexistência pacífica, colocando a tónica sobre os problemas humanitários como “património comum”, a perestroika, conforme escreveu Lilly Marcou, roubara a razão de ser aos velhos canhões do comunismo [31]. Foi por isso que me forneceu, se me atrevo a dizê-lo, uma terceira razão para que seja reeditado um livro que data desse período durante o qual tanto se barafustou em Moscovo [32], com os resultados conhecidos que acabamos de lembrar resumidamente.

IV

Não é aqui que cabe multiplicar as “questões” susceptíveis de contradizer o pronto-a-pensar do momento. Não é aqui o local para perguntar como é que uma força tão nociva como o comunismo conseguiu conservar tantos adeptos e como é que pôde continuar a acumular êxitos eleitorais, por vezes espantosos, como aconteceu em Dezembro de 1995, com a vitória dos comunistas russos na Duma, por exemplo [33]. Um ano depois, em 1996, embora todo o aparelho administrativo estivesse mobilizado para a reeleição de Boris Eltsine, este acabou por não obter senão 53,7% dos votos, contra 40,4% do dirigente comunista Guennadi Ziouganov. Também não é aqui o local para criticar a história sonhada, a história passada pela peneira da doutrina liberal que desempenha desde então o lugar de koiné, de língua veicular, aqui como em qualquer outro lugar: segundo um estudo do IFOP, só 20% dos franceses achavam em 2004 que o papel da URSS tinha sido preponderante na vitória contra o nazismo (contra 57%, segundo parece, em 1945). A ignorância, de resto, é gigantesca, a tal ponto que uma maioria dos jovens franceses interrogados em 1984, por ocasião duma outra “sondagem”, teria considerado que a URSS tinha sido aliada da… Alemanha hitleriana durante a Segunda Guerra Mundial [34].

Para ser franco, o meu Rideau de fer sur le Вoul ‘Mich não tinha em vista, de forma alguma, apresentar um rosário de pensamentos edificantes em relação ao ideal comunista e muito menos tentar estudar com alguma profundidade a história diplomática da União soviética [35]; não pretendia, tive o cuidado de o esclarecer desde início, senão compor uma apologia do “socialismo real” [36]. Tentei sobretudo sublinhar a assustadora porosidade que existe, mais neste capítulo do que em muitos outros, entre a mentira pura e simples, a sua amplificação mediática e os discursos pretensamente sábios de “investigadores” sempre mais partidários e de ano para ano cada vez menos rigorosos. O que se seguiu não me desmentiu… Em 1992, V. Volkoff, o ensaísta já referido, declarava sem hesitar que “o comunismo […] provocou em setenta anos uns duzentos milhões de mortos” [37]. Num registo um pouco mais sério, Le Livre noir du communisme (200 000 exemplares vendidos em França, outros tantos em Itália) reduzia generosamente para metade este pretenso total, mas beneficiava duma verdadeira campanha de propaganda destinada a encaixar nos crânios a ideia de que a criminalidade reside no próprio coração do empreendimento comunista [38]. Já não era o “paradoxo de um grande ideal que termina num grande crime”[39]; era uma “lógica genocida”, de que se podia falar à sombra de um boné do CNRS (Centre Nationale de la Recherche Scientifique – N.T.) [40]. Dois anos antes, Le Passé d’une illusion, o livro de François Furet, produto tardio da guerra-fria e da caça às bruxas, tinha tido direito a uma promoção do mesmo tipo [41]. Pelo que não me arrependi de ter escrito em 1985, no que se refere às pseudo-codificações e às infindáveis enumerações: “A sovietologia é a aventura do Porque não?” [42]. – E quando se invocam sem sorrir “estudos” norte-americanos que compararam muito a sério a URSS (“superpotência subdesenvolvida”, acrescentava o autor em questão) com “um Alto-Volta [que possuía] armas nucleares”, todos percebemos muito facilmente que o que se propõe aos leitores tem tanto de propaganda pura e simples como de pesquisa universitária [43]. – De facto, tínhamos considerado ingenuamente até então que a transformação da URSS em semi-colónia, a sua terceiro-mundização, que a fuga de cérebros e o sentimento de que estava tudo à venda tinham sido subsequentes e não precedentes à dolarização progressiva da sua economia, à imposição de um modelo americano omnipresente, invasivo, com os seus subprodutos mais nocivos (reportagens de publicidade – passando por “Dallas”) [44]. Pensávamos que tinha sido isso que tinha devastado e desnaturado um país-continente, um velho “país do terceiro mundo”, que precisamente tinha conseguido “resolver os três problemas fundamentais: alimentação, educação, saúde” [45].

A bem dizer, poderão contrapor-me e com razão, no país da Volta à França gangrenada pela droga e pelos inúmeros cancros muito suspeitos que atacam os ciclistas campeões, que as hormonas da Alemanha de Leste não foram uma pura invenção; que as hormonas parecem de facto ter sido objecto duma cultura bastante florescente na antiga RDA. Posso mesmo reconhecer sem pejo que o matraquear foi tal que, durante dois ou três dias, em Abril de 1986, o desastre de Tchernobyl me pareceu muito provavelmente exagerado, como tudo o resto, pelos meios de comunicação ocidentais (o seguimento depressa demonstrou a amplitude da catástrofe e ensinou-nos, ainda por cima, que esta fora conscientemente subavaliada pela “comunicação” governamental francesa e pelos seus substitutos complacentes: com efeito, enquanto denegriam cada vez mais a opacidade das informações soviéticas, os mesmos proclamaram, sem rir e ao mesmo tempo, que a nuvem radioactiva tinha parado sabiamente… mesmo na fronteira do hexágono). Bem me podem encostar à parede com todos os discursos que quiserem sobre a realidade do fracasso do “socialismo real”. Tu próprio, caro leitor, tens autorização para considerar, como aconteceu com Zinoviev, que a diferença entre socialismo e perestroika é mais que ténue:

“- Sabem qual é a diferença entre o desenvolvimento acelerado e a estagnação?
- Não
- Pois bem, é a mesma que entre a diarreia e a prisão de ventre. É sempre a mesma merda, mas mais acelerada” [46].

Mas não é por tão pouco que me desviarei da linha que tracei na época em que redigi a obra que vão poder ler: porque tratava-se de salientar a que cúmulos de ódio e de “autofobia” tinha chegado o discurso padrão da esquerda francesa passado sob o regime da hegemonia social-democrata. – Claro que, e essa crítica parece-me mais séria, muito nos enganaríamos se pretendêssemos que o sistema capitalista não se baseia senão numa “simples engorda mental” e que a batalha ideológica se reduz à denúncia de um “conjunto de enunciados falsos” [47]. Não se deve sobreavaliar o papel das ideias num sistema em que a base real, o motor principal é a valorização fanática do valor, como diz Marx [48]. Falta dizer que as ideias dominantes do século XX que começava são as de uma dominação que, mais do que idealizar o seu reinado, pretende diabolizar as alternativas. Margaret Thatcher resumiu nas quatro letras do seu acrónimo o seu princípio muito simples: TINA, There Is No Alternative [49]. Os mesmos processos, os mesmos mecanismos delirantes e fantasmas análogos aos dos anos 80: esta é uma quarta e última razão para publicar este livro de novo. Porque, se todos reconhecem de boa vontade, ao fim de alguns meses especialmente dolorosos, que o capitalismo enlouqueceu, muita gente não deixará de continuar a gritar que… nada se compara ao capitalismo! Desonrando o ideal. Desacreditando os combates do passado. Descerebralizando para desesperar. Condenando tudo o que mexe neste mundo que eles conduzem para o abismo.

Paris, 8 de Setembro de 2009

Notas:
1. Volkoff (Vladimir), La Bête et le venin, ou La Fin du communisme, Paris, Éd. De Fallois / L’Âge d’homme, 1992, contracapa.
2. Ibid., p. 23.
3. Ibid., p. 32.
4. Cf. ci-dessous, p. 81-85 : “La Nathalie du camarade Goldring”
5. Hobsbawm (Eric J.), L’Âge des extrêmes, Histoire du Court XXe siècle, Paris, Editions Complexe I Le Monde diplomatique, 2006, p. 8.
6. Sobre este assunto, ver: Marcou (Lilly), Le Crépuscule du communisme, Paris, Presses de Sciences Po, 1997, p. 39.
7. Coutau-Bégarie (Hervé), «Du duopole à la recherche d’autres équilibres. Le retour des années décisives», in: Chaunu (Pierre) éd., Les Enjeux de la paix. Nous et les autres - XVIIIe-XXIe siècle (2º colóquio de Mémorial «Un musée pour la paix», 8 et 9 dec. I994), Paris, PUF, 1995, p. 309.
8. Ibid, p. 317.
9. Outro desgaste colateral, com que os meios de comunicação oficiais decidiram nunca se preocupar em demasia; a progressão, lenta mas inexorável, da extrema-direita na Europa, tanto a oeste como a leste. – A partir de 1992, Adam Michnik, apoiado por Vaclav Havel, inquietava-se com a possibilidade de que o “Partido nacional “(Stronnicrwo Narodowe) obtivesse êxitos estrondosos na Polónia; na Ucrânia, acrescentava, erigiram monumentos a Bandera (nacionalista que colaborou com os nazis); na Eslováqui, reabilitou-se Mgr Tiso (presidente de um governo imposto pelos nazis entre 1939 e 1945); na Roménia, o jornal Romania Maré entoava a glória de Antonescu (ditador pró-nazi de 1940 a 1944) e conseguia um milhão de exemplares; na Hungria festejava-se o “regente” Horthy (que foi o aliado modelo de Hitler); etc. – Cf. Szurek (Jean-Charles) et Mink (Georges) éd., Cet étrange post-communisme. Rupture et transitions en Europe centrale et orientale, Paris, La Découverte / Presses du CNRS, 1992, p. 26-27.
11. Ibid., p. 57.
12. Pontos de vista decalcados sobre os de Tallberg (Jonas), “Explaining the collapse: a review of four approaches to the breakdown of the Soviet Union”, Statesvetenskaplig Tidskrift, 1996, vol. 99, n° 1, p. 91, e de Zafar Imam (N. V.Romanovsky), «How and why the Soviet Union disintegrated?», International Studies, vol. 29, n° 4, oct.-déc. 1992, p. 401-402.
13. Tinguy (Anne de), «Effondrement ou suicide?», in: Tinguy (Anne de) éd., L’Effondrement de l’empire soviétique, op. cit., p. 6-7.
14. Ibid., p. 76.
15. Ibid., p. 3 et 6.
16. Besley (Nick), The End of the Cold War and the Causes of the Soviet Collapse, Basingstoke, Palgrave Macmillan, 2004, p. 109 et 120-121.
17. Lewin (Moshe), «Quatre-vingt ans après la Révolution d’Octobre. Pourquoi l’Union soviétique a fasciné le monde», Le Monde diplomatique, novembre 1997.
18. Salem (Jean), Lénine et la révolution, Paris, Michalon («Encre Marine»), 2006, p. 29-31 et passim.
19. Dunlop (John В.), The Rise of Russia and the Fall of the Soviet Empire, Princeton University Press, Princeton (New Jersey), 1993.
20. Cf. Fowkes (Ben), The Disintegration of the Soviet Union, Basingstoke, ivlacmillan Press Ltd, 1997; cf. également : Williamson (John) éd., Economic Consequences of Soviet Disintegration, Washington, D. C, Institute for International Economics, 1993.
21. Cf. Besley (Nick), The End of the Cold War and the Causes of the Soviet Collapse, op. cit.
22. Título de um trabalho publicado pela Fondation Saint-Simon; ver, sobre este assunto: Laurent (Vincent), “Enquête sur la Fondation Saint-Simon. Les architectes du social-libéralisme”, Le Monde diplomatique, septembre 1998.
23. Cf. Losurdo (Domenico), Fuir l’histoire? Essai sur l’auto-phobie des communistes, Paris, Le Temps des cerises, 2000, p. 37; rééd. Delga / Le Temps des Cerises (augmentée), 2007 : p. 31-32.
24. Losurdo (Domenico), Fuir l’histoire? Essai sur l”auto-phobie des communistes., op. cit., p. 37 (rééd. : p. 32).
25. Ver sobre este assunto : Werth (Nicolas), Histoire de l’Union soviétique, de Khrouchtchev à Gorbatchev, Paris, PUF («Que sais-je?»), 2007, p. 115-1 lé sq.
26. Szurek (Jean-Charles) et Mink (Georges) éd., Cet étrange post-communisme. Rupture et transitions en Europe centrale et orientale, Paris, La Découverte / Pressés du CNRS, 1992, p. 8.
27. Lefort(Claude), La Complication) Retour sur le communisme, Paris, Fayard, 1999, p. 38.
28. Malia (Martin), La Tragédie soviétique - Histoire du socialisme en Russie, 1917-1991, Paris, Seuil, 1995, p. 501.
29. Cf. Streiff (Gérard), Ex-U.R.S.S., un nouveau tiers-monde, Paris, Messidor/ Éditions sociales, 1992, p. 17 et p. 40-41.
30. Boris Eltsine: “democrata” sincero, que desencadeará o ataque ao Parlamento russo omde os deputados se tinham entrincheirado, no dia 4 de Outubro de 1993. Saldo : 150 mortos, 1 000 feridos.
31. Marcou (Lilly), Le Crépuscule du communisme, op. cit., p. 20-21.
32. A expressão é de Alexandre Zinoviev: cf. o seu livro Katastro’ika, Lausanne, Éd. L’Âge d’homme, 1990, p. 47.
33. Ver sobre este assunto: Marcou (Lilly), Le Crépuscule du communisme, op. cit., p. 7 et p. 62-63.
34. Sondagem realizada em Junho de 1984, dias antes de uma “comemoração” muito estreitamente atlantista do desembarque aliado nas praias da Normandia.
35. De lembrar, por exemplo, nesta história, que a URSS assinou em Agosto de 1939 com o Reich alemão o pacto de não agressão que a poupava provisoriamente. Mas que os acordos de Munique através dos quais Paris, Londres e Roma permitiram a Berlim anexar os sudetas e ficar com as mãos livres a leste, tinham sido aprovados um ano antes, ou seja a 29 de Setembro de 1938.
36. Cf. acima, p. 42.
37. Volkoff (Vladimir), La Bête et le venin, ou La Fin du communisme, op. cit., p. 9.
38. Courtois (Stéphane), Werth (Nicolas), Panne (Jean-Louis), Paczkowski (Andrzej), Bartosek (Karel) et Margolin (Jean-Louis), Le Livre noir du communisme. Crimes, terreur et répression, Paris, Robert Laffont, 1997.
39. Expressão atribuída a Martin Malia, La Tragédie soviétique - Histoire du socialisme en Russie, 1917-1991, op. cit., p. 15.
40. Courtois (Stéphane), «Les Crimes du communisme», in: Le Livre noir du communisme, op. cit., p. 30.
41. Furet (François), Le Passé d’une illusion - essai sur l’idée communiste au XXe siècle, Paris, Robert Laffont / Calmann-Lévy, 1995.
42. Cf. acima, p. 281. — Eric Hobsbawm escreveu, por sua vez, em L’Âge des extrêmes. Histoire du Court XXe siècle, Paris, Éditions Complexe / Le Monde diplomatique, 1994, p. 508: “Provavelmente nunca será possível calcular convenientemente o custo de decénios da mão-de-ferro na Rússia, visto que mesmo as estatísticas oficiais das execuções da população do Goulag – se é que existem ou que possam vir a ser divulgadas – não poderão cobrir todas as perdas; além disso, as estimativas variam consideravelmente conforme os pontos de vista. […] Portanto, quaisquer que sejam as hipóteses utilizadas, o número de vítimas directas e indirectas deve medir-se em oito dígitos e não em sete. Nestas circunstâncias, pouco importa que se faça uma estimativa prudente, mais perto de dez milhões do que de vinte, ou um número mais elevado: em todos os casos, obtém-se um resultado vergonhoso, que nada poderá atenuar ou justificar”.
Confesso que estas aproximações (assumidas como tal), mesmo que proviessem de um sábio de primeira, também não me parecem totalmente convincentes. – E se a minha perplexidade parece excessivamente desajustada, remeto os meus contraditores para o facto de que todos eles “viram”, como eu vi, no final de 1989, os 5 000 supliciados de Timisoara e que todos foram informados, pela mundovisão, do fim sangrento do regime de Ceausescu e do massacre subsequente de 60 000 cidadãos romenos. Ora, os cadáveres filmados em Timisoara eram provenientes duma morgue e tinham sido aproveitados para uma grosseira encenação; e está-se hoje de acordo com a estimativa de 600 (ou quando muito 1 000) em relação ao número de pessoas que encontraram a morte no decurso dos motins romenos de Dezembro de 1989. Ver sobre este assunto o livro de Michel Castex, jornalista da AFP: Un mensonge gros comme le siècle. Roumanie, l’histoire d’une manipulation, Paris, Albin Michel, 1990.
43. Tinguy (Anne de), «Effondrement ou suicide?», in: Tinguy (Anne de) éd., L’Effondrement de l’empire soviétique, op. cit., p. 4, note 6.
44. Miguel Urbano descreveu perfeitamente o horror que é hoje fazer uma visita a Moscovo, com os seus preços medonhos, os seus casinos, a sua riqueza arrogante e o contraste incrível que existe entre esta cidadela do capitalismo selvagem e o resto da Rússia muito pobre; ver o seu artigo [em português]: Urbano Rodrigues (Miguel), «Dez dias em Moscovo. Um reencontro doloroso», no endereço http://odiario.info/articulo.php?p=1267&more=l&c
45. Cf. Perrault (Gilles), Un homme à part, Barrault, 1984. — Como o capítulo V «homme à part» pertence a Henri Curiel, é dele (como de um grande número de militantes e de outros cidadãos do terceiro-mundo) a paternidade deste juízo.
46. Zinoviev (Alexandre), Katastroïka, Lausanne, Ed. L’Âge d’homme, 1990, p. 195 (cf. também : p. 88).
47. Expressões tiradas de: Garo (Isabelle), L’Idéologie ou la pensée embarquée, Paris, La Fabrique, 2009, p. 61-62 e 87.
48. Marx (Karl), Le Capital, livre I, trad. Jean-Pierre Lefebvre, Paris, PUF, 1993, p. 663.
49. Cf. Garo (Isabelle), L p. cit., p. 49.

* Jean Salem, amigo e colaborador de odiario.info, é Professor de Filosofia na Sorbonne, França.

Tradução de Margarida Ferreira

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